21 de maio de 2021 Autora : Isabel Grilo O prolapso dos órgãos pélvicos é a descida do útero, bexiga, vagina, reto e intestinos da sua posição normal . A descida destes órgãos é feita sobre as paredes da vagina que ficam abauladas e, nos casos mais graves, podem chegar a exteriorizar-se para fora da abertura vaginal. Conforme o órgão atingido e a região da parede vaginal afetada, o prolapso dos órgãos pélvicos pode ter designações diferentes: Prolapso do compartimento anterior, em que há um abaulamento da parede vaginal anterior. Está associado mais frequentemente a descida da bexiga e tem, neste caso, o nome de cistocelo ; Prolapso do compartimento posterior, em que há um abaulamento da parede vaginal posterior. Está associado mais frequentemente a descida do reto e tem, neste caso, o nome de retocelo; Prolapso do compartimento apical, que se deve a descida do colo do útero ou da cúpula vaginal. Por vezes deve-se a descida dos intestinos e tem, neste caso, o nome de enterocelo . Causas e fatores de risco O prolapso dos órgãos pélvicos deve-se ao enfraquecimento do pavimento pélvico , ou seja, das estruturas que suportam os órgãos pélvicos e os mantêm na sua posição anatómica correta. Várias circunstâncias contribuem para o enfraquecimento do pavimento pélvico: O processo normal de envelhecimento e a menopausa; Sobrecarga de peso durante a gravidez e partos vaginais especialmente quando os bebés são grandes e os partos instrumentados. O prolapso pode manifestar-se vários anos depois dos partos e atinge 1-3 mulheres que tiveram uma ou mais gravidezes. A probabilidade de ocorrer prolapso aumenta com o número de partos; Obesidade; Situações de aumentam a pressão abdominal, como a tosse crónica, obstipação, esforços repetidos, carga de peso; Algumas doenças do tecido conjuntivo como a síndrome de Ehlers-Danlos e a síndrome de Marfan. Sintomas de prolapso dos órgãos pélvicos O prolapso dos órgãos pélvicos pode ser ligeiro e não provocar quaisquer sintomas. Quando tem sintomas, estes têm uma gravidade variável e podem interferir significativamente com a qualidade de vida , seja nas atividades diárias habituais, limitando a prática de atividade física ou comprometendo a atividade sexual. Os sintomas podem incluir: Sensação de pressão na região pélvica ou na vagina Perceção de uma massa dentro da vagina ou de uma protuberância a sair da vagina Sintomas urinários como dificuldade em esvaziar a bexiga complemente, infeções urinárias frequentes, perdas involuntárias de urina, urgência em urinar; Sintomas intestinais: dificuldade em evacuar por vezes com necessidade de pressionar a parede vaginal para conseguir uma evacuação completa; Desconforto durante as relações sexuais. Tratamento do prolapso de órgãos pélvicos As opções de tratamento do prolapso dos órgãos pélvicos podem ser divididas em cirúrgicas e não-cirúrgicas . A gravidade do prolapso, os sintomas e a sua interferência na qualidade de vida, a idade, o estado geral de saúde e as preferências pessoais de cada pessoa são os fatores principais a considerar na decisão sobre o tratamento a realizar. Tratamento não cirúrgico O tratamento não cirúrgico é preferido enquanto se pretende preservar a capacidade reprodutiva da mulher e permite adiar o tratamento cirúrgico definitivo. Hábitos de vida Adotar hábitos que reduzam o risco de agravamento do prolapso é a primeira medida a implementar: Evitar a obstipação, preferindo alimentos que promovam um bom funcionamento intestinal, beber água em quantidade adequada e procurar cuidados médico caso seja necessário identificar e tratar causas de obstipação recorrente; Controlar problemas de tosse crónica; Manter um peso corporal dentro dos limites saudáveis; Evitar cargas de peso, esforços repetidos e outras atividades que requeiram força abdominal;. Exercícios de fortalecimento e reabilitação do pavimento pélvico O fortalecimento dos músculos do pavimento pélvico previne o agravamento do prolapso e diminui a frequência e gravidade dos sintomas presentes , principalmente nas fases iniciais do prolapso. Os exercícios de reabilitação do pavimento pélvico envolvem a repetição de sequências de contrair, manter e relaxar os músculos pélvicos, sem usar os músculos abdominais, das nádegas ou das coxas. É muito importante que sejam feitos corretamente e, por vezes, é difícil aprendê-los sozinha. Esta aprendizagem pode ser feita em fisioterapia. A fisioterapia do pavimento pélvico envolve também outras técnicas que podem ser úteis, como o biofeedback ou a eletroestimulação. Além disso, os médicos fisiatras e os fisioterapeutas são também os profissionais adequados para supervisionar e avaliar os resultados destes tratamentos. Pessário vaginal O pessário é um dispositivo de silicone que é colocado na vagina para apoiar as estruturas prolapsadas e, assim, aliviar os sintomas presentes. Há pessários com diferentes formas e tamanhos. As principais indicações para colocar um pessário são a existência de risco cirúrgico elevado por outros problemas de saúde, a preferência por um tratamento não cirúrgico e o desejo de uma gravidez futura. Os pessários também podem ser uma opção de tratamento transitória até ser realizada uma cirurgia de correção do prolapso. Tratamento cirúrgico Com a cirurgia do prolapso de órgãos pélvicos pretende-se : Eliminar os sintomas; Corrigir as alterações anatómicas; Restaurar a função normal. Há várias técnicas cirúrgicas possíveis, que se dividem em dois grupos: Reconstrutivas Obliterativas A decisão sobre a técnica a realizar depende principalmente: Idade e estado geral de saúde; Localização e grau de prolapso; História de cirurgias abdominais; Preferência e expectativas da doente; Experiência do cirurgião. Cirurgia reconstrutiva Na cirurgia reconstrutiva, são reposicionados os órgãos prolapsados na sua posição correta . Algumas técnicas são realizadas através vaginal, outras são realizadas por via abdominal. Cirurgia por via vaginal A cirurgia por via vaginal não deixa cicatrizes externas visíveis . Envolve uma incisão na parede da vagina e a reposição dos órgãos usando os próprios tecidos e suturas, redes ou próteses específicas. Pode ser usada para: Correção do compartimento anterior ou correção de cistocelo Correção do compartimento posterior ou correção de retocelo Suspensão do colo do útero ou da cúpula vaginal aos ligamentos uterosagrados ou sacroespinhosos Histerectomia vaginal com fixação da cúpula vaginal aos ligamentos uterosagrados, que é a opção mais habitual quando já prolapso uterino e não há desejo de manter a fertilidade. Muitas vezes são realizadas correções em vários compartimentos pois o prolapso pode atingir várias estruturas pélvicas em simultâneo. Cirurgia por via abdominal A cirurgia abdominal aberta é feita através de uma incisão no abdómen. A cirurgia abdominal pode também ser feita por cirurgia minimamente invasiva – laparoscópica ou robótica – que está associada a uma recuperação mais rápida e cicatrizes menos visíveis e permite realizar correções semelhantes. As cirurgias abdominais estão associadas a um maior tempo operatório, maior tempo de recuperação e maior custo do que a abordagem vaginal. A sacrocolpopexia é a técnica mais frequentemente e consiste na suspensão da cúpula vaginal prolapsada à região do sacro usando uma rede sintética. Cirurgia obliterativa Os procedimentos obliterativos, como a colpocleisis , são uma opção reservada para mulheres que por questões de saúde não podem realizar cirurgias mais extensas ou demoradas e que não desejam ter relações sexuais vaginais posteriores. Resultados do tratamento cirúrgico Os sintomas relacionados com o prolapso são resolvidos a longo prazo em cerca de 70%-80% das mulheres submetidas a cirurgia por via vaginal e 90% das mulheres submetidas a cirurgia por via abdominal. Os casos de recorrência devem-se geralmente à manutenção de fatores de risco. Fontes International Urogynecologial Association . Pelvic floor prolapse. ( informação para doentes para download ) Jelovsek EL. Pelvic organ prolapse in women: Choosing a primary surgical procedure. www.uptodate.com Rogers RG, Fashokun TB. Pelvic organ prolapse in women: Epidemiology, risk factors, clinical manifestations, and management. www.uptodate.com Conheça a equipa de ginecologia-obstetrícia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.