25 de janeiro de 2024 Autora : Ana Filipa Brás Numa gravidez normal, depois da fecundação, que ocorre nas trompas de Falópio, o óvulo fertilizado inicia uma viagem através destas até à cavidade uterina, implantando-se no endométrio (camada interna da parede do útero). Uma gravidez ectópica acontece quando o embrião não chega ao útero , fixando-se noutro local que não a cavidade a uterina, inviabilizando o normal desenvolvimento embrionário e/ou fetal. Na maioria dos casos (96%) a implantação ocorre nas trompas uterinas e designa-se por gravidez ectópica tubária . Outras possibilidades de implantação são, por exemplo, os ovários (1%-3% dos casos), o colo do útero, a parede abdominal ou até a cicatriz de uma cesariana anterior. Raramente, numa gravidez gemelar, pode ocorrer uma implantação uterina normal e uma implantação ectópica, designando-se esta situação por gravidez heterotópica. A gravidez ectópica pode ser uma situação clínica grave: O tecido ectópico onde o óvulo fertilizado se implanta não está preparado para tal, pelo que à medida que a gravidez evolui aumenta o risco de rotura e, consequentemente, de hemorragia interna que pode ser fatal; A hemorragia por gravidez ectópica representa 3%-4% da mortalidade relacionada com a gravidez. Quem pode ter uma gravidez ectópica? Qualquer mulher em idade fértil pode ter uma gravidez ectópica , embora esta não seja frequente. Estudos realizados nos EUA revelam uma incidência variável entre 6,4 e 20,7 casos por 1000 gravidezes. Parece haver um aumento da incidência de gravidez ectópica com a idade e uma diminuição da incidência ao longo das últimas décadas. Por outro lado, há mulheres com maior probabilidade de gravidez ectópica : Entre os fatores de risco mais importantes estão a história de gravidez ectópica prévia, doença ou cirurgia tubar prévia, utilização de dispositivo intrauterino e fertilização in vitro; Antecedentes de infeções sexualmente transmissíveis ou doença inflamatória pélvica, cirurgia abdominal ou pélvica prévia, uso de anticoncecionais orais e consumo de tabaco estão entre os fatores de risco com uma importância moderada; Fatores de risco menos importantes incluem, por exemplo, a idade superior a 40 anos, a realização prévia de interrupção da gravidez induzida por medicamentos e o início da vida sexual em idades jovens. Sintomas Não sendo uma gravidez viável, a gravidez ectópica termina precocemente na maioria dos casos, seja naturalmente ou por intervenção médica. O quadro clínico pode ser muito variável, desde perfeitamente assintomático até à situação extrema de choque hipovolémico com síncope, hipotensão e taquicardia. A tríade clássica, presente em até 50% dos casos, consiste em: atraso menstrual, hemorragia vaginal escassa e dor abdominal . Na ausência de complicações, deve suspeitar-se de gravidez ectópica: Numa mulher em idade fértil, sem gravidez conhecida mas possível, com dor abdominal sem outra causa identificável; Perante uma gravidez conhecida (teste positivo) com dor abdominal inexplicada com ou sem hemorragia vaginal. A dor abdominal é geralmente unilateral, mas pode ser difusa, variando de intensidade dependendo do grau de evolução do quadro clínico. Se houver hemorragia interna importante a paciente pode referir dor com irradiação para o ombro ou intensa vontade e dor ao evacuar. Diagnóstico e tratamento O diagnóstico de gravidez ectópica apenas pelos sintomas nem sempre é fácil. Geralmente, o diagnóstico é obtido após um exame ginecológico, uma ecografia transvaginal e doseamento sanguíneo de gonadotrofina coriónica humana (HCG), a hormona da gravidez. Um HCG positivo, mas com elevação dos valores num padrão mais lento que o habitual, associado a ausência de visualização de embrião intra ou extra-uterino são muito suspeitos e exigem investigação. Quando a gravidez é muito precoce nem sempre é fácil identificar a localização ectópica do embrião. Assim, e não havendo outras questões que o impeçam, os exames são repetidos a cada 48 horas até ao diagnóstico de certeza e subsequente conduta terapêutica. Dependendo das particularidades de cada caso, a gravidez ectópica pode ter resolução espontânea, sem intervenção médica . Quando há necessidade de tratamento médico : Com fármacos, se cumpridos critérios de inclusão (nomeadamente estabilidade clínica e hemodinâmica da paciente, tamanho massa e valor de HCG) que impedem a evolução embrionária; Por cirurgia, laparoscópica (minimamente invasiva) preferencialmente ou por laparotomia, havendo necessidade na maior parte das vezes de remover a trompa de Falópio onde o embrião se implantou. Uma gravidez ectópica não impede necessariamente uma gravidez futura, mas é um fator de risco importante de recorrência de nova gravidez ectópica. Assim, as mulheres nestas circunstâncias fazem habitualmente uma vigilância ginecológica e obstétrica reforçada. Fontes Tulandi T. Ectopic pregnancy: Epidemiology, risk factors, and anatomic sites (www.uptodate.com) Conheça a equipa clínica de Ginecologia-Obstetrícia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. 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