18 de março de 2019 Autor : João Pitorra Monteiro Tais gestos são, por vezes, confundidos com distração , no entanto, podem esconder problemas de audição. O diagnóstico em consulta deve ser tão precoce quanto possível. Estima-se que a incidência da surdez infantil seja de 1 a 3 , por cada 1000 recém-nascidos saudáveis e de 20 a 40 , por cada 1000 recém-nascidos de risco. Desta forma, é muito superior à incidência de outras patologias neonatais inseridas no programa nacional de rastreio precoce sistemático (hipotiroidismo e fenilcetonúria). Daí a necessidade de se proceder ao rastreio auditivo dos recém-nascidos e não apenas aos de risco, que representam somente 50% dos casos de surdez. Para que serve o rastreio auditivo infantil? Os grandes objetivos de uma consulta de surdez infantil são: O diagnóstico tão precoce quanto possível da deficiência auditiva antes dos 3 meses de idade; O início da reabilitação da criança em todas as suas vertentes até aos 6 meses, pois convém ter presente que a surdez pode ser congénita ou adquirida. Nas últimas décadas, tem-se assistido a uma diminuição significativa dos casos de surdez relacionados com patologia pré, peri e pós-natal. No entanto, permanecem inalterados os de causa genética ou os, ainda considerados, de causa desconhecida. Como se pode despistar a surdez infantil na consulta? Como reflexo das deficiências socioeconómicas e assistenciais do nosso país, as causas infecciosas de surdez neurossensorial , continuam a ter grande expressão, nomeadamente: A rubéola; A infeção por citomegalovírus; A toxoplasmose; A sífilis. A surdez pós-natal é a mais frequente na idade adulta, apesar de poder surgir em crianças, devido a problemas como: Infeções bacterianas, víricas ou parasitárias; Traumatismos; Corpos estranhos; Traumatismo sonoro. Na consulta, tentamos despistar as etiologias possíveis da surdez , com a recolha de informação, nomeadamente, dos antecedentes: Farmacológicos, infecciosos e traumáticos; Familiares, de consanguinidade e de malformações congénitas. No exame objetivo valorizamos, particularmente, o exame otológico e a pesquisa de malformações da cabeça e pescoço , bem como, de outros órgãos e sistemas. Esse exame é sempre complementado com exames audiométricos e, quando necessário, com exames de imagem, nomeadamente, a TAC e a ressonância magnética. Como se avalia o grau de audição no rastreio auditivo infantil? Para se proceder à avaliação auditiva recorremos a testes comportamentais e a testes objetivos , dos quais se podem salientar: O reflexo de orientação condicionada (ROC test ); A audiometria condicionada por jogo ( block test ); A impedaciometria; Os potenciais evocados auditivos do tronco cerebral (PEATC); As otoemissões acústicas (OEA). A escolha destes exames é condicionada pelos seguintes fatores: Idade; Desenvolvimento psicomotor da criança; Nível auditivo; Compromisso de outros órgãos. A nossa preocupação começa no pós-parto onde, por norma, são avaliadas as otoemissões acústicas. É realizado um pequeno teste não invasivo para obter o registo da existência ou ausência da função efetiva das células auditivas no ouvido interno. Caso o teste seja negativo , deve ser repetido 30 dias depois . Se voltar a ser negativo, deverão ser realizados potenciais evocados auditivos aos 3 meses e esses, sim, determinarão o grau efetivo de audição da criança. No caso de se tratar de uma surdez severa ou profunda , o encaminhamento precoce para uma adaptação protésica e acompanhamento por uma equipa multidisciplinar , com terapia da fala e apoio de ensino especial (linguagem gestual, treino auditivo e leitura labial), são as opções corretas. No caso de se tratar de uma surdez total , a orientação para o implante coclear é a opção, devendo este, fazer-se o mais cedo possível , depois do 1º ano de vida. Porque é que o rastreio auditivo infantil deve ser feito antes da escola? O rastreio auditivo pré-escolar é fundamental e deverá ser feito, de modo sistemático , nas crianças sem queixas aos 3 e aos 6 anos de idade. Os fatores alérgicos e infecciosos da nasofaringe na criança condicionam alterações no ouvido médio que provocam o seu mau funcionamento, dando origem a uma surdez de transmissão , com derrame seroso no ouvido médio. Os sinais de alerta em casa são, por vezes: Falar alto; Estar próximo da televisão; Não responder de imediato aos pais. Não obstante, esses gestos são, muitas vezes, encarados como distração mas na realidade não o são. Esta situação tem tratamento médico e, quando este não resulta, a aplicação de drenos (tubos) transtimpânicos , acaba por resolver a situação. A surdez infantil exige, como já referimos, um diagnóstico e reabilitação precoces. Assim, é essencial o papel do otorrinolaringologista neste processo, designadamente, na coordenação e na dinamização de todos os profissionais nele envolvidos. Conheça a equipa de otorrinolaringologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.