Yolanda Vaz Médica Veterinária Professora da Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa A brucelose , também conhecida como febre de Malta, febre do Mediterrâneo ou febre ondulante é uma doença infeciosa provocada bactérias do género Brucella . Pode atingir várias espécies animais, domésticas e não domésticas, e também o homem. Transmite-se dos animais ao homem e, por isso, é uma zoonose. É uma doença de notificação obrigatória , tanto no homem como nos animais. Transmissão da brucelose Nas espécies pecuárias, a brucelose é causa de perdas económicas importantes . Manifesta-se principalmente por aborto no terço final da gestação, nascimento de crias débeis e infertilidade nos machos. Há uma eliminação grande de bactérias nos tecidos do aborto e parto e estes são uma fonte importante de transmissão da doença entre os animais, que é feita essencialmente por via oral. O contágio da brucelose ao homem pode ocorrer de várias formas: Consumo de leite cru, de lacticínios (especialmente queijo fresco e manteiga) preparados a partir de leite não pasteurizado ou de outros produtos de animais infetados; Contacto da pele e mucosas com tecidos ou fluidos (urina, sangue, leite) de animais infetados; Inalação de aerossóis produzidos em locais muito contaminados. Pelas características da sua transmissão, a brucelose é uma doença ocupacional nos trabalhadores de explorações pecuárias, dos matadouros, de indústrias leiteiras, de laboratórios e em médicos veterinários. Prevenção da brucelose O controlo da brucelose e a prevenção de transmissão da doença ao homem é feita principalmente por: Vigilância da doença nos animais; Obrigatoriedade de pasteurização do leite para comercialização e preparação de lacticínios, com exceção dos queijos de cura prolongada; Implementação de medidas de proteção específicas para diminuir o risco ocupacional. Individualmente é importante: Ter o cuidado de não consumir leite cru ou derivados de leite (por exemplo queijo fresco, manteiga, entre outros) preparados a partir de leite cru, ou seja, de leite sem tratamento térmico; Evitar o contacto da pele e mucosas com tecidos ou fluidos de animais infetados ou suspeitos e de produtos de aborto. Vigilância da doença nos animais Em Portugal, o controlo da doença nos efetivos pecuários de animais produtores de leite – vacas, ovelhas e cabras – tem sido uma preocupação desde os anos 50 do século passado. Mais tarde, em 1991, iniciou-se um programa de erradicação da doença apoiado por fundos europeus e implementado pelas autoridades nacionais. Este programa de erradicação, que pretende eliminar completamente a brucelose dos animais domésticos e com isso diminuir o risco de infeção e proteger a saúde humana, envolve diversas medidas , por exemplo: Saneamento anual, com colheita de sangue aos bovinos, ovinos e caprinos em idade reprodutiva para despiste da doença por diagnóstico serológico; Investigação de surtos de abortos ou outros casos suspeitos de infeção; Abate sanitário e eliminação de todos os casos positivos identificados; Restrição de circulação de animais, inquérito epidemiológico para identificação da origem da infeção e eventual contaminação de outras explorações e testagem regular dos animais, até garantia de indemnidade; Aplicação de outras medidas como vacinação, limpeza e a desinfeção e vazio sanitário, proibição de produção de lacticínios sem tratamento térmico do leite, obrigatoriedade de maturação longa dos queijos. Com base nos resultados do programa de erradicação da brucelose cada exploração de ruminantes em Portugal e cada região geográfica têm uma classificação sanitária para brucelose . Em 2020, de acordo coma Direção Geral de Alimentação e Veterinária, 99,6% das explicações de bovinos e 97,3% das explorações de ovinos e caprinos estavam indemnes da doença. De acordo com dados da Direção Geral da Saúde , em 1989 registaram-se 1576 casos e em 2019 registaram-se 33 casos de brucelose humana. Saiba também que: A brucelose é conhecida desde o final do século XIX, quando a bactéria que a provoca foi isolada pela primeira vez por um médico militar britânico , Sir David Bruce , que descreveu a doença nos seus soldados na ilha de Malta. Foi também nesta ilha que se percebeu, alguns anos depois, que a origem da doença era o consumo de leite cru de animais doentes , neste caso de cabras, e se percebeu que esta doença era uma zoonose. Nessa altura passou a ser obrigatória a fervura do leite antes do seu consumo e os casos de doença diminuíram rapidamente. Em Portugal , o primeiro relato da doença data de 1893. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.