O cancro do pulmão continua a ser uma das principais causas de morte por cancro em todo o mundo e é, também, um dos diagnósticos que mais medo provoca. Talvez por isso seja tão importante desfazer alguma da desinformação à sua volta e perceber, de forma simples, o que está hoje ao alcance da medicina. Associamo-lo quase automaticamente ao tabaco, e não é por acaso: mais de 80% dos casos estão relacionados com a exposição ao tabaco e ao tabagismo. Mas os restantes 20% lembram-nos que há outros fatores em jogo - da poluição à exposição ocupacional, passando pela idade. O cancro do pulmão é o tema de mais um episódio do podcast Hospital da Luz DECIFRAR O CANCRO , com João Moreira Pinto, oncologista médico no Hospital da Luz Lisboa , que tem dedicado grande parte da sua vida profissional ao diagnóstico, ao tratamento e à investigação desta doença. O que é, afinal, o cancro do pulmão? O cancro do pulmão acontece quando uma célula deixa de obedecer às regras normais de crescimento, multiplicação e morte programada que regulam todas as células do nosso corpo. Estes mecanismos de controlo permitem que haja células a crescer quando é necessário e a serem removidas quando deixam de o ser. Quando uma célula do pulmão perde este travão natural, começa a multiplicar-se sem parar, até formar um nódulo, uma massa, um tumor. Que causas estão identificadas? Mais de 80% dos casos de cancro do pulmão estão relacionados com a exposição ao tabaco e ao tabagismo. Mas 80% não são 100%: há exposições ao fumo do tabaco que nem sempre são óbvias - ambientais, por exemplo - e outros fatores conhecidos, como a poluição, a exposição a metais pesados ou o trabalho em minas, e doenças pulmonares crónicas. A idade é também um fator relevante: com o tempo, os mecanismos que corrigem erros na replicação celular começam a falhar, e é mais fácil perder esse travão. Há hereditariedade associada a este cancro? Ao contrário do cancro da mama ou do ovário, onde há mutações bem identificadas e prevalentes, como as BRCA, no cancro do pulmão não há mutações hereditárias tão claras . Ainda assim, sabe-se que ter um familiar em primeiro grau - pais, filhos, irmãos - com este cancro aumenta a probabilidade de o vir a ter. Isto pode explicar-se de duas formas: ou porque a família partilha os mesmos fatores de exposição, por exemplo ocupacionais, ou porque existe alguma mutação hereditária ainda desconhecida. De qualquer forma, este mecanismo é raro e está longe de ser um dos principais fatores de risco. Que sinais devem alertar-nos? O problema da maior parte dos sintomas do cancro do pulmão é que também podem ter causas benignas. Tosse, expetoração e alguma falta de ar são sintomas comuns de infeções respiratórias e, nesses casos, costumam resolver-se ao fim de algumas semanas. Expetoração com sangue já é um sinal mais específico. O que deve soar o alarme é a persistência: quando estes sintomas se arrastam durante meses, e não semanas, é altura de procurar um médico. É possível detetar este cancro precocemente? Há rastreio? Portugal ainda não tem um programa de rastreio definido para toda a população , mas há evidência de que, em pessoas que fumam ou fumaram, o rastreio com tomografia computorizada (TAC) de baixa dose - feito, em regra, entre os 50-55 e os 75 anos - reduz a mortalidade devida a este cancro. Já existem iniciativas neste sentido em Portugal, nomeadamente no Hospital da Luz Arrábida , e é expectável que este tipo de programas venha a detetar cada vez mais casos numa fase precoce, altura em que há mais hipóteses de cura. Uma pneumonia pode transformar-se num cancro do pulmão? Não. Uma pneumonia é uma infeção, não uma célula neoplásica . O que pode acontecer é o inverso - já existir um nódulo que infeta e provoca uma pneumonia, sendo que, na imagem médica, se vê apenas uma mancha. Por isso importante reavaliar a situação depois de a pneumonia resolver: se o nódulo continuar lá, é sinal de que há algo mais a investigar. Como se faz o diagnóstico? Quando há suspeita de um nódulo, o primeiro passo é perceber se a doença está confinada ao pulmão ou se já existem metástases - nos gânglios da região ou noutros órgãos. Para isso, fazem-se exames como a tomografia por emissão de positrões (PET) , que deteta zonas de maior consumo de açúcar, característica dos tumores, e uma ressonância ao crânio. Depois, é preciso confirmar o tipo de tumor através de uma biopsia, feita por agulha através do tórax ou por via endoscópica, consoante a localização da lesão. Só com esta informação completa é possível definir o estadio da doença e decidir o melhor tratamento. E já agora: comer açúcar não faz o cancro crescer mais depressa. Um consumo excessivo e prolongado ao longo de décadas aumenta o risco de várias neoplasias, mas comer um doce ocasional não tem impacto relevante quando já existe um diagnóstico. Que tratamentos existem hoje? Nem todos os cancros do pulmão são iguais. Distinguem-se dois grandes grupos: o de não pequenas células, o mais frequente, e o de pequenas células, mais raro - cerca de 15% dos casos - e mais agressivo, tratado de forma diferente. Para a maioria dos casos, o prognóstico depende muito do estadio: um nódulo pequeno e operável tem uma probabilidade de cura muito elevada; uma doença em estadio avançado é muito mais difícil de curar. Mas esta é uma das áreas da oncologia que mais evoluiu nas últimas duas décadas: hoje sabemos que cada tumor pode ter mutações diferentes, e para muitas delas já existem tratamentos dirigidos, muito mais específicos do que há vinte anos. Mesmo os doentes sem estas mutações têm hoje mais opções, com recurso à imunoterapia. Quais são os efeitos secundários mais comuns dos tratamentos? Ao contrário do que muitas vezes se pensa, nem todos os doentes têm efeitos secundários graves - preservar a qualidade de vida é, aliás, um dos objetivos do tratamento. Os efeitos dependem do tipo de terapêutica : a quimioterapia pode afetar células saudáveis que se dividem rapidamente, com sintomas como quebra das defesas, anemia, enjoos ou perda de apetite, mas a terapêutica de suporte para os controlar evoluiu muito nas últimas duas décadas. Já a imunoterapia ativa o sistema imunitário contra o tumor e, nalguns casos, pode também atacar células saudáveis, provocando doenças autoimunes. As terapêuticas dirigidas a mutações específicas podem, por sua vez, causar efeitos na pele, como borbulhas ou irritações. Que vigilância é feita depois do tratamento? Nos doentes operados ou que fazem tratamentos por radioterapia, a vigilância inclui análises e TAC periódicas - de seis em seis meses inicialmente, depois anualmente, durante pelo menos cinco anos. Nos casos de doença mais avançada, em tratamento sistémico, a vigilância serve sobretudo para perceber se o tratamento continua a fazer efeito. Quanto à imunoterapia, a maioria dos estudos limita a sua duração a dois anos, mas o tempo ideal ainda não está definido - muitas vezes, o sistema imunitário aprende a reconhecer o tumor e continua a combatê-lo mesmo depois de o tratamento ser suspenso. O que tem o Hospital da Luz para oferecer a estes doentes? Tratar cancro do pulmão exige uma equipa alargada —-pneumologistas, cirurgiões, radiologistas, especialistas em medicina nuclear, oncologistas e anatomia patológica - que discute semanalmente todos os casos, o que permite diagnósticos mais rápidos . É também essencial ter acesso rápido a exames mais diferenciados, como o PET ou a ecoendoscopia brânquica (EBUS). E há ainda o acesso a ensaios clínicos, que permite oferecer aos doentes fármacos inovadores anos antes de estarem disponíveis fora desse contexto - em Portugal, mesmo depois de aprovados pelas autoridades europeias, os medicamentos demoram, em média, mais de dois anos a chegar aos doentes. Há cancros e cancros: uns com melhor prognóstico, outros mais assustadores; tratamentos que resultam depressa, outros que exigem mais tempo e paciência. Mas se há uma mensagem a reter é esta: mais de 80% dos casos de cancro do pulmão continuam ligados ao tabaco, e deixar de fumar - a qualquer idade - reduz sempre o risco. E para quem já enfrenta um diagnóstico, vale a pena saber que aquilo que hoje é possível oferecer é muito melhor do que há dez ou quinze anos - e que, daqui a cinco ou dez anos, será, com toda a probabilidade, ainda melhor. Ideias fundamentais a reter Mais de 80% dos casos de cancro do pulmão estão relacionados com o tabaco. Tosse, expetoração ou falta de ar que se prolonguem por meses, e não semanas, devem ser avaliadas por um médico. Em fumadores ou ex-fumadores, o rastreio com TAC de baixa dose (50-75 anos) pode reduzir a mortalidade. O tratamento e o prognóstico dependem muito do estadio e do tipo de tumor, cada vez mais personalizado a cada doente. O acesso a ensaios clínicos permite oferecer tratamentos inovadores anos antes da sua disponibilidade fora desse contexto. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.