26 de agosto de 2021 Autora : Susana Coutinho Prolapso do útero O prolapso do útero, ou histerocelo, é a descida do útero da sua posição normal . Pode ou não ser acompanhado pelas paredes da vagina ou por órgãos adjacentes, como a bexiga e o intestino. O útero descido comprime a vagina dando origem a desconforto , que se acentua ao longo do dia, com sensação de peso ou de presença local de uma bola. O grau do prolapso é variável, o útero pode chegar a exteriorizar-se através da abertura vaginal, sem ser possível a sua redução manual. A localização do útero mais baixa do que o normal pode provocar incómodo nas relações sexuais . A deslocação da bexiga ou do reto das suas posições normais pode dar origem a alterações do funcionamento urinário e intestinal. O prolapso dos órgãos pélvicos deve-se sobretudo ao enfraquecimento das estruturas de suporte do pavimento pélvico , que mantêm aqueles órgãos na sua posição normal. Pode várias causas, que frequentemente atuam em conjunto, por exemplo: Traumas associados à passagem do feto durante o parto; Esforço físicos abdominais exagerados e repetidos; Excesso de peso; Tosse crónica; Envelhecimento normal. A cirurgia é uma opção eficaz de tratamento do prolapso do útero. Estima-se em 11% a probabilidade de uma mulher ser operada por este motivo ao longo da vida. Quando estão envolvidos outros órgãos pélvicos no prolapso além do útero, o mesmo tempo operatório pode incluir várias intervenções. Correção cirúrgica do prolapso do útero A correção cirúrgica do prolapso do útero pode ser feita mantendo este órgão e corrigindo a sua posição, ou envolver a sua remoção ou histerectomia. Cirurgia com conservação do útero Quando é feita com conservação do útero, a cirurgia envolve a suspensão do útero e do ápex da vagina aos ligamentos pélvicos ou a próteses, para garantir que retoma a sua posição normal. No entanto há várias situações em que é preferível e se aconselha a histerectomia, prevenindo-se desta forma a recorrência do problema e a necessidade de uma nova operação. Entre estas situações estão: Úteros com alterações na forma ou posição, por exemplo, alongamento hipertrófico do colo; Úteros com doença concomitante, por exemplo miomas, doenças do endométrio; Acesso dificultado aos ligamentos de suporte que permitiriam a reconstrução do eixo vaginal. Histerectomia Uma histerectomia é a remoção cirúrgica do útero . Pode ser feita por via abdominal – aberta ou laparoscópica – ou por via vaginal. Quando é feita uma histerectomia em mulheres em idade fértil deixa de ser possível voltar a engravidar. No entanto, não há: Alterações das hormonas femininas; Interferência nas relações sexuais. Se na mesma cirurgia da histerectomia forem também retirados os ovários, por alguma indicação, haverá menopausa cirúrgica com alterações da produção de hormonais femininas. Histerectomia vaginal A histerectomia por via vaginal é uma opção comum no tratamento do prolapso do útero, com diversas vantagens : Não é necessário atravessar outras estruturas, como acontece na via abdominal; A recuperação é menos dolorosa; Tem menos complicações potenciais do que o acesso abdominal. A histerectomia por si só não é em regra suficiente para corrigir o prolapso. Assim, são usadas simultaneamente técnicas de suspensão da cúpula vaginal , para garantir um suporte adequado. A histerectomia vaginal é feita em ambiente hospitalar, sob anestesia loco-regional ou geral e requer internamento de 2-3 dias. Ficam curadas definitivamente 85% das mulheres com prolapso uterino tratado com histerectomia vaginal. Estão descritas recidivas em até 15 % dos casos e estas podem surgir meses ou anos após a intervenção inicial. Estas taxas dependem principalmente: Gravidade do prolapso inicial; Adequação da técnica cirúrgica às especificidades de cada caso; Manutenção ou não de fatores de risco para o prolapso. Preparação para a cirurgia A preparação para a histerectomia vaginal envolve a avaliação do estado geral de saúde , incluindo resultados de exames de diagnóstico pré-operatórios pelo médico responsável pela cirurgia e pelo médico anestesista. Nestas consultas são pedidos pormenores sobre a história pessoal e familiar de saúde e sobre medicação habitual. Em alguns casos, pode ser necessário fazer tratamentos vaginais antes da cirurgia . Na maioria dos casos aconselha-se uma dieta ligeira nas 24-48 horas antes da cirurgia, a realização de microclisteres de limpeza no dia anterior ou no próprio dia e a tricotomia ( remoção de pelos ) genital. É imprescindível um período de jejum mínimo de 6 horas, de sólidos e líquidos, para realizar a cirurgia. Cirurgia A preparação já realizada no hospital inclui antibioterapia profilática para prevenção de infeções. Antes e depois da cirurgia é também administrada medicação anticoagulante e usadas outras medidas de prevenção de trombose venosa. É feita algaliação , que é mantida depois da cirurgia e retirada habitualmente no dia seguinte à intervenção. Na cirurgia o útero é abordado pela sua extremidade inferior ou colo do útero, é afastado cuidadosamente da bexiga adiante e do reto e cólon sigmoide atrás, e depois é libertado progressivamente com laqueação dos ligamentos e vasos. No final poderá ser colocado também um tampão vaginal , que é mantido até às 24-48 horas. Depois da cirurgia, é promovida a ingestão alimentar precoce e o levante e deambulação. Alta e recuperação pós-operatória Depois da alta hospitalar, a convalescença da histerectomia vaginal por prolapso é habitualmente de 6 semanas . Durante este período: É muito importante evitar esforços físicos como carregar pesos superiores ou praticar desporto ou exercício físico em ginásio; Deverá abster-se de ter relações sexuais. É possível haver secreção vaginal , por vezes sanguinolenta ou acastanhada, contínua ou intermitente, que pode durar até 4-6 semanas depois da cirurgia. Deve-se à presença de pontos na vagina, que serão reabsorvidos neste período. Faça uma alimentação equilibrada e assegure uma boa ingestão de líquidos para evitar a obstipação. É comum serem prescritos laxantes no pós-operatório para evitar os esforços defecatórios. O cansaço depois de uma cirurgia é normal. Por isso, é importante reservar tempo para descansar nas primeiras semanas. No entanto, fazer movimentos é muito importante, nomeadamente para prevenir a formação de coágulos e a trombose venosa; Participar nas tarefas domésticas e fazer pequenas caminhadas ao pé de casa são boas opções de atividade física neste período. É realizada pelo menos uma consulta durante o período de recuperação . Geralmente ocorre um mês depois da cirurgia. Nesta consulta é feita a avaliação da recuperação, determinado o final da convalescença e a retorno às suas atividades habituais. Complicações possíveis da histerectomia vaginal Qualquer cirurgia tem riscos, tanto associados à própria cirurgia como à técnica anestésica. Entre os mais frequentes estão: Infeção urinária, estimada entre 6%-20%; Hemorragia durante e pouco depois da intervenção. O risco de perda sanguínea que necessite de transfusão de sangue é pequeno, estando descrito entre 0%-10 % para esta cirurgia; Pequenos hematomas junto à cúpula da vagina em cerca de 10% dos casos. Quase sempre são de resolução espontânea em até 10 dias, mas ocasionalmente pode ser necessária uma drenagem operatória. Esta situação pode também evoluir para infeção pélvica. Outras infeções na vagina ou noutro local da cavidade pélvica podem surgir e habitualmente cursam com corrimento de odor desagradável ou fétido, mal-estar local e/ou febre. Pode haver dificuldades em urinar nos primeiros dias após a cirurgia (10%-15%), sobretudo quando são realizados vários procedimentos na mesma cirurgia, por exemplo intervenções para correção de cistocelo e/ou incontinência urinária. Nestes casos pode ser necessário recorrer a um cateter vesical intermitente ou que se prolongue a algaliação por mais dias. Lesões do trato urinário, nomeadamente da bexiga, ou do intestino são raras neste tipo de cirurgia, sendo descritas globalmente em até 2% dos casos. A ocorrência de fístulas vaginais é um evento muito raro. Podem formar-se coágulos nos vasos sanguíneos das pernas ou pulmões. Para o evitar são adotadas medidas terapêuticas e outras para reduzir esta possibilidade, de acordo com a avaliação do risco clínico de cada mulher. Fontes International Urogynecologial Association . Informação para doentes para download Conheça a equipa de ginecologia-obsterícia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.