23 de abril de 2026 Autor : Saraiva da Cunha (infecciologia) A infeção humana pelo vírus Nipah é uma doença rara . Deve-se a um vírus que pode ser transmitido dos animais ao homem. O reservatório natural deste vírus são alguns morcegos frugívoros. Espécies animais domésticas, como os porcos e os cavalos, podem ser infetadas, ter doença grave e transmitir o vírus ao homem. No homem, a infeção pode ser grave e tem uma taxa de mortalidade elevada. Os casos documentados até hoje concentraram-se em cinco países: Malásia, Singapura, Bangladesh, Índia e Filipinas. O vírus Nipah é considerado um microrganismo prioritário e a infeção uma doença emergente pelo número de possíveis espécies hospedeiras, elevada taxa de mortalidade humana, capacidade de transmissão entre espécies e na mesma espécie e ausência de tratamentos ou vacinas. Este vírus é assim considerado uma causa potencial de pandemia e, por isso, desde a sua identificação, tem sido acompanhado pelas autoridades de saúde internacionais. Atualmente, a Organização Mundial da Saúde considera o risco de disseminação baixo, mantendo‑se, contudo, a vigilância ativa. O que é o vírus Nipah? O vírus Nipah pertence ao género Henipavirus , da família Paramyxoviridae . Foi identificado durante um surto de encefalite viral na Malásia e Singapura, em 1998-1999, que afetou várias pessoas com contacto com suínos. Os reservatórios naturais do vírus Nipah são morcegos frugívoros da família Pteropodidae , conhecidos como raposas-voadoras, que existem em algumas regiões costeiras e ilhas do oceano Índico, Índia, Sudoeste Asiático e Austrália. Estes morcegos podem ser portadores do vírus sem ter sinais de doença, mas não foram identificados casos de doença humana em todas as regiões onde existem. Outras espécies animais, incluindo espécies pecuárias, com os suínos, podem ser hospedeiros intermediários do vírus e estar na origem da infeção humana , como aconteceu no primeiro surto da infeção pelo vírus Nipah. Como se transmite o vírus Nipah? A infeção humana pode ocorrer por transmissão do vírus: Dos animais para o homem , consequente à exposição humana a secreções de morcegos ou de outros animais infetados, quando estas entram em contacto com a boca, o nariz ou os olhos (mucosas), ou com feridas na pele. É esta transmissão dos animais ao homem que torna a infeção pelo vírus Nipah uma zoonose. Pelo consumo de alimentos contaminados , particularmente os frutos ou a seiva de algumas espécies de palmeiras onde os morcegos se alimentam e que contaminam com a sua saliva ou urina. Entre pessoas , por exposição a secreções respiratórias ou outros fluidos corporais. Esta forma de infeção não é muito eficiente e foi documentada em situações de contacto muito próximo, como cuidadores de pessoas doentes. O primeiro surto de infeção pelo vírus Nipah O primeiro surto de infeção humana pelo vírus Nipah terá sido consequente a algumas práticas agrícolas locais na Malásia que reduziram o habitat e disponibilidade de alimento para os morcegos . Estes terão então alargado o seu raio de ação para procura de alimentos para áreas próximas de explorações de suínos. Os suínos infetaram‑se por contacto com as secreções de morcegos e desenvolveram uma infeção respiratória que se espalhou rapidamente entre os animais e permitiu uma replicação intensa do vírus. A elevada carga viral nas secreções respiratórias dos suínos doentes aumentou significativamente o risco de infeção das pessoas com contacto próximo. Ocorreu então um surto de infeção humana, com encefalite, entre os trabalhadores das suiniculturas e os profissionais envolvidos no transporte e no abate de animais. A taxa de mortalidade atingiu praticamente 40%. Julgando-se inicialmente que se tratava de encefalite japonesa, doença que é transmitida por mosquitos, foram tomadas várias medidas direcionadas, sem sucesso. Passados cerca de seis meses dos primeiros casos de doença humana, em março de 1999, foi isolado um novo vírus, designado vírus Nipah em referência ao nome do local onde residia o doente a partir de quem o vírus foi isolado, e identificado como causa da doença. Com a descoberta deste novo vírus e das suas formas de transmissão, a estratégia de contenção, vigilância e prevenção da doença foi alterada e implementadas medidas como restrições de movimento de animais, abate sanitário dos animais de explorações com casos identificados, isolamento e desinfeção de explorações, restrições à comercialização de carne potencialmente suspeita, entre outras, que permitiram que o final do surto ocorresse passados cerca de dois meses . Desde o primeiro surto na Malásia e Singapura, foram registados outros, mais pequenos, nestes e noutros países do Sudoeste Asiático, como o Bangladesh e a Índia, onde já foram identificados casos em 2026. Nos surtos mais recentes o papel dos suínos tem sido muito menos relevante. A maioria dos casos está relacionada com transmissão a partir dos morcegos e com o consumo de frutos e seiva de palmeira‑das‑tâmaras contaminadas. Período de incubação, sintomas e tratamento da infeção pelo vírus Nipah Após a infeção, o período de incubação varia entre 4 a 14 dias, mas pode atingir 45 dias. Pode haver infeções assintomáticas, mas a maioria das pessoas desenvolve sintomas, inicialmente inespecíficos , como: Febre; Tosse; Dor de cabeça, dor de garganta, dores musculares; Náuseas e vómitos. O vírus afeta o sistema nervoso central e o sistema respiratório e, em muitos casos, a infeção evolui rapidamente, com complicações, principalmente encefalite e sintomas como confusão, sonolência, convulsões, alteração do estado de consciência e problemas respiratórios. A gravidade das complicações e a rapidez da evolução pode resultar em coma e morte em 24 a 48 horas. Uma em cada cinco pessoas que recuperam têm sequelas neurológicas permanentes. O diagnóstico definitivo só é possível com confirmação laboratorial porque os sintomas são comuns a muitas outras doenças. Atualmente, não existe tratamento nem vacina contra o vírus Nipah , embora estejam em fase de ensaios clínicos medicamentos antivirais e anticorpos monoclonais. O tratamento baseia‑se em cuidados de suporte . A taxa de mortalidade da infeção pelo vírus Nipah está estimada entre 40% e 75%. Prevenção da infeção pelo vírus Nipah Para as populações e visitantes de áreas de risco as principais medidas de prevenção incluem: Evitar comer tâmaras ou lavar bem e descascar antes de as comer. Não ingerir sumo/seiva crua de tâmaras/palmeira. Evitar proximidade com morcegos e seus habitats e outros animais doentes. Usar vestuário protetor e outras medidas de proteção adequadas em zonas e horários com maior risco de presença de morcegos, de animais ou de pessoas doentes. Fontes European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC). Nipah virus disease . Hassan MZ, Ibrahim SK, Harriss E, Horby P, Olliaro P, Rojek A. Interpreting the natural history and pathogenesis of Nipah virus disease through clinical data, to inform clinical trial design: a systematic review. Lancet Microbe 2026:101295. World Health Organization. Nipah virus . Atualizado 2026. Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.