04 de fevereiro de 2022 Autor : Rui Campante Teles As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte na atualidade. A insuficiência cardíaca – ou seja, a incapacidade do coração para bombear uma quantidade de sangue suficiente para as necessidades do organismo – tem inúmeras terapêuticas indicadas . Entre estas, estão, por exemplo, fármacos e procedimentos minimamente invasivos nas válvulas do coração, através de cateterismo. Estes foram, aliás, a grande revolução para os doentes e para os cardiologistas nas últimas duas décadas. Muitos doentes, porém, entram a certa altura na chamada etapa da insuficiência cardíaca terminal . Nestes casos, a única solução é um transplante de coração . Estes doentes são temporariamente ligados a um dispositivo de assistência circulatória ventricular mecânica, o ventricular assist device (VAD) . Através de cânulas – como acontece no conhecido ECMO (extracorporeal membrane oxygenation), de que se tem falado muito pela sua utilização em certos doentes com COVID-19 – ou através de uma ligação cirúrgica (como no Berlin Heart), o VAD desempenha as funções de bomba do coração e permite manter os doentes vivos até receberem um transplante ou até colocarem um dispositivo VAD de longa duração como o HeartMate como destino final, o que é complexo e limitado pelas questões das infeções, da hemorragia e das tromboses associadas. O problema é que há falta de corações para transplante . A realidade contemporânea, nos EUA e em toda a Europa, é que muitos doentes morrem em lista de espera – e daí que há muitos anos estejam a ser investigadas soluções alternativas como a que está na génese da recentemente anunciada pelo University Maryland Heart Center. O caso de David Bennett A 10 de janeiro de 2022, o University Maryland Heart Center anunciou ter realizado, pela primeira vez no mundo, o transplante de um coração de porco geneticamente manipulado para um doente insuficiente cardíaco, de 57 anos, que desde novembro de 2021 estava ligado a um VAD que fazia as funções do seu coração. Não podia ser-lhe colocada uma bomba cardíaca mecânica por ter um batimento cardíaco irregular. E também não era elegível para receber um transplante de coração humano por ter um historial de incumprimento das orientações médicas. Este doente decidiu, portanto, entrar na experiência de compaixão de transplante de um coração de porco geneticamente manipulado. E foi devido ao seu voluntarismo que os médicos tiveram luz verde do regulador norte-americano, a FDA, que até aí insistia em que se fizesse a experiência com babuínos. O coração transplantado a 7 de janeiro foi de um porco geneticamente modificado antes do transplante, para que o órgão não fosse rejeitado depois do transplante . Nomeadamente, foram retirados três genes responsáveis pela produção de anticorpos que poderiam provocar a rejeição e foram implantados seis genes humanos para ajudar a que o organismo do doente aceitasse o órgão e assegurar que o coração manteria o tamanho adequado. A notícia foi dada nove dias após o procedimento, quando o doente já ultrapassara a fase mais crítica. Por que foi escolhido o porco O coração do porco tem uma anatomia relativamente próxima à do ser humano . Além disso, cresce de forma relativamente rápida e pode ser usado em diferentes faixas etárias e pesos. Em 2021, outras equipas médicas tinham feito transplantes de rins de porcos geneticamente modificados em dois doentes em situação de morte cerebral: os órgãos funcionaram e não houve rejeição. Este tipo de experiências registou um grande avanço graças ao desenvolvimento de uma nova ferramenta de edição de genoma (CRISPR–Cas9) que veio facilitar a criação de porcos com órgãos de menor probabilidade de serem atacados pelo sistema imunológico humano. Por que são importantes estas experiências Esta intervenção pioneira feita pelo University Maryland Heart Center foi a primeira em que um órgão de um porco foi transplantado para um ser humano com probabilidades de sobreviver. Inovações como esta podem, de facto, vir a suprir as carências graves em termos de corações humanos para transplante . O problema principal num transplante é a possibilidade de o organismo recetor rejeitar o novo órgão . Já anteriormente houve experiências de transplante de coração de porco para humanos, só que os órgãos não foram geneticamente modificados, e a sobrevida não chegou sequer a um mês. Neste transplante efetuado pela equipa do University Maryland Heart Center, espera-se que seja alcançada pelo menos essa meta. Quando poderá ser usada de forma corrente esta técnica? Normalmente, demora-se cinco a 10 anos , entre as primeiras experiências e a aplicabilidade das soluções testadas. Por exemplo, a implantação de válvulas cardíacas através de cateterismo foi lançada em 2002, em doentes com insuficiência cardíaca, e salva milhares de vidas. Desde 2012 que a implantação de válvulas cardíacas através de cateterismo é uma técnica de rotina no Hospital da Luz, onde foi efetuado o primeiro procedimento nacional fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Veja aqui a entrevista de Rui Campante Teles à CNN Portugal a propósito deste assunto noticiado no dia 10 de janeiro de 2022. Conheça a equipa clínica de cardiologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. 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