Quem trabalha ou pratica regularmente atividades ao ar livre, particularmente em zonas em que exista vegetação alta - por exemplo, agricultores, pastores, caçadores, entre muitos outros -, corre um maior risco de ser picado por carraças. No entanto, por segurança, qualquer pessoa que esteja nesses ambientes, mesmo que por pouco tempo, deve adotar alguns cuidados . Estes dizem respeito, principalmente, ao vestuário, ao uso de repelentes, ao comportamento durante a permanência nos locais de risco e a uma vistoria final para ter a certeza de que tudo está bem. Vestuário Preferir peças de vestuário que não deixem zonas de pele exposta. Por exemplo, mangas compridas, calças, chapéu, entre outras. Usar calçado fechado e usar meias, de preferência com o cano colocado sobre as calças. Optar por peças de cores claras para identificar mais facilmente a presença de carraças. Usar repelente de insetos nas zonas de pele expostas e aplicado no vestuário. Sempre que possível, usar os trilhos existentes para caminhar em vez de locais com mais vegetação. Manter-se atento à existência de carraças na roupa. Depois da permanência em locais de risco fazer sempre uma inspeção cuidada da roupa e da pele para assegurar que não se transportaram carraças para casa. As carraças são bem visíveis a olho nu: parecem pequenas aranhas, a sua cor varia de avermelhado a castanho ou preto, podem ter cerca de 2 mm de comprimento ou atingir dimensões bem maiores. Ter sempre em atenção que as carraças preferem zonas do corpo mais quentes e húmidas e onde passem despercebidas. Por isso, observar sempre bem o couro cabeludo, virilhas, axilas, dobras de pele, umbigo . Caso se detete alguma carraça presa, retirá-la. Com uma pinça ou com os dedos protegidos agarrar a carraça o mais próximo da pele possível, rodar e puxar para a soltar. No final lavar e desinfetar a área da pele. Caso não queira ou se julgue não conseguir retirar a carraça, procurar ajuda para o fazer. Depois, mantenha-se atento: Devem motivar a procura de cuidados médicos o aparecimento, nos dias seguintes, de febre alta, sintomas semelhantes a gripe, presença de uma crosta no local da picada da carraça, erupção na pele com manchas ou outro sintoma para o qual não exista explicação óbvia. Mais alguma coisa sobre carraças As carraças são parasitas externos de muitas espécies de mamíferos e outras classes de vertebrados. Têm os seus hospedeiros preferenciais, mas podem parasitar outros. O homem é um hospedeiro acidental. Não vivem durante toda a sua vida a parasitar os hospedeiros, apenas o fazem em alturas específicas. Ao longo do seu ciclo de vida, as carraças passam por várias fases. Para a metamorfose de larva para ninfa e de ninfa para adulto precisam de ingerir sangue e, para isso, nessa altura são muito ativas na procura de hospedeiros adequados. Têm um sistema sensorial desenvolvido que lhes permite concentrarem-se mais junto de locais com animais para encontrarem hospedeiros adequados. Uma vez presas aos hospedeiros, picam e alimentam-se de sangue. A duração das refeições de sangue é variável. É mais demorada quanto mais avançadas as carraças estão no seu ciclo de vida, pode ser de vários dias, chegando a atingir cerca de 2 semanas. Depois de terminada a refeição de sangue, as carraças abandonam os seus hospedeiros e entram numa fase menos ativa, durante a qual se dá a metamorfose para a fase seguinte do seu ciclo de vida ou a postura dos ovos, no caso das fêmeas, após a qual estas morrem. Na refeição de sangue antes da postura, as carraças fêmeas podem aumentar o seu tamanho até 100 vezes. As carraças têm tempos de vida longos e são muito resistentes, mesmo em condições ambientais adversas. Existem carraças em todo o mundo. A maioria prefere climas quentes e húmidos. Em 2023 estavam identificadas quase 900 espécies de carraças , que pertencem a duas famílias principais. A família Ixodidae é a mais importante em termos de transmissão de doenças. Em Portugal há 22 espécies de carraças que pertencem à família dos ixodídeos, chamadas correntemente carraças de corpo duro , que incluem os géneros Dermacentor , Haemaphysalis , Hyalomma , Ixodes e Rhipicephalus . Há também 3 espécies de carraças da segunda família mais importante, a família Argasidae , também chamadas carraças de corpo mole . Espécies mais comuns em Portugal De acordo com os dados REVIVE 2023, as espécies de carraças com maior impacto na saúde pública e mais prevalentes em Portugal são, segundo a sua abundância relativa: Rhipicephalus sanguineus – a mais importante, representa cerca de 75,6% e está distribuída por todo o país. Também é conhecida como carraça do cão, já que são estes os seus hospedeiros principais. As carraças adultas têm mais atividade entre março e outubro e as forma imaturas em agosto. Sobrevive facilmente em climas secos. Uma carraça põe cerca de 3-5 mil ovos de uma vez. Entre os microrganismos que pode transmitir estão os que causam a febre escaro-nodular; Ixodes ricinus – representa cerca de 10,5% e está distribuída por todo o país. As carraças adultas têm mais atividade entre outubro e abril e as forma imaturas nos meses de primavera e verão. Prefere zonas de humidade relativa elevada. Geralmente as fêmeas não põem mais de 3 mil ovos. É o principal vetor da bactéria que causa a borreliose de Lyme ou doença de Lyme ; Dermacentor marginatum – representa cerca de 4,2% e está distribuída por todo o país. As carraças adultas têm mais atividade entre agosto e outubro e as forma imaturas em agosto e setembro. Pode transmitir a bactéria Rickettsia slovaca; Hyalomma marginatum - representa cerca de 2% e está distribuída por todo o país. As carraças adultas têm mais atividade entre março e outubro e as forma imaturas no outono. Pode transmitir o vírus da febre hemorrágica da Crimeia-Congo; Dermacentor reticulatus – representa cerca de 1% e existe na região norte país. As carraças adultas têm mais atividade entre março e outubro e as forma imaturas em agosto. Pode transmitir a bactéria causadora da febre Q; Hyalomma lusitanicum - representa cerca de 0,7% e existe no sul do país. As carraças adultas e as forma imaturas têm mais atividade entre março e outubro. Tem capacidade de transmitir o vírus da febre hemorrágica da Crimeia-Congo e outras bactérias do género Rickettsia . Doenças transmitidas por carraças São cerca de 10% as espécies de carraças que podem transmitir microrganismos – bactérias, vírus e outros – que causam várias doenças. Na maioria dos casos, a transmissão é feita com a inoculação desses microrganismos no hospedeiro quando a carraça pica para se alimentar de sangue, mas há outras formas de transmissão. A duração prolongada das refeições de sangue das carraças é um fator que favorece a transmissão de microrganismos aos hospedeiros quando estas estão infetadas. Entre as doenças que as carraças podem transmitir, a febre escaro-nodular e a doença de Lyme são as mais importantes em Portugal. No entanto, já foram também diagnosticados casos de outras infeções humanas transmitidas por carraças: anaplasmose, babesiose, febre Q, tularemia, linfangite associada a riquetsioses, encefalite transmitida por carraças, linfadenopatia transmitida por carraças e febre hemorrágica da Crimeia-Congo. Autor : Saraiva da Cunha Fontes REVIVE 2023 - Culicídeos, ixodídeos e flebótomos: Rede de Vigilância de Vetores / Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infeciosas Doutor Francisco Cambournac. Lisboa: Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, IP, 2024. Núncio MS, Ales MJ. Doenças associadas a artrópodes vetores e roedores. Lisboa: INSA; 2019. Silva, MM, Santos S, Formosinho P. et al. Carraças associadas a patologias infeciosas em Portugal. Acta Med Port 2006; 19:39-48. Conheça a equipa clínica de Infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos do nosso Guia de Saúde têm finalidade informativa, destinam-se ao público em geral e podem não estar atualizados. Não substituem a informação, opinião e aconselhamento individual de um médico ou outro profissional de saúde nas respetivas áreas de intervenção.