Autora : Maria João Heitor, médica psiquiatra Em Portugal, cerca de 23% dos adultos (mais do que 1 em cada 5) sofrem anualmente perturbações de saúde mental. E há faixas etárias e grupos mais vulneráveis. 75% das doenças mentais começam, em todo o mundo, antes dos 25 anos; Os atletas de alta competição são um daqueles grupos. Competir, vencer e proteger a saúde mental A frase de Pierre de Coubertin, fundador dos jogos olímpicos da era moderna: “O importante não é vencer, mas competir.”, não se reflete nos atletas de alta competição. Estes atletas são treinados para vencer a todo o custo, para uma superação permanente. Isto envolve, muitas vezes, a perda, mesmo que temporariamente, da saúde e bem-estar, físico e mental. É conhecido que os problemas de saúde mental podem atingir cerca de 45% dos atletas de alta competição . Esses problemas são, entre outros: Ansiedade; Depressão e risco de suicídio; Uso indevido de álcool e outras substâncias psicoativas; Adições comportamentais (como a do jogo); Perturbações do comportamento alimentar; B urnout . A vida física e mental dos atletas Há três grandes momentos na vida mental e física dos atletas: A pré-competição , com as relações no desporto, que envolvem o atleta, o treinador e a família; A competição , com um número elevado fatores que provocam stress ( stressores ) e uma gestão de expetativas complexa; A pós-competição ou pós-carreira , antecedida de um período de transição, com o vazio, as questões de identidade, a necessidade de se alterarem os estilos de vida e redirecionar as fontes de rendimento, a dificuldade em encontrar trabalho ou ficar no desemprego. Os atuais contextos em que todos vivemos, pós-pandémicos, de guerra, crise energética e crise económica, influenciam e agravam, inevitavelmente, os fatores de risco inerentes a cada uma destas fases de vida dos atletas. Desafios e oportunidades Falar sobre saúde mental e enfrentar estigmas e medo de discriminação são enormes desafios. Se uma pessoa tiver, por exemplo, uma úlcera no estômago ou hipertensão arterial, provavelmente não tem problema em declará-lo. Se estiver com uma depressão, mais dificilmente o vai assumir. E as perturbações depressivas, de ansiedade e outras são doenças neurobiológicas, do cérebro, muito frequentes. Quando alguém sofre com sintomas do foro mental, tem medo que isso seja visto pelos outros como um ‘sinal de fraqueza’, receia repercussões negativas, e muitas vezes é a própria pessoa que tem dificuldade em aceitar o problema e tende a esconde-lo até da família. É o chamado autoestigma . Estes tabus impedem a procura atempada de ajuda. Felizmente, já muitas e muitos atletas internacionais e nacionais ‘deram a cara’, encarando o tema com normalidade e assumindo o seu problema mental . Por outro lado, começam a desenhar-se redes de apoio profissional. Face a estes desafios, há diversas oportunidades. A primeira oportunidade é informar a sociedade civil, os profissionais, os atletas e todos os que diariamente lidam com eles, sobre o que é a saúde mental e a doença mental. Temos de promover uma maior literacia em saúde, no fundo, saber como informar e formar melhor. A segunda oportunidade é identificar os fatores de proteção em cada uma das fases dos atletas. A manutenção de estilos de vida saudáveis, nem sempre presentes, de atividades de lazer, a gestão do descanso, o apoio sociofamiliar, o desenvolvimento de resiliência não apenas dirigida à performance, e olhar para o sofrimento psicológico e para a doença mental como mais uma oportunidade de aprendizagem, crescimento e desenvolvimento pessoal são alguns exemplos destes fatores protetores. A terceira oportunidade passa por trazer para a sociedade civil, com um grande envolvimento dos media, as temáticas da atividade física, do desporto e da saúde, com ênfase na saúde mental e bem-estar, pautadas por objetivos, metas e políticas da Organização das Nações Unidas, da Organização Mundial de Saúde e Comissão Europeia. Durante a pandemia, o presidente do Royal College of Pediatrics and Child Health do Reino Unido disse aos membros do Parlamento: "Quando fechamos escolas, fechamos as vidas das crianças”. Referia-se não só ao isolamento e solidão, como também à redução da atividade física e do desporto, e aos problemas que daí podem advir a nível emocional, de obesidade infantil e muitos outros. Todos temos de aprender a olhar para os atletas de alta competição como pessoas, com as suas complexidades, dificuldades e sucessos , e não apenas como supermáquinas de obter resultados. Zelar pela saúde, mais do que uma tarefa diária, é um direito humano. E porque não há saúde sem saúde mental, este é um campeonato que juntos vamos ter de ganhar! Conheça a equipa clínica de psiquiatria da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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