As alterações na produção de sons da fala (ou linguagem oral) são um dos principais motivos pelos quais os pais procuram um terapeuta da fala. E isto acontece, principalmente, quando as crianças vão iniciar o primeiro ciclo do ensino básico. Uma das principais preocupações dos pais é saber se a linguagem oral tem influência na aprendizagem das letras, já que se trata da fase escolar em que as crianças vão começar a aprender a ler e escrever. E a resposta é sim. Efetivamente, os sons da fala têm uma ligação direta com a aprendizagem da leitura e da escrita; O desenvolvimento da linguagem oral nos diferentes domínios linguísticos (semântico, morfológico, sintático, fonológico e pragmático) é um dos principais pré-requisitos para uma aprendizagem correta. Estar atento e procurar a ajuda correta no tempo certo Há uma relação entre o desenvolvimento e processamento fonológico (dos sons da fala) e o sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita , mais especificamente na precisão e velocidade dos processos de: Descodificar , ou seja, ler produzindo os sons das diferentes letras ou sílabas; Codificar , ou seja, escrever as letras que representam os sons das palavras. Quando as crianças começam a falar, e à medida que se aproxima a idade escolar, é preciso dar especial atenção a alterações dos sons da fala e à sua origem, que podem ser de dois tipos: 1. Alterações na fala As alterações na fala propriamente dita referem-se à execução motora e ao planeamento motor. Não são linguísticas e não tendem a ser um fator de risco para a leitura ou para a escrita. Entre os exemplos mais comuns está a distorção do fonema /s/ devido a um posicionamento incorreto da língua. 2. Alterações fonológicas As alterações fonológicas são erros com origem fonológica, ou seja, devidos a um uso incorreto das regras fonológicas para a idade. Estas sim, podem resultar em dificuldades na aprendizagem da leitura e escrita. São exemplos a substituição de fonemas como “ p ata” para b ata e “ s uva” para ch uva ). A importância das alterações fonológicas Durante a aprendizagem da leitura e escrita as crianças devem ser capazes de reconhecer e percecionar que diferentes letras (grafemas) poderão ser representadas por mais do que um som (fonema) e vice-versa. Por exemplo, a letra “o”, pode ser representada pelo fonema /u/, como em <carr o >, pelo som /o/, como em av ô , ou pelo fonema /ɔ/, como em <c o la>. Por outro lado, o som /s/ pode ser representado pelas letras “c”, “s” e “ç”. Assim, para uma melhor competência de leitura e de escrita as crianças terão de ser capazes de perceber que as palavras são compostas por diferentes sons da fala e, consequentemente, conhecer esses mesmos sons. Resumindo… Portanto, a resposta é sim, as alterações da fala de origem fonológica afetam a aprendizagem da leitura e da escrita. Mas, não é tudo! Há outros domínios da linguagem que também têm impacto. O importante é os pais estarem atentos. Caso tenham alguma dúvida ou identifiquem alterações dos sons da fala nas crianças devem procurar a ajuda de um terapeuta da fala para fazer uma avaliação ou aconselhar-se com o pediatra que segue a criança. Algumas dicas para os pais A consciência dos sons da fala é uma competência que pode ser potenciada com atividades simples realizadas no dia-a-dia. São alguns exemplos de atividades que podem integradas em brincadeiras ou conversas durante as rotinas diárias: A palavra bola começa pelo bocadinho/sílaba bó. A palavra bota, também. Conheces mais alguma? A palavra sopa começa pelo bocadinho/sílaba sô. Este bocadinho começa pelo som sssss, como faz a cobra. Sabes qual é a letra que tem este som? Às vezes as palavras parecem que ficam bem umas com as outras porque são parecidas, como os irmãos. Quando elas terminam da mesma maneira, dizemos que rimam. Anel e pincel acabam em el , por isso rimam. Ajudas-me a ver se estes pares também rimam? Chão-mão? Cola-copo? Autor : Marta Martins Conheça a equipa clínica de Terapia Fala da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.