4 de maio de 2023 Autor : Saraiva da Cunha A lepra, doença de Hansen, hanseníase ou doença de Lázaro, é uma doença infeciosa crónica . Deve-se às bactérias Mycobacterium leprae ou Mycobacterium lepromatosis , designadas em conjunto por complexo Mycobacterium leprae . O Mycobacterium leprae atinge principalmente os nervos periféricos, pele, olhos e mucosa nasal . A longa história desta doença e o preconceito que outrora lhe esteve associado, fazem com que ainda surjam receios quando se fala da hanseníase. No entanto, sabe-se hoje que o contágio da lepra não se faz facilmente e que a doença é curável . Desde que instituído atempadamente e cumprido até ao fim, o tratamento previne as deformidades e a incapacidade muitas vezes permanente que está associada à evolução da doença. Como se transmite a lepra A forma como a lepra se transmite não é completamente conhecida , mas sabe-se que: É feita principalmente por via respiratória, por inalação das gotículas expelidas pelo nariz e pela boca de pessoas infetadas. Mais raramente, o Mycobacterium leprae pode penetrar através de lesões da pele. Para que a transmissão ocorra é necessário um contacto próximo e frequente, ao longo do tempo, com pessoas infetadas não tratadas. A doença não se transmite num contacto esporádico com alguém infetado, não é transmitida de mãe para filho, nem através de relações sexuais. Além disso, a maioria das pessoas não desenvolve a doença depois de ter sido exposta aos doentes, o que se sabe hoje que está relacionado com características genéticas e imunitárias de cada pessoa e também com fatores externos: Apenas 5% das pessoas expostas ficam infetadas; Destas, apenas cerca de 20% desenvolvem a doença. Sintomas de lepra A hanseníase tem um período de incubação prolongado . Em média são 5 anos, mas podem passar até 20 anos entre a infeção e a manifestação de sintomas. Os sintomas dependem dos tecidos atingidos e da fase da doença, podendo chegar a deformidades e incapacidade grave e permanente. O facto de os nervos serem atingidos provoca perda de sensibilidade , com maior probabilidade de lesões, fraqueza muscular, inchaço dos nervos sob a pele, paralisia e perda das extremidades; As lesões da pele podem ir desde manchas planas limitadas e descoloradas, secura, espessamento e descamação da pele, até à formação de nódulos salientes; Úlceras da córnea e cegueira são complicações oculares possíveis; Quando a mucosa nasal é atingida podem ocorrer hemorragias, perda de olfato, até deformidades do nariz a áreas vizinhas . Diagnóstico e tratamento A precocidade do diagnóstico e realização do tratamento são fundamentais para que a doença não evolua provocando deformidades e incapacidade física grave e definitiva. O diagnóstico baseia-se nos sintomas, principalmente cutâneos e neurológicos, bem como em resultados de biopsias da pele. Mais frequentemente, na altura do diagnóstico: As pessoas mais resistentes têm uma a três lesões na pele, bem delimitadas, planas, com a zona central mais pálida e a periferia avermelhada, e insensíveis. No outro extremo, as pessoas menos resistentes têm múltiplas lesões da pele, mal delimitadas, salientes ou nodulares, e espalhadas no corpo. O tratamento é feito com uma combinação de dois ou três antibióticos tomados durante 6 a 24 meses, dependo do número de lesões na altura do diagnóstico e de outras particularidades de cada caso. Quando o tratamento é iniciado as pessoas infetadas deixam de transmitir a doença e podem ter um dia a dia normal . Este tratamento é curativo na medida em que elimina as bactérias causais e impede a evolução da doença. No entanto, não resolve as deformidades ou incapacidades que já estejam presentes quando é iniciado. É por isso que é tão importante que seja realizado o mais cedo possível. Prevenção Não tem sido possível eliminar a hanseníase tratando apenas os casos diagnosticados. Assim, para impedir e propagação da lepra a OMS recomenda também a identificação dos contactos próximos de casos diagnosticados e o seu tratamento preventivo com um antibiótico específico. Uma doença com uma longa história Desconhece-se quais são as primeiras descrições inequívocas da lepra. Já no século XXI, as técnicas laboratoriais moleculares acrescentaram dados à história desta doença. É certo que teve origem nas regiões da África Oriental e Próximo Oriente; Espalhou-se pelo mundo ao longo das rotas humanas relacionadas com comércio de bens, tráfico de escravos e colonização; A evidência mais antiga da doença foi obtida em esqueletos do segundo milénio antes de Cristo oriundos de uma região do noroeste da Índia. Esta doença chegou a ser considerada uma punição divina, pela desfiguração física que causava e por nem todas as pessoas que estavam em contacto com casos conhecidos desenvolverem a doença. O microrganismo causador da lepra foi identificado em 1873 por Gerhard Hansen , a quem a doença deve o seu nome. Até então, também se colocou a hipótese de se tratar de uma doença genética. Na primeira metade do século XX foi descoberto o primeiro medicamento eficaz contra a doença e em 1981 a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou o tratamento combinado com três antibióticos, que continua a ser o tratamento padrão. Da eliminação à erradicação Combater a lepra tem feito parte das ações da OMS e a importância da doença diminui gradualmente . Em 1985, a hanseníase era ainda um problema de saúde pública em 122 países. Em 1991, a OMS foi encarregue de desenvolver uma estratégia de eliminação da doença e implementou um aumento da cobertura geográfica do tratamento e a melhoria do acesso dos doentes ao tratamento. Em 2000, a doença deixou de ser um problema de saúde pública, ou seja, a sua prevalência passou a ser inferior a 1 caso por cada 10 mil pessoas. Os objetivos da OMS para 2021-2030 incluem a erradicação da lepra, com várias medidas para atingir um estado de zero casos de infeção e doença, de incapacidade e de estigma e discriminação associados a esta doença. Para já, continuam todos os anos a ser diagnosticados novos casos. Em 2021, foram registados 140 546 . O Brasil, Índia e Indonésia foram os países com maior número de novos casos, mais de 10 mil; 10 países reportaram entre 1000 e 10 mil casos; 36 países reportaram entre 100 e 999 casos; 55 países reportaram menos de 100 casos; 31 países reportaram não ter tido casos; 59 países não reportaram dados. Em Portugal, entre 2015 e 2021 (dados provisórios do relatório multianual do SINAVE) foram notificados um total de 35 casos importados de lepra (27 confirmados e 8 prováveis); em 2019, os nossos casos foram 6, o máximo dos últimos anos. Em 2010 foram notificados 15 casos e em 1975 foram notificados 49 casos de lepra. Entre março e abril de 2023 foram reportados na Região Autónoma da Madeira e na Região Norte, 2 casos importados de doença de Hansen, ambos os casos em indivíduos originários do Brasil, país onde a doença é endémica. Fontes Centers for Disease Control and Prevention. Hansen’s disease (leprosy) . Serviço Nacional de Saúde: Doenças de Declaração Obrigatória . World Health Organization. Leprosy . Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. 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