13 de julho de 2023 Autor : João Casanova A quimioterapia intraperitoneal hipertérmica , mais conhecida como HIPEC , é uma opção de tratamento que pode estar indicada em casos de cancro com metastização peritoneal. O objetivo é eliminar doença que não é visível a olho nu, complementando assim uma cirurgia de citorredução, na qual é removida a doença visível. Na HIPEC são administrados fármacos citotóxicos (quimioterapia) na cavidade peritoneal a uma temperatura superior à normal (hipertermia). É feita no mesmo tempo operatório, mas depois da cirurgia de citorredução . A hipertermia potência os efeitos dos fármacos administrados e pode também induzir outras respostas anti-tumorais, relacionadas ou não especificamente com o tumor primário, algumas das quais ainda não estão completamente esclarecidas. A HIPEC é geralmente realizada quando a cirurgia de citorredução é feita por via aberta. São perfundidos na cavidade peritoneal soro fisiológico aquecido e os fármacos de quimioterapia, atingindo-se uma temperatura local de 40 o C-43 o C. A temperatura no resto do organismo é mantida dentro dos limites normais, recorrendo a fluidoterapia intravenosa específica, cobertores e bolsas de arrefecimento. Apesar dos resultados até agora obtidos, o papel da HIPEC no tratamento do cancro do ovário não está ainda completamente definido . Resultados da HIPEC no cancro do ovário Os resultados conseguidos com a HIPEC em doentes com carcinoma do ovário (carcinoma seroso de alto grau), que representa cerca de 85%-90% dos casos de cancro primário deste órgão, nem sempre têm sido concordantes e são influenciados por vários fatores: Estão relacionados com os tratamentos prévios, com o grau de evolução da doença, com a repetição da HIPEC, com outros tratamentos de quimioterapia posteriores e até com variações biológicas dos tumores, incluindo mutações dos genes BRCA. Em revisões recentes de resultados de estudos publicados verificou-se: Em cerca de 600 doentes, uma melhoria significativa do período de tempo livre de doença e da sobrevivência global nas doentes submetidas a HIPEC e cirurgia de citorredução, realizadas depois de tratamentos de quimioterapia neoadjuvante (prévia à cirurgia) comparativamente a doentes que não realizaram a quimioterapia neoadjuvante, nas quais a HIPEC não demonstrou ter vantagens. Outros estudos revelaram resultados contraditórios da HIPEC e cirurgia de citorredução, em situação de recidiva da doença, comparativamente a doentes que realizam apenas quimioterapia intravenosa. Nesta data, algumas orientações de abordagem da doença (por exemplo as da National Comprehensive Cancer Network, NCCN) indicam que a HIPEC pode ser uma opção depois da cirurgia de citorredução em doentes com carcinoma do ovário em estadio FIGO III que fizeram quimioterapia neoadjuvante com resposta favorável. Noutros casos, como as orientações European Society for Medical Oncology, a HIPEC não é considerada como tratamento de primeira linha, devendo ser reservada a doentes incluídas em ensaios clínicos. O uso de HIPEC no carcinoma do ovário continua assim a ser uma área de investigação importante. Estão atualmente em curso vários ensaios clínicos com datas de conclusão previstas para os próximos 5 anos, em várias partes do mundo, que pretendem esclarecer várias questões que continuam em aberto . Fontes Filis P, Mauri D, Markozannes G, Tolia M, Filis N, Tsilidis K. Hyperthermic intraperitoneal chemotherapy (HIPEC) for the management of primary advanced and recurrent ovarian cancer: a systematic review and meta-analysis of randomized trials. ESMO Open 2022;7:100586. doi: 10.1016/j.esmoop.2022.100586. Gadducci A, Cosio S, Lippolis PV. Hyperthermic intraperitoneal chemotherapy in the management of primary epithelial ovarian cancer: A debated issue for gynecologic oncologists. Anticancer Res 2022;42:4659-4665. doi: 10.21873/anticanres.15970. Conheça a equipa clínica de ginecologia-obstetrícia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.