19 de maio de 2022 Comissão Nacional de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos do grupo Luz Saúde Desde o início de maio de 2022, têm sido identificados vários casos de varíola dos macacos (monkeypox) em humanos , primeiro no Reino Unido e, mais recentemente, em Portugal e em Espanha. Está ainda em estudo o modo como tem ocorrido a propagação destes casos. Sabe-se que uma das primeiras pessoas afetadas esteve na Nigéria, e que há uma maior incidência entre homens que mantêm relações sexuais com outros homens. Apesar do número crescente de casos, não existe razão para alarme, dado que a transmissão entre pessoas implica um contacto de elevada intimidade . O que é a varíola dos macacos? A varíola dos macacos faz parte de um grupo de doenças chamadas zoonoses . As zoonoses são doenças infeciosas dos animais – domésticos e não domésticos – que atingem também os humanos. Deve o seu nome ao facto de provocar lesões semelhantes às observadas na varíola humana , que está erradicada desde 1980. A varíola dos macacos é provocada um vírus Orthopoxvirus, da família Poxviridae; Afeta essencialmente macacos, várias espécies de esquilos e ratos gigantes da Gâmbia, todos habitando selvas tropicais africanas; Os roedores são considerados os principais reservatórios, contaminando secundariamente outras espécies. A varíola dos macacos é uma doença de notificação médica obrigatória através do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE). Varíola dos macacos no homem Nos humanos, a varíola dos macacos foi identificada pela primeira vez em 1970, no Congo, onde, após um importante surto em 1996-1997, se tornou endémica. Os primeiros casos em humanos fora de África ocorreram em 2003, nos EUA, após transmissão da doença a cães da pradaria por roedores importados de África. O último grande surto da doença no homem ocorreu na Nigéria, em 2017 . Como se transmite a varíola dos macacos ao homem? O vírus da varíola dos macacos é transmitido ao homem por contacto com animais ou com pessoas infetadas ou materiais contaminados com o vírus. Este entra no organismo através de lesões da pele, por via respiratória ou através das mucosas . A transmissão a partir de animais para o homem (transmissão primária) é a principal fonte de infeção humana. Pode acontecer por contacto direto com sangue, líquidos corporais ou lesões de doença de animais infetados, por ingestão de carne malcozinhada, ou na sequência de uma mordedura ou arranhão por um animal infetado. Os animais doentes podem ser de espécies intermediárias, não necessariamente provenientes das áreas endémicas. A transmissão entre humanos (transmissão secundária) é mais rara e ocorre principalmente por via aérea (gotículas), por contacto próximo com secreções respiratórias, outros fluidos corporais, lesões da pele ou dos órgãos genitais, ou com objetos ou roupa contaminados recentemente por pessoas doentes. Nas mulheres grávidas, a doença pode ser transmitida ao feto , via placenta. Sinais e sintomas de varíola dos macacos no homem Após a exposição ao vírus, segue-se um período de incubação que varia de 5 a 21 dias , sendo na maioria dos casos de 6-16 dias. Os sintomas iniciais incluem: Febre; Dores de cabeça; Dores musculares generalizadas e nas costas; Sensação intensa e falta de energia e cansaço; Aumento dos gânglios linfáticos. Entre 1-3 dias depois do aparecimento da febre, surgem as manifestações na pele , caracterizadas por: Primeiro são lesões avermelhadas de pequenas dimensões (semelhantes às da rubéola ou do sarampo); Começam por estar localizadas na face, estendendo-se depois ao resto do corpo, incluindo a palma das mãos e a planta dos pés. Evoluem depois para vesículas com líquido (bolhas), as quais ao secarem, originam crostas ao fim de 10 dias, que podem ser centenas ou milhares. As crostas podem permanecer até cerca de 3 semanas. A boca, os órgãos genitais externos e os olhos apresentam frequentemente alterações com vesículas. Os sintomas duram 2-3 semanas e a doença é geralmente autolimitada, ou seja, desaparece por si . As formas mais graves da doença estão associadas a: Idades jovens; Mau estado global de saúde; Maior quantidade do vírus inoculado e variante viral em questão. Algumas pessoas que vivem nas áreas endémicas de África têm a doença sem manifestações como as referidas, o que se deve a exposições repetidas ao vírus . Diagnóstico Dada a raridade da varíola dos macacos no homem fora das zonas endémicas e o facto de as manifestações iniciais não serem específicas, o diagnóstico não é simples . É importante saber se há uma história de viagem para zonas onde a doença é endémica ou contacto com animais provenientes dessas zonas. Na situação atual, é igualmente importante saber se teve relações sexuais com alguém com sintomas como os acima descritos ou que veio das regiões endémicas. O diagnóstico definitivo da varíola dos macacos é laboratorial , feito a partir de esfregaços de lesões, de sangue ou de soro das pessoas afetadas. Tratamento e prevenção da varíola dos macacos Não há um tratamento específico para esta doença. Quando necessário, o tratamento é sintomático (dirigido aos sintomas) , por exemplo o controlo da febre e das dores com antipiréticos e analgésicos (tais como paracetamol ou ibuprofeno). Num hospital, as pessoas infetadas devem ficar internadas em áreas dedicadas de infeciologia e ser submetidas a isolamento de contacto (uso de batas e luvas) e aerossóis (quarto de pressão negativa e respiradores FFP2). Não existindo vacinação específica contra a varíola dos macacos, as principais medidas de prevenção são: Evitar o contacto com animais em zonas endémicas ou delas provenientes; Usar de luvas, óculos de proteção e máscara no contacto com animais suspeitos; Não ingestão de carne de animais suspeitos. Como proceder em caso de suspeita de varíola dos macacos? Contacte a Linha SNS 24 (808 24 24 24) ou dirija-se a um serviço de urgência hospitalar , informando claramente os profissionais de saúde sobre a sua situação se: Apresentar sintomas como os descritos e tiver estado numa área afetada; Se tiver tido um comportamento de risco como é o contacto direto com animais em zonas endémicas ou delas provenientes ou seus fluidos, ou alimentação à base de carne desses animais; Se tiver tido relações sexuais ou coabitar com alguém com sintomas semelhantes. Ainda: Use sempre máscara , mesmo nos locais onde não é obrigatória a sua utilização, não partilhe objetos pessoais e lave a sua roupa separadamente. Deve lavar as mãos com frequência , com água e sabão, e sempre que tocar em lesões ou fluidos de pessoas infetadas. Não entre em pânico. Na maioria dos casos, a varíola dos macacos é autolimitada . Para saber mais: European Centre for Disease Prevention and Control. Factsheet for health professionals on monkeypox . World Health Organization. Monkeypox . Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.