21 de março, 2024 Autor: Saraiva da Cunha A malária continua a ser uma causa importante de morbilidade e mortalidade em algumas zonas do globo. É mais característica de regiões tropicais, especialmente do continente africano, onde, em 2022 ocorreram 94% dos 249 milhões de casos mundiais e 95% das 608 mil mortes devidas a malária, que atingiram principalmente crianças com menos de 5 anos. Causa e transmissão da malária A malária é provocada por um parasita e transmitida por um mosquito. São cinco as espécies do parasita que causa a malária, sendo duas particularmente importantes: O Plasmodium falciparum é a espécie dominante nos países africanos subsarianos e provoca as infeções mais graves, que podem resultar rapidamente em morte quando não são tratadas; O Plasmodium vivax predomina nos restantes países; As restantes três espécies, menos importantes, são Plasmodium malarie, Plasmodium ovale e Plasmodium knowlesi . A transmissão do parasita que causa a malária é feita pelas fêmeas de mosquitos Anopheles que estejam infetadas pelo parasita, quando picam e se alimentam de sangue humano. A malária não se transmite habitualmente entre as pessoas, exceto se ocorrer uma transfusão de sangue proveniente de um doente infetado ou quando uma grávida transmite a doença ao feto. A doença pode ser prevenida e tem tratamento, desde que identificada atempadamente. Prevenção Controlar os mosquitos e prevenir as suas picadas é a base da prevenção da malária. Esta prevenção inclui: Medidas sanitárias orientadas ou da responsabilidade das organizações de cada país, dirigidas ao ambiente e às populações locais; Medidas individuais, da responsabilidade de cada pessoa. As medidas individuais de proteção a adotar, principalmente por viajantes são: Usar redes mosquiteiras de proteção da cama ou outro local onde se durma; Dormir apenas em divisões com janelas e portas protegidas contra a entrada de mosquitos; Usar vestuário que deixe a menor área de pele exposta possível: mangas compridas, calças compridas, sapatos fechados, por exemplo; Aplicar regularmente repelente para mosquitos: Nas zonas de pele expostas e eventualmente no vestuário; Reforçar a aplicação ao amanhecer e ao anoitecer, quando os mosquitos são mais ativos; Escolher o repelente de acordo com indicações dadas, uma vez que os mosquitos que transmitem a malária são resistentes a alguns produtos. Procurar não permanecer ao ar livre ao amanhecer e ao anoitecer. Quem viaja para países onde há malária, e para países tropicais em geral, deve fazer com antecedência (4-6 semanas antes) uma consulta do viajante. A prevenção da malária também pode incluir a toma de medicamentos, que o médico escolherá em função do país de destino e do risco e características individuais. Consoante o medicamento selecionado, a prevenção da malária pode ter de ser iniciada cerca de 3 semanas antes da viagem e só terminar algumas semanas depois do regresso. Ter tido malária não significa que se fique imune à doença. Assim, sempre que se viaje para países de risco continuam a ser necessárias medidas de prevenção. Sintomas e tratamento A malária tem uma gravidade variável. A doença pode ter apenas sintomas ligeiros, mas também pode ser causa de morte, especialmente quando atinge grupos de risco como: Crianças com menos de 5 anos; Grávidas; Viajantes, sem adotarem medidas preventivas, em zonas onde a doença é endémica; Pessoas infetadas pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH). Os sintomas de malária iniciam-se em média 10-15 dias depois da picada de mosquito que transmitiu a infeção, mas o período de incubação pode variar entre os 7 e os 30 dias. Assim, não é raro que um viajante que não fez a prevenção adequada comece a ter sintomas da doença depois de ter regressado ao seu país. E, mesmo que tenha feito toda a prevenção indicada, incluindo com medicamentos, pode ter malária. Os primeiros sintomas podem ser ligeiros e pouco específicos como febre, dores de cabeça, dores no corpo, arrepios e suores. Por isso, durante os primeiros 2-3 meses depois de se ter regressado de uma viagem a zonas de risco de malária, é necessário estar atento aos sintomas e procurar cuidados médicos quando estes surjam, relatando a história de viagem recente, incluindo datas e destinos. Só assim poderão ser feitos os testes necessários para eventual identificação do parasita e tratada a doença rapidamente, se for diagnosticada. Entre os sintomas mais graves de malária estão, por exemplo: Cansaço marcado Perda de apetite, náuseas e vómitos Dificuldade respiratória Urina com sangue ou escura Icterícia Convulsões Confusão / alucinações Alteração do estado de consciência O objetivo global A estratégia da Organização Mundial de Saúde para a malária estabeleceu entre os seus objetivos reduzir a incidência e a mortalidade da malária em pelo menos 75% e 90%, nos anos de 2025 e 2030, respetivamente. Nos mesmos anos, eliminar a doença em 20 e 35 dos países onde havia transmissão em 2015. Em Portugal No nosso país, a malária está erradicada desde 1973. O último caso de transmissão confirmada em Portugal ocorreu em 1959. Até então a transmissão de malária acontecia principalmente nas regiões do vale do Sado, Mondego e Vouga, zonas importantes de cultura de arroz, cujas características favoreciam a concentração de mosquitos. As medidas de controlo destes vetores foram decisivas para a erradicação da doença. A malária é uma doença de notificação obrigatória em Portugal e continuam a ser diagnosticados casos todos os anos, mas com origem fora do país. Em 2018, último ano para o qual estão publicados dados para esta doença em Portugal: Foram diagnosticados 101 casos de malária, metade dos quais na região de Lisboa e Vale do Tejo 86% (87 casos) ocorreram em homens A faixa etária mais afetada, com 25 casos, foi a dos 45-54 anos de idade. Fontes Serviço Nacional de Saúde. Doenças de notificação obrigatória – Malária World Health Organization - Malaria Conheça a equipa clínica de Infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.