25 de maio de 2020 Autora : Elsa Parreira Passamos cerca de um terço da nossa vida a dormir. Uma pessoa com 90 anos de idade, por exemplo, esteve 30 anos a dormir. Mas dormir não é um desperdício de tempo nem um mero estado de repouso . Enquanto dormimos, estão a decorrer no nosso cérebro e no nosso corpo funções biológicas indispensáveis para a nossa saúde e bem-estar. Infelizmente a sociedade atual não valoriza o sono adequadamente. Nem sempre assim foi, mas com a invenção da luz elétrica, invadimos a noite com luz e deixámos de ter tempo para dormir. O sono passou a ser desvalorizado e encarado como tempo perdido. A redução do tempo de sono com o consequente aumento do tempo disponível para estar ativo ou a trabalhar, passou a ser a regra. Nada de mais errado. Que importância tem o sono? O sono tem uma função restauradora . Dormir permite que o nosso corpo restaure e regule importantes funções vitais como, por exemplo, a função imune, que nos protege de infeções e outras doenças, ou o próprio crescimento. Existem genes nas nossas células - cerca de 8% do total dos nossos genes - que são apenas ativados durante o sono; estes genes têm funções associadas a processos de metabolismo e de reparação. Dormir é fundamental para o nosso cérebro . Enquanto dormimos, o nosso cérebro mantém-se muito ativo e em algumas áreas até está mais ativo do que durante a vigília. Durante o sono há um intenso processo de restruturação funcional no cérebro que é crucial para uma série de funções cerebrais, por exemplo a memória. Após a aprendizagem, a consolidação da memória, ou seja, a passagem da memória de curto prazo, de pequena duração, para a memória de longo prazo, que é duradoura e armazenada de modo definitivo, processa-se numa estrutura cerebral denominada de hipocampo. Esta consolidação da memória é amplificada e facilitada durante o sono. Quando não dormimos, a nossa capacidade de retenção de memórias diminui em 40%. Nas pessoas que fazem privação de sono, há uma diminuição da ativação do hipocampo, a tal estrutura fundamental para a consolidação da memória. De igual modo, também é necessário dormir antes de aprender, para que o cérebro se possa preparar para a aprendizagem e para conseguir reter novas informações. Privação crónica de sono Em média um adulto necessita de dormir pelo menos 7,5 horas, mas esse valor varia muito de pessoa para pessoa. Não importa apenas a quantidade total de sono. O tempo de sono profundo é igualmente importante pela sua função restauradora. A quantidade de horas que dormimos tem vindo a diminuir nas últimas décadas, fruto do ritmo frenético das sociedades modernas. Estima-se que na década de 50 do século passado a maior parte das pessoas dormia cerca de 8 horas por noite. Atualmente, dormimos em média apenas 6 horas e meia. Não dormimos o tempo suficiente porque não nos damos o tempo suficiente para dormir. Esta privação de sono é ainda mais grave nas pessoas que trabalham por turnos, pois o seu relógio biológico continua a manter o ritmo relacionado com a luz solar, não muda de acordo com o horário de trabalho. Quais são as consequências da privação crónica de sono? As consequências da privação crónica de sono são múltiplas : A nível mental para além das dificuldades de aprendizagem e de memória, ficamos menos eficientes a nível cognitivo, (como se tivéssemos envelhecido alguns anos), as nossas capacidades de decisão e avaliação dos riscos ficam comprometidas e sofremos alterações do humor (com irritabilidade e tristeza). A privação de sono leva a aumento de tempo de reação e a redução da atenção. A falta de sono agrava doenças como a depressão, a epilepsia ou a enxaqueca. Os investigadores acreditam que o sono promove a remoção de produtos tóxicos das células cerebrais , processo que é muito menos eficiente quando estamos acordados. Assim a privação crónica de sono pode ser ´tóxica’ para os neurónios. Mas a privação de sono tem muitas outras consequências nefastas para a nossa saúde física. Dormir pouco tem efeitos negativos no sistema cardiovascular . A privação de sono está associada a aumento da tensão arterial, aumento do risco de enfartes de miocárdio e de outras doenças cardiovasculares. O sistema imunitário , sistema de vigilância que nos protege das infeções e das doenças malignas também é afetado : Dormir pouco pode provocar uma redução até 70% da capacidade do nosso sistema imunitário com aumento do risco de desenvolver infeções e de doenças malignas, como já foi provado para os tumores o intestino, da próstata e da mama. A falta de sono afeta o peso corporal : Se dormirmos 5 horas ou menos por noite temos uma probabilidade maior de sermos obesos. A falta de sono parece aumentar a libertação de uma hormona, a grelina que aumenta a sensação de fome e consequentemente nos faz consumir mais alimentos, sobretudo hidratos de carbono. Há também um aumento do risco de diabetes por aumento do cortisol, diminuição da produção de insulina e diminuição da tolerância à glicose. Basta não dormir uma noite para criar um estado de ‘pré-diabetes’. A privação crónica de sono, ao aumentar o risco de obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e doenças oncológicas, contribui para um aumento da taxa de mortalidade . Conheça a equipa de neurologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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