2 de junho de 2025 Autor : Saraiva da Cunha (infecciologia) A leishmaniose é uma doença dos mamíferos, incluindo o homem, com maior incidência em regiões tropicais e subtropicais. Continua a ser endémica na Ásia, Médio Oriente, Norte de África e América Central e do Sul e também existe na Europa, particularmente nos países mediterrânicos, incluindo Portugal. Nos últimos anos, as viagens têm contribuído para o aumento de casos importados para os países mais desenvolvidos. Anualmente registam-se em todo o mundo cerca de 1,5 a 3 milhões de novos casos e aproximadamente 70 mil mortes devidas à doença. Trata-se de uma zoonose, ou seja, é uma doença infeciosa transmitida entre os animais e o homem . É, também, uma doença muito antiga. Está documentada a sua existência provável no antigo Egipto, nos anos 3500-2800 aC, e a origem no Sudão. No final do século XIX e início do século XX, dois médicos Leishman e Donovan, sugeriram pela primeira vez que a doença se devia a uma nova espécie de parasita, à qual chamaram Leishmania donovani. Desde então foram identificadas várias espécies pertencentes ao género Leishmania. Na realidade, a leishmaniose é um grupo de doenças: As causas são diversas espécies de parasitas protozoários do género Leishmania. Há várias espécies de Leishmania, das quais cerca de duas dezenas podem infetar o homem. Os parasitas são transmitidos ao homem através de um vetor: as moscas da areia , que são insetos muito pequenos: um adulto tem menos de 3,5 mm de comprimento. Há várias espécies de moscas da areia. Os flebótomos ou flebotomídeos são uma das mais importantes e que é particularmente ativa durante a noite. As fêmeas alimentam-se de sangue dos mamíferos, do qual precisam para completar o seu ciclo de vida e é nesta altura, com as suas picadas dolorosas, que, caso estejam infetadas, transmitem a Leishmania. Além do papel das moscas da areia como vetor de transmissão da doença, esta também é possível de mãe para filho (transmissão congénita) e através de transfusão de sangue ou da partilha de agulhas e seringas (toxicodependência). Os cães são a principal espécie doméstica que é reservatório de Leishmania e, portanto, uma origem importante da infeção. Portugal Continental é considerada zona endémica de leishmaniose canina , sendo as regiões mais afetadas Castelo Branco e Portalegre, mas também Bragança, Guarda, Coimbra, Santarém, Setúbal e Faro apresentam elevada seroprevalência. Outras espécies de mamíferos reservatório são, por exemplo, alguns roedores e macacos. Na Europa, há duas espécies de Leishmania mais relevantes: A Leishmania tropica , na Grécia e países vizinhos e que provoca a leishmaniose cutânea. A Leishmania infantum e a Leishmania donovani em toda a região mediterrânica, que podem causar leishmaniose cutânea e visceral. Sintomas, diagnóstico e tratamento Há principalmente duas formas de leishmaniose: Cutânea; Visceral, também designada kala-azar. A forma mucocutânea é mais rara, habitualmente encontrada na América Central e do Sul. Depois da infeção, o período de incubação pode variar entre 10 dias e vários meses . Os sintomas de leishmaniose cutânea são lesões da pele , geralmente autolimitadas (que se resolvem por si) em alguns meses, mas que podem deixar cicatrizes desfigurantes. Quando a infeção se espalha pode atingir diversos órgãos internos. Neste caso, ocorrerá leishmaniose visceral, com vários sintomas - febre, mal-estar, perda de peso, aumento do volume do fígado e baço, por exemplo – de gravidade diversa, com maior probabilidade de ser fatal quando não é tratada atempadamente. A maioria dos casos mais graves e fatais de leishmaniose ocorre no Bangladesh, Brasil, Índia, Nepal e Sudão. Esta forma disseminada de leishmaniose é particularmente importante nos doentes imunodeprimidos, como os infetados por VIH. O diagnóstico da doença baseia-se no contexto epidemiológico, história da doença, sintomas e identificação laboratorial do parasita. O tratamento da leishmaniose é principalmente dirigido à eliminação do parasita, frequentemente usando combinações de medicamentos , estudadas para diminuir a possibilidade de desenvolver resistências. Prevenção da leishmaniose Não existem medicamentos ou vacinas para prevenção da leishmaniose no homem. Por isso, a medida de prevenção fundamental é a proteção contra as picadas das moscas da areia , tanto nas regiões onde se vive e se for conhecida a sua presença, como, especialmente, quando se viaja para regiões onde a prevalência ainda é elevada. Reforçar as medidas de prevenção noturnas contra os mosquitos e evitar a exposição a animais em regiões em que a doença é endémica e com atividade das moscas da areia é muito importante. Em Portugal, as medidas de prevenção da leishmaniose nos cães (por exemplo, com coleiras específicas ou através de vacinação) são aconselhadas pelos médicos veterinários, não só pelo risco para a saúde pública como pelos efeitos graves que a doença tem nos animais . Fontes European Centre for Disease Prevention and Control. Leishmaniasis . Maxfield L, Crane JS. Leishmaniasis . Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. 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