30 de outubro de 2020 Autor : Vítor Leite Entre as diversas competências que as crianças adquirem gradualmente ao longo do seu processo normal de desenvolvimento estão, por exemplo: O aumento dos períodos de atenção sustentada e concentrada; A autorregulação da atividade psicomotora; O controlo dos impulsos. Para as crianças mais pequenas, em idade pré-escolar, estas competências são tarefas árduas e dificilmente superadas, por imaturidade do seu sistema nervoso central. Assim, dificilmente e com muita parcimónia nos atreveremos a diagnosticar em idade pré-escolar uma perturbação de hiperatividade com défice de atenção (PHDA) . Esta patologia envolve disfunção de diferentes regiões cerebrais (por exemplo, conexões entre córtex pré-frontal, núcleos da base e cerebelo) e implica diversos genes relacionados com a neurotransmissão (de dopamina, noradrenalina e serotonina, por exemplo). A PHDA tem uma base neurobiológica e uma marcada etiologia genética. Esta inquestionável componente genética e biológica permite-nos desconstruir uma série de preconceitos e estereótipos injustamente implantados no debate público. Ainda que a PHDA e a “ falta de educação” possam coexistir, não são a mesma coisa. A PHDA deve ser objeto de tratamento médico; A “ falta de educação” requer a intervenção na família, sob pena de escalada comportamental. O que caracteriza e como evolui a PHDA A PHDA caracteriza-se por um padrão de inatenção , hiperatividade e/ou impulsividade inapropriado, persistente e transversal aos diferentes contextos e manifesta-se através duma heterogeneidade comportamental, cujo impacto varia de ligeiro e transitório a grave e persistente. Simultaneamente, podem estar presentes alterações comportamentais relacionadas com o humor e do espectro da ansiedade, bem como diferentes perturbações do neurodesenvolvimento , por exemplo: Dificuldades de aprendizagem; Tiques; Espectro do autismo. No entanto, outras dificuldades poderão invadir o quotidiano das crianças com PHDA, por exemplo: Dificuldades relacionais; Maior exposição ao perigo; Desmotivação e desinvestimento académicos. O quadro tem um caráter evolutivo crónico, ainda que a sua expressão tenda a modificar-se e atenuar-se ao longo do tempo. Afeta aproximadamente 5% das crianças, das quais cerca de três quartos tenderão a manter prejuízo na adolescência e metade na vida adulta. Diagnóstico e tratamento da PHDA O diagnóstico da PHDA é clínico e baseado em critérios definidos, escusando-se frequentemente a meios complementares de diagnóstico. Ainda assim, determinadas avaliações neuropsicológicas e questionários de comportamento (direcionados aos pais e aos professores) poderão revelar-se particularmente informativos, sobretudo em situações de marcado prejuízo académico. A abordagem da perturbação de hiperatividade com défice de atenção pretende-se abrangente e multidisciplinar . Enquanto condição hereditária, importa explorar a história familiar. Não é raro, no âmbito da consulta, que um progenitor se reveja na sintomatologia da sua criança. Pela eventual persistência da PHDA na vida adulta e pela possibilidade de diagnóstico tardio, existem também atualmente consultas de PHDA no âmbito da psiquiatria de adultos. As alternativas de tratamento farmacológico disponíveis são seguras, estão perfeitamente estudadas e são consensualmente indicadas em situações de prejuízo moderado a severo. Devem, contudo, ser implementadas após avaliação por um pedopsiquiatra ou pediatra do desenvolvimento e enquadradas num plano mais abrangente. A base da intervenção deve passar pela psicoeducação junto da criança e família e no investimento numa relação terapêutica coesa, que facilite o cumprimento do plano instituído. Estratégias adicionais poderão também ser implementadas, dependendo das especificidades de cada criança, considerando-se a intervenção de diferentes áreas do saber, por exemplo a psicologia clínica, psicopedagogia, terapia ocupacional, psicomotricidade, entre outras. Conheça a equipa de psiquiatria da infância e adolescência da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.