Atualizado | 08 de julho de 2022 Autores : Patrícia Motta Lima e José Assunção Gonçalves Também denominada incontinência fecal , esta condição clínica devastadora afeta a qualidade de vida do doente e condiciona drasticamente os seus compromissos pessoais, laborais e sociais. Estima-se que 5 -18% da população sofra de algum grau de incontinência anal. É provável que esta prevalência seja ainda maior, pois a doença é muitas vezes vivida em silêncio, por vergonha e constrangimento. Afeta ambos os sexos, mas é mais frequente nas mulheres e a incidência tende a aumentar com a idade. Causas e fatores de risco para a incontinência anal O mecanismo da continência anal é complexo e depende da função integrada de diversos factores: Volume e consistência das fezes; Esfíncteres preservados e funcionantes; Cognição; Motilidade intestinal; Sensibilidade e capacidade retal; Circuitos neurológicos e reflexos íntegros. A perturbação de um ou mais destes fatores associada à insuficiência dos mecanismos de compensação leva à perda da capacidade de controle do momento da evacuação . Por isso, a causa da incontinência fecal é multifactorial. Os principais fatores de risco associados ao desenvolvimento de incontinência fecal são: Gestacionais : trauma obstétrico, laceração de parto, peso do recém-nascido, tempo de parto prolongado, idade avançada da parturiente, entre outros; Trauma cirúrgico : cirurgias proctológicas, nomeadamente as que tratam de fístula perianal, hemorroidas e fissura anal, outras cirurgias perineais que podem provocar lesão do esfíncter anal, bem como cirurgias abdominais e pélvicas; Idade : fatores hormonais e degenerativos que podem piorar as funções anorretais com o avanço da idade; Doenças neurológicas e psiquiátricas : doenças neurodegenerativas e depressão; Doença inflamatória intestinal : doença de Crohn e colite ulcerosa; Doenças metabólicas : diabetes, obesidade e hipertiroidismo; Medicamentos : efeitos secundários de fármacos que interferem na motilidade do intestino e na consistência das fezes, como antidiabéticos e antibióticos; Outros : proctite rádica (inflamação retal após tratamento com radioterapia pélvica), síndrome do intestino irritável, infeções intestinais, intolerância alimentares, entre outros. Tipos de incontinência anal A incontinência fecal é classificada em 3 tipos: Incontinência passiva Quando o doente não sente a presença das fezes ou dos gases, que passam pelo ânus de forma despercebida, sem que lhe desperte o desejo de evacuar; Incontinência de urgência Quando o doente reconhece a necessidade de defecar, mas é incapaz de manter a continência voluntariamente até chegar à casa de banho; Incontinência mista É a associação da incontinência passiva e incontinência de urgência. Investigação da incontinência anal Um doente com incontinência fecal deve ser submetido a uma investigação clínica minuciosa. Apesar de não ser rara, esta doença não costuma ser abordada em uma consulta de rotina. Quem sofre dessas queixas deve estar encorajado a partilhá-las com o seu médico . Numa consulta de incontinência anal, o doente será questionado sobre as características e duração dos sintomas, frequência dos episódios, consistência das fezes, hábitos de vida, presença de outras patologias, uso de medicamentos, alimentação, história gestacional e cirurgias prévias. Poderão ser aplicados questionários de qualidade de vida, scores de incontinência e diários para registo dos episódios. Exames de diagnóstico Os exames de diagnóstico complementam a investigação, despistam outras doenças e permitem fazer uma classificação objetiva da incontinência fecal. Cada exame possui as suas indicações específicas e é pedido pelos médico em função das queixas do doente. Exames funcionais: são exames pouco invasivos, de rápida execução e realizados sem a necessidade de sedação. Fornecem informações detalhadas sobre o funcionamento do ânus e do reto (pressões anais, preservação nervosa, reflexos, sensibilidade, complacência etc.). Exemplos: manometria anorrectal, teste de expulsão do balão. Exames imagiológicos: são exames que avaliam a integridade das estruturas anatómicas e a interação fisiológica dos órgãos pélvicos. Exemplos: ecografia endoanal, ressonância magnética pélvica, defecografia por ressonância, tempo de trânsito cólico. Exames endoscópicos: são exames que analisam a mucosa do cólon e do reto, permitem a realização de biópsias e são importantes para o despiste de outras doenças que podem estar associadas à incontinência fecal, como as doenças inflamatórias intestinais, as proctites e até mesmo o cancro. Exemplos: rectossigmoidoscopia, colonoscopia total. Exames laboratoriais: são as análises ao sangue e/ou às fezes que complementam a investigação. Abordagem multidisciplinar A incontinência fecal pode apresentar-se de forma isolada, mas habitualmente está associada a outros distúrbios , nomeadamente à incontinência urinária e ao prolapso de órgãos pélvicos. Assim, a abordagem multidisciplinar é imperiosa e, conforme as suas queixas, o doente poderá ter de ser avaliado deve ser avaliado por profissionais de outras especialidades como ginecologia, urologia, fisiatria, neurologia, fisioterapia, psicologia, nutrição, enfermagem. Tratamento da incontinência anal O tratamento da incontinência fecal visa o alívio dos sintomas e a melhoria da qualidade de vida . É fundamental que se crie uma relação de confiança entre o médico, doente e familiares. Por se tratar de uma doença crónica e com múltiplas causas, a terapêutica deve estar direcionada à queixa principal do doente, àquilo que mais restringe e limita a sua vida. Nesse sentido, é importante gerir as expectativas em relação aos resultados do tratamento , que nem sempre atingirá uma resolução imediata e completa. Orientações gerais sobre hábitos de vida, tabaco e café, dieta e medidas de suporte podem ser suficientes para a resolução das queixas. A prescrição de fármacos antidiarreicos, obstipantes ou estimulantes do esvaziamento rectal está indicada em alguns casos de incontinência fecal. Reabilitação pélvica: são sessões de reabilitação que promovem o trabalho da musculatura pélvica e o ensino técnicas posturais, posição correta de evacuação, ginástica hipopressiva, respiração abdominal-diafragmática, exercícios específicos para os músculos do pavimento pélvico, treino sensitivo e de capacidade retal e técnicas cognitivo-comportamentais. O biofeedback e a estimulação elétrica são as principais modalidades e envolvem diversas técnicas, metodologias e equipamentos, devendo ser realizadas por um profissional habilitado. Cirurgia: a abordagem cirúrgica deverá ser a última linha de tratamento da incontinência fecal. Contudo, salienta-se que a correção anatómica não leva necessariamente à correção funcional dos sintomas e deve ser complementada com as medidas citadas anteriormente. Atualmente, estão disponíveis os seguintes tipos de cirurgia: Esfincteroplastia anal; Injeção de agentes expansores de volume do canal anal; Radiofrequência; Esfíncter artificial; Graciloplastia dinâmica; Confeção de estoma. Neuromodulação sagrada: é atualmente, o procedimento de eleição no tratamento da incontinência fecal, sendo a técnica que tem apresentado os melhores resultados a curto, médio e longo prazo. Trata-se de um procedimento minimamente invasivo em que um neuroestimulador é implantado na região sagrada e glútea. O estímulo direto dos nervos que saem da medula modulam o funcionamento da musculatura do pavimento pélvico, sobretudo do esfíncter anal. Este tratamento também é benéfico em doentes com incontinência urinária. A incontinência fecal é muito mais comum do que se imagina. Apesar do grande impacto negativo na qualidade de vida, a maior parte das pessoas que sofrem desta condição não se queixam ao seu médico, mas devem fazê-lo. Após uma adequada avaliação, os tratamentos disponíveis podem promover uma melhoria significativa dos sintomas e reduzir as limitações e restrições de vida do doente. A incontinência fecal é uma doença avaliada pelas especialidades de gastrenterologia e de cirurgia geral . Conheça a equipa clínica de cirurgia geral e gastrenterologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.