11 de março de 2019 Autor: Vitor Costa A doença hemorroidária é muito frequente. A sua prevalência é semelhante nos homens e nas mulheres e é mais elevada entre os 45 e os 65 anos. As hemorroidas podem localizar-se em redor do ânus (hemorroidas externas) ou dentro do ânus e na porção mais baixa do reto (hemorroidas internas). Os 2 tipos de hemorroidas, externas e internas, podem coexistir. As hemorroidas internas são classificadas em 4 graus (I a IV), em função do nível de prolapso (ou seja, da exteriorização) através do ânus: Hemorroidas de grau I: não prolapsam através do ânus; Hemorroidas de grau II: prolapsam através do ânus e a sua redução (ou seja, o retorno à sua posição original) é espontânea; Hemorroidas de grau III: prolapsam através do ânus e a sua redução só é conseguida manualmente; Hemorroidas de grau IV: estão prolapsadas através do ânus e a sua redução não é possível. Quais são as causas das hemorroidas? As causas de hemorroidas são diversas . Entre as várias causas conhecidas para as hemorroidas, incluem-se: A obstipação, associada ao esforço durante a defecação; A diarreia com expulsão contínua de fezes moles; A permanência em pé ou sentado durante períodos de tempo prolongados; A obesidade; A gestação e o parto; A predisposição hereditária. Independentemente da causa, os tecidos da parede do reto e do canal anal sofrem um estiramento importante. Este interfere com a sua função de suporte e favorece a dilatação dos vasos sanguíneos , cujas paredes se tornam mais finas, alterando a sua posição fisiológica. Em consequência, há um aumento da pressão nos vasos hemorroidários localizados na parede do reto e canal anal. Assim, os vasos debilitados e dilatados tornam-se salientes no reto e canal anal. Nestes vasos dilatados e salientes, a circulação de retorno está comprometida, o que favorece ainda mais a sua dilatação, a estase venosa e a formação de coágulos. Quais são os sintomas das hemorroidas? A presença de hemorroidas pode estar ou não associada à manifestação de sintomas. Quando presentes, os sintomas de hemorroidas podem diferir conforme se trate de hemorroidas externas ou internas. Sintomas das hemorroidas externas As hemorroidas externas são visíveis e percetíveis como regiões duras e/ou escuras salientes em redor do ânus. A pele que as cobre é muito sensível, pelo que, normalmente, são dolorosas. Quando se formam coágulos obstrutivos (trombose hemorroidária), a dor pode mesmo ser muito intensa. As lesões da pele que cobre as hemorroidas podem também resultar em hemorragia , com a presença consequente de sangue , de coloração vermelho vivo, normalmente a cobrir as fezes e/ou no papel higiénico. Sintomas das hemorroidas internas As hemorroidas internas não são visíveis , exceto quando estão prolapsadas através do ânus. Normalmente, não são dolorosas , exceto quando prolapsadas e quando coexiste trombose hemorroidária. O esforço associado à defecação e à saída das fezes, pode também, provocar lesões da superfície das hemorroidas internas, com uma hemorragia consequente. As hemorroidas internas de grau III e IV podem também estar associadas à incontinência fecal e à presença de um corrimento mucoso que provoca irritação e prurido anal . Devem ser procurados cuidados médicos sempre que estejam presentes dor e hemorragia , mesmo quando se julga que tais sintomas são devidos a hemorroidas. Com efeito, a presença de sangue nas fezes é um sintoma comum a diversas doenças digestivas, como por exemplo, o cancro colorretal. Por isso, torna-se muito importante que seja investigada por um gastrenterologista ou por um cirurgião colorretal , para que seja possível realizar um diagnóstico correto e instituir um tratamento eficaz. Nesta matéria deve sempre ser evitada qualquer autoavaliação e/ou automedicação. Como se faz o diagnóstico das hemorroidas? Além da história do doente e do exame físico , os restantes procedimentos necessários para o diagnóstico de hemorroidas variam também, conforme se trate de hemorroidas externas ou internas. O diagnóstico de hemorroidas externas pode ser realizado pela simples observação. O diagnóstico de hemorroidas internas , quando estas não estão prolapsadas, implica um toque retal , mas mesmo este, pode não ser conclusivo. Nesse caso, poderá ser necessário realizar, os seguintes exames: Anuscopia; Retoscopia; Sigmoidoscopia; Colonoscopia. Alguns destes exames permitirão também eliminar a possibilidade de outras causas para os sintomas presentes, por exemplo, para a presença de sangue nas fezes. Como se tratam as hemorroidas? Os gastrenterologistas e os cirurgiões gerais são os médicos que o podem ajudar no tratamento desta doença. As crises agudas , com dor intensa e presença de saliências anais múltiplas e grandes, são, em regra, episódicas e, independentemente, da sua gravidade, devem-se a trombose hemorroidária. Na trombose hemorroidária , o médico opta por remover a hemorroida que contém o coágulo, através de uma pequena incisão . Esta pequena intervenção realiza-se sob anestesia local , em ambulatório e resolve o episódio definitivamente. Fora das crises agudas, o tratamento de hemorroidas externas de pequena dimensão, associadas a sintomas ligeiros, tem como objetivo reduzir o esforço durante a defecação , através da produção de fezes menos duras e mais moldadas. Simultaneamente, o traumatismo do revestimento do canal anal passará a ser menos importante, o que reduz a probabilidade de hemorragia. O tratamento inclui assim, principalmente, alterações da dieta , com o aumento da proporção de alimentos fibrosos (frutas, legumes e cereais integrais) e de líquidos não alcoólicos. Os sintomas de irritação e prurido podem também ser aliviados com banhos de assento e medicamentos de aplicação local. As hemorroidas sintomáticas , que não cedem com a implementação das medidas atrás referidas, bem como as hemorroidas internas, de maior dimensão, com prolapso frequente ou mesmo permanente, exigem um tratamento especial, instrumental ou cirúrgico. O tratamento instrumental , e muitas vezes também o tratamento cirúrgico , podem ser realizados em regime de ambulatório . Métodos de tratamento instrumental das hemorroidas: A laqueação elástica; A esclerose; Coagulação por infravermelhos ou laser; Crioterapia. Tratamento de hemorroidas por laqueação elástica A laqueação elástica é um tratamento com bons resultados para as hemorroidas internas de grau I a III , sobretudo para doentes com comorbilidades importantes e risco cirúrgico aumentado. É aplicada uma pequena banda elástica de borracha na base da hemorroida que interrompe o aporte de sangue e provoca a sua necrose . Ao fim de alguns dias a hemorroida destaca-se, junto com o elástico e a ferida cicatriza no prazo de 1 a 2 semanas. Tratamento de hemorroidas por esclerose No tratamento por esclerose é injetado localmente nos vasos hemorroidários um produto esclerosante que interfere com a vascularização da hemorroida e provoca a sua necrose . Usa-se principalmente em hemorroidas internas de grau I e II, em alternativa à laqueação elástica, mas a sua eficácia é inferior. Tratamento cirúrgico das hemorroidas Normalmente, o tratamento cirúrgico é reservado para: Doentes em que os procedimentos instrumentais não permitiram resolver o problema (ou seja, aliviar a dor, prurido, hemorragia, formação de coágulos ou infeções associadas); Doentes em que coexiste uma doença hemorroidária externa e interna grave ou em que a anatomia anorretal está gravemente alterada, ou como tratamento inicial de eleição para as hemorroidas de grau IV; Os procedimentos cirúrgicos mais usados no tratamento das hemorroidas são a hemorroidectomia e a mucosectomia circular anorretal e mais recentemente a cirurgia laser. Tratamento de hemorroidas por mucosectomia Na mucosectomia circular anorretal (operação de Longo) é realizada uma excisão da mucosa anal, reduzindo o seu prolapso. Esta técnica, que em casos selecionados proporciona uma taxa de cura elevada, tem como principais vantagens: Permitir uma redução importante da dor no pós-operatório; Diminuir apreciavelmente o período de convalescença, com um retorno mais rápido à atividade normal. Tratamento de hemorroidas por hemorroidectomia A hemorroidectomia consiste na remoção cirúrgica das hemorroidas . Continua a ser o tratamento mais eficaz para conseguir uma cura a longo prazo. Na hemorroidectomia é removido o excesso de tecido que causa a hemorragia e o prolapso. A intervenção é realizada sob anestesia geral ou locorregional (epidural ou raquianestesia). Pode ser necessário, conforme as circunstâncias, um curto período de internamento , que normalmente, não ultrapassa as 24 horas. Obriga, também, a um período variável de inatividade. A hemorroidectomia a laser é uma das técnicas mais recentes, nesta cirurgia inovadora realiza-se a fotocoagulação das hemorroidas, levando a uma redução significativa das mesmas, eliminando assim as queixas. É feita num procedimento de ambulatório, em que praticamente o doente não tem dor no pós-operatório, permitindo um rápido regresso à sua vida normal. Como prevenir as hemorroidas? A prevenção das hemorroidas passa por evitar situações que aumentam a pressão ao nível dos vasos e tecidos anais. Entre as medidas mais importantes, inclui-se evitar o esforço durante a defecação. Neste caso, será particularmente útil aumentar a inclusão de alimentos fibrosos na dieta e de líquidos não alcoólicos . Desta forma, será possível: Amolecer as fezes; Aumentar o seu volume; Moldá-las; Facilitar a defecação. Nos casos em que o aumento da ingestão de alimentos fibrosos e de líquidos não permita conseguir este efeito, poderá ser considerada a utilização de suplementos / medicamentos específicos . Nas mulheres grávidas , os cuidados para evitar a obstipação e o esforço durante a defecação são especialmente importantes. É também importante que a vontade de defecar não seja contrariada , ou seja, sempre que possível as fezes devem ser eliminadas, logo que a vontade de o fazer é percetível. A prática de atividade física pode também ajudar, nomeadamente, por contrariar períodos de tempo prolongados em pé ou sentado. Conheça a equipa de Cirurgia Geral da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.