25 de maio de 2020 Autora : Elsa Parreira Não sabemos ainda a razão por que dormimos. Conhecemos, no entanto, os mecanismos que produzem o sono . O sono não tem origem apenas numa zona específica do cérebro; resulta da ação de uma rede de neurónios (células nervosas) que está espalhada pelo nosso cérebro. Nessa rede existem: Neurónios ativadores, que ativam o córtex cerebral de modo a nos mantermos acordados; Neurónios que têm exatamente a função contrária, a de adormecermos. Essencialmente, o sono é ‘ligado’ e ‘desligado’ em resultado de interações nas redes neuronais cerebrais. Existem dois mecanismos fundamentais que nos levam a dormir: O nosso ritmo biológico; A chamada ‘pressão de sono’. O relógio biológico do hipotálamo No nosso cérebro temos ‘um relógio biológico’ numa estrutura chamada de hipotálamo que nos informa quando devemos estar acordados e quando devemos estar a dormir . Este relógio natural está alinhado com o ciclo de luz / escuridão (dia / noite) do nosso planeta e controla todos os ritmos circadiários (que se repetem a cada 24 horas) do nosso organismo. Devemos dormir à noite quando está escuro e devemos permanecer acordados durante o dia, quando existe a luz. O hipotálamo regula a produção de melatonina , hormona fundamental para o sono, consoante a presença ou ausência da luz do sol. A produção de melatonina é máxima no início da noite de modo a promover o início do sono. Quando somos expostos à luz, diminui a produção de melatonina. O hipotálamo envia sinais para outras estruturas cerebrais, tais como o tronco cerebral, e este ativa outras zonas como o córtex cerebral levando à libertação de neurotransmissores que nos mantêm acordados ou que nos induzem o sono. Pressão de sono Não é apenas a existência de um relógio no interior do nosso cérebro que leva a adormecer. Dormimos também pela ação de um mecanismo homeostático (de equilíbrio orgânico) denominado ´pressão de sono´, que traduz a necessidade que o nosso cérebro tem de dormir . Poderá ser comparado à vontade de comer quando se tem fome. Quando acordamos de manhã essa pressão é praticamente zero, mas, com o avançar do dia, a pressão de sono vai aumentando progressivamente atingindo o valor máximo à noite, altura em que necessitamos de dormir. Assim que adormecemos, a pressão de sono volta para valores muito baixos novamente. Se dormirmos a meio do dia uma sesta superior a 30 minutos a pressão de sono vai diminuir drasticamente nessa altura e depois já não há tempo para voltar aos valores mais elevados que nos levam a adormecer à noite. Quando dormimos pouco, aumenta a possibilidade da ocorrência de microssonos . Nos microssonos adormecemos involuntariamente, durante um período muito breve (menos de 3 segundos) sem que nos apercebamos ou possamos controlar. Os microssonos podem ter consequências desastrosas, como provocarem acidentes de viação ou industriais. Fases e ciclos do sono O sono não é um processo uniforme e igual ao longo de toda a noite. Desenvolve-se por várias fases que se organizam em ciclos . O ciclo do sono repete-se 4 a 6 vezes numa noite . Durante as diferentes fases do sono, o nosso cérebro emite diferentes sinais elétricos que podem ser captados num eletroencefalograma. Analisando a atividade elétrica do nosso cérebro e outros parâmetros fisiológicos podemos determinar em que fase do sono é que o cérebro está. As diferentes fases do sono têm diferentes funções . Cada ciclo do sono divide-se em: Sono não REM; Sono REM. REM significa rapid eye movements ou, em português, movimentos oculares rápidos. Sono não REM O sono não REM, que tem a maior duração e que surge primeiro na noite, é constituído por várias fases: Fases de sono superficial (transição da vigília para o sono); Fase do sono profundo (com ondas lentas no eletroencefalograma) que é muito importante pela sua ação repousante e restauradora. Sono REM O sono REM alterna com o sono não REM. Durante o sono REM os nossos olhos movem-se sob das pálpebras, mas o restante corpo fica paralisado enquanto sonhamos intensamente, a nossa respiração acelera e a atividade cerebral elétrica é muito semelhante à que apresentamos quando estamos acordados. As diferentes fases do sono intervêm de modo diferente no consolidar da memória. Por exemplo: Durante o sono não REM de ondas lentas (sono lento profundo) as memórias declarativas (a memória dos factos) e as memórias episódicas são consolidadas; Durante o sono REM processam-se as memórias com conteúdo emocional. Durante o sono estabelecem-se novas ligações entre os neurónios e eliminam-se outras não necessárias, reestruturando-se as redes de neurónios. Por isso, uma boa noite de sono melhora o nosso cérebro em termos funcionais . Conheça a equipa de neurologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.