20 de dezembro de 2020 Autor: Luís França, farmacêutico do Hospital Beatriz Ângelo A pandemia de COVID-19 modificou a nossa vida em sociedade. E enquanto nos adaptamos, prevenindo como podemos a infeção, a comunidade médica e científica desenvolveu várias vacinas contra o vírus SARS-CoV-2 num período inusitadamente curto. Todas as vacinas que serão aprovadas em 2020 e 2021 foram estudadas e continuarão a sê-lo durante os próximos anos, tanto na sua eficácia como segurança, e estes resultados serão analisados pela comunidade científica e por várias entidades regulamentares em todo o mundo, incluindo a Agência Europeia de Medicamentos. Por isso, devemos olhar para a vacinação com confiança e como uma oportunidade única para retomarmos a nossa vida normal. Contudo, teremos de ser pacientes. A disponibilidade de vacinas durante o ano de 2021 será ainda limitada. Por isso, foi criado um plano para a vacinação contra a COVID-19 , que permitirá vacinar o maior número de pessoas no menor tempo possível, tendo em conta o risco individual de cada pessoa e a disponibilidade de vacinas. Vacinas contra COVID-19 As várias vacinas que se prevê virem a ser utilizadas nos anos 2021 e 2022 têm características diferentes e utilizam tecnologias distintas. Foram já publicados resultados dos ensaios de fase 3 (estudos que avaliam a eficácia e a segurança num número muito elevado de voluntários) da vacina da Pfizer/BioNTech , a primeira que se espera que esteja disponível, e da vacina de Oxford/Astra Zeneca . Além destas, outras vacinas estão em estado avançado de desenvolvimento, como por exemplo a vacina da Moderna, e é possível que os resultados dos ensaios sejam publicados muito em breve. Vacina da Pfizer/BioNTech Como funciona (mecanismo de ação) A vacina da Pfizer/BioNTech, conhecida por BNT126b2, usa uma tecnologia recente com ARN (ácido ribonucleico) mensageiro, ou ARNm, molécula que todos os seres vivos usam como uma espécie de “receita” para fabricar determinada proteína. O ARNm desta vacina codifica uma proteína do vírus que é essencial para este infetar células. Quando a vacina é administrada no músculo do braço, o ARNm entra nas células do nosso organismo, sem nunca interferir com o nosso material genético, e estas células começam a produzir a proteína e a colocá-la fora da sua membrana celular. O sistema imunitário reconhece a proteína como estranha e desenvolve a resposta imunitária, produzindo anticorpos contra a proteína e ativando células de defesa de diferentes tipos. Quando é administrada a segunda dose , passadas algumas semanas, o sistema imunitário reforça a sua capacidade de defesa contra o vírus. Quando depois de ser vacinado , alguém contacta (é exposto) com o vírus SARS-CoV-2, o seu sistema imunitário já está preparado para reconhecer a proteína e desencadeia de imediato a resposta imunitária que destrói o vírus antes que ele consiga infetar outras células do organismo. A tecnologia usada na vacina da Pfizer/BioNTech é nova, mas é conhecida e está a ser estudada há mais de 10 anos para outros vírus. Eficácia e segurança da vacina de ARNm da Pfizer/BioNTech O estudo clínico de fase 3 que avaliou a eficácia e segurança da vacina BNT126b2 incluiu cerca de 45 mil pessoas com 16 a 89 anos, das quais praticamente metade foram vacinadas com duas doses da vacina. As restantes receberam um placebo, ou seja, um produto sem qualquer efeito. Neste ensaio verificou-se que a vacina tem uma eficácia de cerca de 95% e um bom perfil de segurança. A eficácia da vacina foi independente da idade, sexo, raça, etnia, índice de massa corporal ou existência prévia de outras doenças. No grupo de pessoas vacinadas ocorreram 8 casos de COVID-19; No grupo de pessoas que receberam o placebo ocorreram 162 casos de COVID-19. Quanto à segurança, os efeitos adversos mais frequentes foram os típicos de uma vacina e resolveram-se num período inferior a 7 dias. A dor no local de injeção foi menos frequente nos indivíduos com mais de 55 anos (71% após a 1ª dose e 66% após a 2ª dose) do que nos indivíduos com 16-55 anos (83% após a 1ª dose e 78% após a 2ª dose). Apenas 1% dos participantes referiu dor grave no local de injecção. Os efeitos adversos sistémicos foram mais frequentes nos indivíduos com 16-55 anos. Os mais comuns foram fadiga (51% após a 1ª dose e 59% após a 2ª dose) e dor de cabeça (39% após a 1ª dose e 52% após a 2ª dose). Outros efeitos secundários sistémicos reportados e menos frequentes foram dor muscular, dores nas articulações, diarreia, febre e arrepios. Todos os efeitos adversos continuarão a ser estudados durante dois anos. Vacina da Oxford/Astra Zeneca Considerações finais Das várias vacinas contra SARS-CoV-2 actualmente em desenvolvimento ou utilização, estão publicados dados de duas delas. Com base nos resultados dos estudos clínicos, o uso da vacina Pfizer/BioNTech foi aprovado pela Agência Europeia de Medicamentos e esta será a primeira a ser utilizada. Considerando o perfil de segurança e a sua eficácia, assim como o nível de rigor exigido pelas autoridades regulamentares, estou certo de que, quando chegar a minha vez de ser vacinado, não terei qualquer receio em fazê-lo . A informação acerca dos benefícios e riscos da vacinação é um assunto da ordem do dia. Em caso de dúvida, consulte sempre o seu médico, farmacêutico ou enfermeiro e recorra sempre a informação de instituições de saúde e fontes credíveis. Referências Polack FP, Thomas SJ, Kitchin N, Absalon J, Gurtman A, Lockhart S, et al. S afety and efficacy of the BNT162b2 mRNA Covid-19 Vaccine . N Engl J Med 2020:NEJMoa2034577. Voysey M, Clemens SAC, Madhi SA, Weckx LY, Folegatti PM, Aley PK, et al. Safety and efficacy of the ChAdOx1 nCoV-19 vaccine (AZD1222) against SARS-CoV-2: an interim analysis of four randomised controlled trials in Brazil, South Africa, and the UK . Lancet 2020:S0140-6736(20)32661-1. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.