13 de março de 2019 Autor : João Primo Em Portugal, a sua prevalência é de 2,5% , como concluiu um estudo realizado num curto espaço de tempo e que envolveu 10 000 pessoas, com mais de 40 anos, de todas as regiões do país. A prevalência de fibrilhação auricular aumenta muito com a idade . Este aumento é tanto maior quanto mais avançado é o grupo etário: a partir dos 50 anos, a incidência duplica em cada década de vida. Assume, por isso, aspetos epidémicos na nossa civilização, em que a esperança de vida continua a aumentar. Quais são os fatores de risco para a fibrilhação auricular? Além da idade avançada, a fibrilhação auricular está associada a várias doenças concomitantes , como por exemplo: Hipertensão arterial; Diabetes; Obesidade; Apneia do sono; Insuficiência cardíaca; Doença valvular; Doença coronária; Tabagismo. Como se manifesta a fibrilhação auricular? O espectro de manifestações clínicas é muito variado, podendo contar com palpitações irregulares e muito sintomáticas . Estas afetam os doentes de forma paroxística (com crises intensas), tendo necessidade de um recurso repetido à urgência hospitalar. Por outro lado, as manifestações podem evoluir de forma insidiosa e silenciosa , mantendo-se sem diagnóstico, até que uma complicação se desenvolva. Quais são os riscos associados à fibrilhação auricular? Qualquer que seja a forma de apresentação, o risco de acidente vascular cerebral (AVC) é 5 vezes superior. Já a mortalidade é 2 vezes superior nos doentes com fibrilhação auricular, relativamente aos que estão em ritmo cardíaco normal, denominado ritmo sinusal. Está também, bem demonstrada, a relação entre a fibrilhação auricular e síndromes demenciais. Qual é o melhor tratamento para a fibrilhação auricular? A redução do risco trombo-embólico é a 1ª prioridade do tratamento, estando recomendado o uso de hipocoagulantes orais , em todos os doentes que tenham um risco aumentado de AVC. As tabelas de risco permitem estimá-lo para cada doente e excluir daquele tratamento apenas os que têm um baixo risco. Atualmente é preferida a utilização, nestes doentes, dos novos anticoagulantes orais. Estes, estão associados a uma proteção maior e mais constante , bem como, a um menor risco de hemorragia intracraniana. Além disso, não exigem a realização de análises periódicas de controlo. A 2ª prioridade do tratamento é a manutenção do ritmo sinusal , sendo este objetivo conseguido à custa de medicamentos antiarrítmicos ou de ablação por cateter. Conseguir manter o ritmo sinusal de forma sustentada pode ser uma tarefa complexa. Assim, muitas vezes, torna-se necessário optar entre controlar a frequência cardíaca apenas com medicamentos específicos ou recorrer a pacemakers . O pacemaker considera-se uma solução imperfeita mas que, em conjunto com a hipocoagulação oral , pode ser adequada em doentes com idade mais avançada. Antiarrítmicos vs ablação por cateter Os antiarrítmicos não têm uma eficácia elevada e podem ser responsáveis por efeitos pró arrítmicos. Assim, podem ser responsáveis pelo aparecimento de novas arritmias, por vezes mais graves, e por outros efeitos colaterais. A ablação por cateter provou ser mais eficaz na manutenção do ritmo sinusal. Desta forma, é aconselhada em doentes com recidiva de fibrilhação auricular, após uso de um antiarrítmico ou como 1ª escolha em casos selecionados. Qual o procedimento da ablação por cateter? Os doentes devem ser referenciados em tempo útil para um centro de eletrofisiologia com experiência em ablação da fibrilhação auricular, ou seja, logo que o procedimento esteja indicado. O tratamento não deve ser protelado pois, numa fase tardia, o sucesso da ablação é inferior. Com efeito, à medida que a fibrilhação auricular persiste, ocorrem alterações na estrutura auricular, como dilatação e fibrose. Estas são precedidas de alterações elétricas e ultraestruturais , que se tornam irreversíveis . Numa fase precoce, são predominantes estímulos elétricos suprimíveis pela ablação. Estudos recentes demonstram que a ablação da fibrilhação auricular, além de conseguir o controlo sintomático , também contribui para a redução da mortalidade, do risco de AVC e de demência. Doentes com fibrilhação auricular submetidos a ablação por cateter e em que é possível manter sustentadamente o ritmo sinusal, têm um prognóstico em tudo idêntico ao uma população sem a doença. A par disso, têm também resultados mais favoráveis do que os de doentes que não foram submetidos a ablação. Em resumo, a ablação da fibrilhação auricular é um tratamento eficaz, que: Permite uma conversão a ritmo normal sustentada; Promove a diminuição das consequências nefastas de uma disritmia cardíaca, que é, sem dúvida uma epidemia dos tempos modernos. 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