20 de novembro de 2025 Autora : Juliana Oliveira (cirurgia geral) Uma hérnia da parede abdominal é uma protusão (projeção, saída) de conteúdo intra-abdominal (tecidos, órgãos, mais frequentemente intestino) através de um ponto de fraqueza da parede abdominal. A parede abdominal não é tão rígida como à partida o nome parece indicar. É composta por músculos que se estendem desde o limite inferior das costelas, superiormente, até aos ossos da bacia, inferiormente, e na região posterior até à coluna; Estes músculos estão dispostos em diferentes camadas e com diferentes orientações; Em conjunto garantem a capacidade dinâmica e flexibilidade da parede abdominal. Uma fraqueza da parede abdominal pode ser: Congénita, quando está presente ao nascimento; Adquirida, quando ocorre em qualquer altura ao longo da vida, por aumento de uma zona de fragilidade, em pontos já por si mais frágeis da parede abdominal. As hérnias abdominais podem também ser: Primárias, quando ocorrem sem ter havido qualquer intervenção prévia no local da hérnia; Incisionais, quando ocorrem em zonas que foram intervencionadas, o que causou uma fragilidade de novo na parede abdominal. Localização das hérnias abdominais As hérnias da parede abdominal podem surgir em diversas localizações. Localização das hérnias primárias Subxifoideias : imediatamente abaixo do apêndice xifoide que é extremidade inferior do esterno. Epigástricas : junto ao estômago. Umbilicais : através do umbigo. Infraumbilicais : sob o umbigo. Suprapúbicas : acima do osso púbico. Inguinais : acima do ligamento inguinal, mais comum nos homens. Femorais : abaixo do ligamento inguinal, mais comum nas mulheres. Spiegel : na zona lateral entre o umbigo e o osso da bacia. Lombares : nas costas, na região lombar. Localização das hérnias incisionais As hérnias incisionais podem ocorrer em qualquer localização da parece abdominal associada a uma cicatriz da incisão da uma cirurgia anterior. Fatores de risco para hérnias abdominais As hérnias da parede abdominal são mais comuns no sexo masculino e as hérnias inguinais as mais frequentes. Os fatores de risco estão bem identificados: Fatores que aumentem a pressão abdominal tais como a obesidade, gravidez, tosse cronica, obstipação crónica e esforços repetidos ou únicos de grande intensidade; Fatores que fragilizam a parede abdominal como doenças colagénio, envelhecimento e perda de força muscular, desnutrição, tabagismo, medicação crónica (por exemplo, corticoterapia) e incisões prévias. Sintomas e diagnóstico de hérnia abdominal Na maioria dos casos, é sentida uma protusão (tumefação, como se fosse um inchaço) no local da hérnia, que aumenta com o esforço, e que pode causar algum incómodo e dor . É redutível , quando fica menos evidente ou mesmo desaparece (reduz) com o repouso ou aplicando alguma pressão manual. Pelo contrário, uma hérnia irredutível é aquela em que o conteúdo herniário não se consegue repor dentro da cavidade abdominal. As hérnias podem também ser incoercíveis , quando apesar de se conseguirem reduzir, rapidamente o conteúdo se projeta novamente pelo orifício herniário. As hérnias irredutíveis podem ficar: Encarceradas (presas) no orifício por onde o conteúdo se projeta para fora da cavidade abdominal; E stranguladas se houver compromisso da vascularização no conteúdo herniário. Uma hérnia estrangulada pode levar a isquemia (e necrose ou morte) do conteúdo herniado, normalmente o intestino, pelo que é uma urgência cirúrgica. Neste caso, a tumefacção acompanha-se, normalmente, de náuseas ou vómitos, aumento da distensão abdominal, diminuição da emissão de gases e fezes e dor e inflamação local. A avaliação em consulta de cirurgia geral de um doente com queixas de tumefação na parede abdominal quase sempre resulta num diagnóstico de hérnia. No entanto, na generalidade dos casos será necessário realizar exames para esclarecer dúvidas. De acordo com as orientações mais recentes e principalmente em hérnias mais complexas, a tomografia computorizada (TC), é o exame de eleição para conseguir ter a melhor definição do orifício herniário, dos músculos envolvidos e do conteúdo herniário, permitindo assim um melhor planeamento cirúrgico. Tratamento das hérnias abdominais Uma hérnia abdominal tem sempre indicação para cirurgia porque: Não é reversível sem este tratamento; Pode comprometer o suprimento sanguíneo ao conteúdo da própria hérnia; Pode causar outras complicações como oclusões intestinais. As hérnias encarceradas ou estranguladas têm indicação para cirurgia ainda mais urgente. As hérnias que não provocam sintomas (assintomáticas) podem não ter indicação operatória imediata. Otimização pré-operatória Quando não se trata de um contexto de urgência, e para que a cirurgia tenha os melhores resultados, otimizar as condições do doente, através do controlo de fatores de risco para minimizar as complicações pós-operatórias como infeções, hematomas e recidivas a longo prazo. Assim, podem ser aconselhadas intervenções como, por exemplo: Promover o emagrecimento; Seguir um programas de cessação tabágica; Otimizar o controlo de doenças crónicas, como a diabetes; Reabilitação motora e funcional da parede abdominal com fisioterapia; Injeções de toxina botulínica (botox) na parede abdominal, para aumentar a flexibilidade e reduzir a pressão, nos casos de hérnias ventrais de muito grandes dimensões. Abordagem cirúrgica Na maioria dos casos o tratamento definitivo de uma hérnia abdominal passa sempre por cirurgia, na maioria dos casos com colocação de uma prótese ou rede, que diminui o risco de recidiva. O tipo de cirurgia depende da localização da hérnia, da sua dimensão e de fatores associados ao doente, como comorbilidade, cirurgias prévia, entre outros. Há dois tipos de abordagem cirúrgica : Aberta, convencional ou via anterior; Minimamente invasiva ou laparoscópica, que é a preferida sempre que seja tecnicamente possível. A laparoscopia é menos invasiva pois, na maioria dos casos, usa três pequenas incisões (com 1 cm ou menos) na parede abdominal para aceder à cavidade abdominal. Uma câmara permite identificar a hérnia, reduzir o seu conteúdo e aplicar uma prótese interna. Além disso, como é possível a visão interna de toda a parede abdominal é possível identificar outras hérnias que possam existir e corrigi-las no mesmo tempo operatório. Isto acontece especialmente com as hérnias inguinais e femorais pequenas, que podem ser subdiagnosticadas no exame físico. Com a laparoscopia, a recuperação é menos dolorosa, o retorno à vida ativa mais rápido, o risco de complicações da ferida operatória - por exemplo seromas (colecões líquidas), hematomas e infeções - menor, e o resultado estético mais satisfatório. Pós-operatório e seguimento As principais complicações locais são Imediatas: infeções e hematomas da ferida operatória; A longo prazo: dor crónica e a recidiva. A recuperação pós-operatória dos doentes operados é rápida . São incentivados a fazer levante da cama e a deambular precocemente. A maioria tem alta em menos de 24 horas. Os cuidados de penso são realizados em ambulatório e os pontos de sutura são retirados normalmente até ao 12º dia e feita a reavaliação em consulta de cirurgia geral. Em alguns casos pode haver indicação para usar de cinta abdominal de contenção durante o primeiro mês de pós-operatório. O doente é incentivado a retomar a sua atividade profissional o mais precocemente possível, no primeiro mês pós-operatório. Em geral a atividade física regular pode ser retomada entre o primeiro e o segundo mês pós-operatório. Conheça a equipa clínica de cirurgia geral da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.