1 de agosto de 2024 Autor : Saraiva da Cunha A leptospirose é uma zoonose , ou seja, uma doença infeciosa que se transmite dos animais ao homem. Existe em todo o mundo, mas é mais prevalente em zonas tropicais. Na Europa é mais comum na área mediterrânica e nos países da região Leste. Deve-se a bactérias do género Leptospira, que são eliminadas na urina de animais infetados . A infeção humana ocorre por exposição direta ou indireta a essa urina. As espécies animais que estão na origem da infeção são mamíferos , mais frequentemente: Ratos , que se infetam ainda no útero da mãe ou ao nascimento, são o principal reservatório de Leptospira, e são portadores assintomáticos que disseminam a bactéria ao longo da vida. Espécies domésticas como os bovinos, suínos, ovinos, caprinos, cavalos e cães : Podem ser apenas portadores, ou manifestar a doença e esta pode chegar a ser fatal; Nas espécies pecuárias a leptospirose é uma causa importante de aborto espontâneo, com prejuízos económicos importantes para os produtores; Nos cães, a leptospirose tem uma mortalidade associada de cerca de 10%. Estão identificadas mais de 160 espécies animais , domésticas e não domésticas, que podem ser hospedeiros portadores de Leptospira. Nos animais, a Leptospira aloja-se nos rins e é eliminada através da urina, contaminando o ambiente. A Leptospira eliminada na urina de animais infetados pode sobreviver até 16 dias na água doce e quase 24 dias no solo, particularmente em condições quentes e húmidas. Infeção e formas da doença A infeção humana pode ter origem: Contacto com água ou solo contaminado por urina de animais infetados; Ingestão de alimentos ou água contaminada por urina de animais infetados; Contacto direto com urina ou fluidos reprodutivos de animais infetados A entrada da Leptospira no organismo humano é feita através das mucosas (por exemplo ocular, bucal) ou de pele não integra (com feridas ou golpes) e também é possível por via respiratória . O contágio da leptospirose entre as pessoas é muito raro , mas já foi identificado através de relações sexuais e da amamentação. A transmissão através da placenta também é possível nas grávidas, mas as complicações para os fetos e a frequência com que ocorrem não são conhecidas. Uma vez no organismo, a Leptospira tende a instalar-se no fígado e nos rins , embora possa também espalhar-se para outros locais. São grupos de risco conhecidos para a leptospirose: Contexto ocupacional / laboral : trabalhadores agrícolas, destacando-se os de culturas de arroz, trabalhadores de matadouros, trabalhadores de estruturas de saneamento básico (por exemplo, esgotos, tratamento de águas residuais), trabalhadores de controlo de pragas, jardineiros, veterinários, entre outros; Habitantes de zonas de elevada densidade populacional e condições de saneamento básico deficientes ; Praticantes de atividades aquáticas em cursos de água doce , lagoas e albufeiras e outros; Viajantes para zonas onde a doença é mais prevalente. Surtos de leptospirose são mais comuns em zonas tropicais, onde a doença é endémica, na sequência de chuvas fortes e inundações, particularmente quando as condições de saneamento básico são deficientes. Outros surtos têm sido conhecidos em todo o mundo, na sequência de competições desportivas de água doce. No homem, a leptospirose pode ter duas formas de apresentação clínica , uma mais ligeira e autolimitada e outra que pode ser grave e estar associada a mortalidade. Leptospirose anictérica Esta é a forma mais comum, que representa cerca de 90% dos casos . É menos grave. Tem um início súbito, em média 7-10 dias (limites 2-30 dias) depois da infeção, com sintomas semelhantes aos de uma gripe , sendo os principais, que ocorrem em mais de 75% dos casos: Febre; Arrepios; Dores musculares; Dores de cabeça. Outros sintomas, mais raros, podem ser náuseas, vómitos, tosse, dor articular, dor óssea, dor de garganta e dor abdominal. Os sintomas podem manter-se durante alguns dias, geralmente 2-9, e são autolimitados. Pode voltar a ocorrer um novo episódio posteriormente, por vezes com meningite assética e alterações oculares (uveíte). Embora na generalidade dos casos a recuperação da leptospirose anictérica seja total, algumas pessoas mantêm problemas de dor de cabeça, com episódios recorrentes e crónicos e por vezes também com problemas visão e outros problemas neurológicos. Leptospirose ictérica Esta forma de apresentação tem também o nome de doença de Weil e envolve múltiplos sistemas do organismo . É muito mais grave. Os principais sintomas incluem febre, insuficiência renal, icterícia e dificuldade respiratória. Pode haver envolvimento muscular e do sistema nervoso central. Os sintomas podem manter-se durante várias semanas. A leptospirose ictérica tem uma taxa de mortalidade elevada. Diagnóstico e tratamento da leptospirose Além da história pessoal, especialmente do contexto mais recente, e dos resultados do exame físico, para o diagnóstico podem ser necessários resultados de outros exames de diagnóstico, dependendo dos sintomas presentes, por vezes até pode ser necessário realizar uma punção lombar. O diagnóstico definitivo de leptospirose implica um resultado positivo num exame específico realizado numa amostra de urina ou sangue por reação em cadeia da polimerase (PCR) ou por cultura microbiológica; também estão disponíveis técnicas de diagnóstico serológico. O tratamento é médico, incluindo antibióticos para eliminar as bactérias e outros medicamentos para controlar os sintomas que estejam presentes. Muitas pessoas com a forma mais grave de leptospirose necessitam de internamento em cuidados intensivos e, muitas vezes, de sessões de hemodiálise. Prevenir a leptospirose Diminuir a probabilidade de ter leptospirose baseia-se em cuidados que evitem o contacto com urina de animais, água, solo ou materiais que possam estar contaminados . Nos locais onde seja mais provável a presença de ratos (por exemplo armazéns, garagens, jardins e quintais, entre outros), providenciar um controlo adequado. Guardar alimentos e bebidas onde não haja contacto com animais. Evitar contacto com reservatórios de águas não tratadas, paradas ou visivelmente sujas ou que estejam próximas de explorações pecuárias, particularmente em estações chuvosas. Ter especial cuidado quando se tenham ocupações profissionais de risco. Alguns dados A Organização Mundial de Saúde estima que ocorram cerca de 873 mil casos de leptospirose anualmente em todos o mundo, sendo estes responsáveis por mais de 40 mil mortes. Em 2022 foram diagnosticados 765 casos de leptospirose nos 28 países da União Europeia / Espaço Económico Europeu que reportaram informação, dos quais 65 em Portugal. Entre 2010 e 2021 foram notificados 713 casos de leptospirose em Portugal , sendo 328 (46%) provenientes dos Açores. Nos últimos anos, o nosso país tem estado sempre entre os cinco países com maior número de casos, só sendo ultrapassado sistematicamente pela França, Alemanha e Holanda. Desde 2021 que não se registam casos de morte em Portugal, mas nos 10 anos anteriores quase sempre morreram pessoas por leptospirose no país. Fontes Day NP. Leptospirosis: Epidemiology, microbiology, clinical manifestations, and diagnosis. www.uptodate.com European Center for Disease Prevention and Control. Surveillance Atlas of Infectious Diseases . European Center for Disease Prevention and Control. Leptospirosis . Julien B, et al. Epidemiology of reported cases of leptospirosis in the EU/EEA, 2010 to 2021. Euro Surveill 2024;29:2300266. Wang S, Stobart Gallagher MA, Dunn N. Leptospirosis 2022. Treasure Island: StatPearls Publishing; 2024. Conheça a equipa clínica de Infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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