Em Portugal, e na maioria dos países europeus, o cancro ginecológico mais comum é o cancro do endométrio . A incidência de cancro do endométrio tem vindo a aumentar, muito devido à “epidemia de obesidade”. Por outro lado, a incidência do cancro do colo do útero tem vindo a diminuir essencialmente devido à eficácia dos programas de rastreio e o maior acesso à informação sobre esta doença. A vacinação também tem contribuído para esta diminuição sustentada da incidência do cancro do colo do útero. O cancro do ovário é de todos os cancros ginecológicos aquele que tem uma maior taxa de mortalidade pelo facto de não existir um rastreio eficaz, o que leva a que muitos casos surjam em estádios avançado. O cancro ginecológico não tem de ter sempre um prognóstico fatal. Uma prevenção cuidada, uma vigilância regular e a atenção certa aos sinais podem evitar problemas e ajudar a resolver os que surgem antes de se tornarem graves. Este é o tema do podcast Hospital da Luz, O ESPECIALISTA RESPONDE, com João Casanova , especialista em ginecologia oncológica no Hospital da Luz Lisboa. SPOTIFY | APPLE Dulce, 60 anos, diagnóstico de cancro do endométrio e tratada por João Casanova no Hospital da Luz Lisboa: Tive perdas de sangue e estava na menopausa há uns 4 anos. Imediatamente pensei que isto deveria ser um sinal de alguma coisa. Procurei logo ajuda: marquei consulta com um especialista e, a partir daí, fui diagnosticada, tratada e continuo a ser acompanhada, em vigilância. Sou profissional de saúde e, talvez por isso, ao primeiro sinal de alerta, procurei ajuda. Por outro lado, estava preparada para valorizar os sintomas, uma vez que tinha algum histórico na família deste tipo de cancro: a minha mãe morreu de cancro do ovário aos 80 anos, a minha irmã teve cancro da mama… Desde há muitos anos que eu estava sensibilizada para o facto de também a mim poder surgir qualquer coisa. Quanto à perda de sangue, é importante que se perceba que não estamos a falar de uma hemorragia franca, como se estivesse com o período novamente. Foi uma pequena perda, que aconteceu uma vez e que me fez soar as campainhas. Pensei logo que havia qualquer coisa que não estava bem, alguma variação hormonal, por exemplo. Pensei em várias coisas. Na primeira vez, apareceu e desapareceu em 24 horas. À segunda, persistiu durante dois ou três dias. Era uma perda insidiosa, não uma grande quantidade. E aí assustei-me mesmo. Quando recebi o diagnóstico e o Dr. João me explicou que o tratamento seria cirúrgico, pensei: eu quero livrar-me disto o mais depressa possível! Há sempre muito receio associado a estas situações. E eu tinha uma história prévia de uma cirurgia que se revelou um inferno. Foi uma cirurgia laparoscópica da vesícula, que não correu bem e por causa da qual eu tive de fazer mais três outras cirurgias de barriga aberta. Tornou-se num pesadelo e eu estive muito mal. Pior: o meu abdómen ficou muito traumatizado, pelo que fazer de novo uma cirurgia naquela parte do corpo assustava-me imenso. Só pensava: e se me acontece outra vez a mesma coisa? Tinha acontecido há 20 anos, é certo, mas são coisas que nunca se esquecem. Por isso, eu tinha medo, confesso. O que me fez tranquilizar foi sobretudo a atitude dos dois médicos ginecologistas que eu conheci nessa ocasião. Sobretudo, do Dr. João Casanova. Explicou-me as coisas em termos científicos percetíveis por toda a gente e de uma forma extremamente eficaz e lógica. Eu compreendi, não só a necessidade da cirurgia, mas o procedimento cirúrgico em si. Fui sujeita a uma cirurgia minimamente invasiva com recurso a robótica. As minhas amigas e colegas, que me foram visitar a casa uma semana depois, disseram que não acreditavam que eu tinha mesmo sido operada. Estive 24 horas no hospital, depois da cirurgia. E saí pelo meu próprio pé. Não tive dor, apenas algum desconforto. Mas a recuperação foi ótima e rápida, apesar de na cirurgia me terem retirado o útero, os ovários, as trompas e dois gânglios. Voltei também rapidamente à minha vida normal. E hoje já retomei os meus passeios de bicicleta! De resto, tenho de manter a vigilância médica, pelo ginecologista oncológico, durante o resto da minha vida. Mas está tudo impecável. Nesta fase, a que está previsto é ir à consulta de avaliação de três em três meses, para realização de análises e de alguns exames de diagnóstico de acompanhamento. Após dois anos sobre o diagnóstico, a vigilância passa a ser menos intensa, mas ainda não cheguei aí. O Dr. João Casanova dir-me-á na altura.