20 de outubro de 2023 Autor : Carlos Guimarães O priapismo é uma ereção anormal, persistente e dolorosa sem desejo ou estímulo sexual. Pode ter várias causas e precisar de cuidados médicos emergentes. É mais comum a partir dos 30 anos, podendo surgir em idades mais jovens; Tem várias causas; Pode carecer de tratamento médico urgente para evitar complicações, como disfunção erétil ou necrose (morte) dos tecidos. Ereção normal e priapismo: Como funciona? A ereção é uma resposta do pénis à estimulação sexual física, sensorial ou psicológica. Para o seu sucesso terá de acontecer: O relaxamento de alguns músculos; Um aumento importante do fluxo de sangue que entra no pénis; O preenchimento de sangue dos corpos cavernosos (tecido erétil) sob pressão; O aprisionamento do sangue sob pressão dentro dos corpos cavernosos e corpo esponjoso (tecido erétil), permitindo a ereção rígida e sustentada. Após o orgasmo ou perante uma quebra de estimulação há libertação de algumas substâncias que permitem a fuga do sangue aprisionado e o órgão regressa ao estado de flacidez. Quando a ereção persiste além de 4 horas, não havendo estimulação que a justifique, considera-se que há priapismo . Os mecanismos que provocam o priapismo podem ser: Um bloqueio à saída do sangue do pénis após o orgasmo ou na falta de estímulo sexual, caso em que o priapismo tem o nome de isquémico ou de baixo fluxo e é o mais grave. A persistência de entrada de sangue no pénis em quantidade superior à que acontece no estado de repouso sem haver estímulo, caso em que o priapismo tem o nome de não isquémico ou de alto fluxo. Causas de priapismo Cerca de dois terços dos casos de priapismo são efeitos secundário de medicamentos para a disfunção erétil , particularmente: Quando são medicamentos de injeção local. Quando são usados fármacos orais em doses despropositadas. Quando são usados por homens que não têm indicação para fazer este tipo de medicação. Quando são consumidos produtos não certificados de venda livre, nomeadamente adquiridos on-line. A anemia de células falciformes (doença do sangue) é uma causa importante de priapismo nas crianças e na faixa etária dos 20-50 anos. Outras causas conhecidas e condições médicas relacionadas com priapismo são: Álcool e drogas recreativas, especialmente anfetaminas e cocaína; Efeitos secundários de medicamentos usados para tratar diversos problemas médicos, incluindo alguns anticoagulantes, antihipertensivos (nifedipina), ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos, entre outros; Traumatismos; Lesões neurológicas, por exemplo da medula espinal; Cancro da próstata, cancro do pénis, metástases locais de tumores com outras localizações; Leucemia, linfoma e talassemia; Doenças metabólicas, por exemplo a gota; Infeções sexualmente transmissíveis, por exemplo a sífilis; Picadas de algumas aranhas e escorpiões. Sintomas de priapismo O priapismo isquémico é mais comum e mais grave. Alguns sintomas também são diferentes. Priapismo isquémico ou de baixo fluxo No priapismo isquémico, o bloqueio à saída de sangue pode estar relacionado com o sangue, com as veias ou com os músculos do tecido erétil do pénis. O sangue retido no pénis é pouco oxigenado o que pode provocar lesões irreversíveis dos tecidos, com fibrose e posterior disfunção erétil , ou mesmo isquemia dos tecidos com perda do órgão. Os sintomas principais são: Manutenção da ereção mais de quatro horas sem estimulação; O corpo do pénis mantém-se rígido, mas a glande não; Dor com agravamento progressivo, que pode incluir apenas o pénis, mas também os testículos e virilhas. Uma forma de priapismo isquémico é o priapismo recorrente, no qual há ereções dolorosas e autolimitadas que se repetem. É comum na anemia de células falciformes e pode provocar lesões permanentes. Priapismo não isquémico ou de alto fluxo Uma vez que continua a chegar sangue ao pénis, no priapismo não isquémico não se coloca o problema de falta de oxigénio. Os sintomas principais são: Manutenção da ereção mais de quatro horas sem estimulação; Ocorrência de ereção não relacionada com interesse ou estimulação sexual; Ereção incompleta, ou seja, o pénis pode não ficar completamente rígido como numa ereção normal; Pode não provocar dor. Diagnóstico do priapismo Qualquer situação suspeita de priapismo exige cuidados médicos específicos urgentes, habitualmente num serviço de urgência hospitalar . O tratamento envolve os cuidados imediatos neste contexto e, em muitos casos, o encaminhamento posterior para as especialidades médicas pertinentes, dependendo da causa. A identificação do tipo de priapismo – isquémico ou não isquémico – determina a abordagem a seguir. A história e sintomas relatados pelo doente e o exame físico podem ser suficientes para fazer aquela identificação. Em muitos casos, é necessário fazer alguns exames de diagnóstico, por exemplo: Ecografia com doppler para avaliar o fluxo de sangue no pénis e a existência de alguma lesão que bloqueie o fluxo de sangue; A determinação dos níveis de oxigénio nos corpos cavernosos (gasimetria intracavernosa), com colheita direta do sangue do interior do pénis; Análises de sangue para avaliar as células do sangue e a hemoglobina; Análises toxicológicas para pesquisa de drogas que possam ter sido consumidas. Tratamento Priapismo isquémico O objetivo imediato visa eliminar a ereção e aliviar a dor através de: Drenagem do sangue acumulado; Tratamento com medicamentos que promovam a dilatação das veias que saem do pénis para estimular o fluxo de sangue; Nos casos que não respondam às primeiras medidas de tratamento, pode ser necessária uma cirurgia. Dependendo da origem do problema, poderá posteriormente ser considerado: O tratamento da doença subjacente; O ajustamento ou alteração de medicação ou da via de administração de medicamentos que possam ter sido a causa do problema; O tratamento de lesões ou outras causas de obstáculos físicos ao fluxo de sangue de retorno. Priapismo não isquémico O priapismo não isquémico pode resolver-se por si . Pode ser aconselhada a aplicação de gelo local para ajudar a resolver a ereção. A intervenção posterior depende da causa. A NÃO ESQUECER O priapismo não é fatal, mas pode ter consequências graves quando não é tratado atempadamente, incluindo disfunção erétil e perda do pénis. Procure cuidados médicos Se uma ereção se prolongar além de 4 horas sem haver estímulo sexual que a justifique, sobretudo com dor. Recorra a uma urgência hospitalar. Se houver ereções recorrentemente dolorosas e/ou mais persistentes do que é suposto, mesmo que se resolvam por si: aconselhe-se com o seu médico ou com um médico urologista para evitar episódios futuros mais graves. Os medicamentos para tratamento da disfunção erétil só devem ser tomados por prescrição médica : O uso destes medicamentos sem indicação médica, seja por via oral ou injetável, é uma causa importante de priapismo isquémico, especialmente nos homens jovens. A combinação destes medicamentos entre si e com outras causas possíveis de priapismo, como o álcool e as drogas recreativas, tem efeitos imprevisíveis. Atenção aos produtos não certificados para a disfunção erétil: Nunca os utilize . Conheça a equipa clínica de urologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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