As complicações cardiovasculares causadas pela infeção pelo SARS-COV2, o maior risco da COVID-19 na presença de doenças cardíacas crónicas e as sequelas que esta doença pode deixar no coração, tornam a cardiologia uma especialidade médica com uma intervenção particularmente relevante junto dos doentes COVID-19, incluindo depois da doença . Risco de COVID-19 A variabilidade dos sintomas nas pessoas infetadas pelo SARS-CoV-2 é uma característica da COVID-19 que rapidamente foi identificada, praticamente desde que a doença é conhecida, nomeadamente a relação da manifestação de sintomas e sua gravidade com a idade e a presença de outras doenças (comorbilidades), em particular doenças crónicas. Entre estas destacam-se, por exemplo: Doença coronária, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, arritmias cardíacas e outras doenças cardiovasculares; Insuficiência respiratória crónica; Obesidade; Cancro. Complicações e sequelas cardiovasculares de COVID-19 Cerca de um ano depois, conhecemos melhor os sintomas de COVID-19, a sua evolução e as potencias complicações, entre as quais estão complicações cardiovasculares . A principal causa de morte em doentes com COVID-19 é a insuficiência respiratória. No entanto, as manifestações cardíacas contribuem para a mortalidade global e podem mesmo ser a principal causa de morte nestes doentes. Estão referidas complicações cardíacas em 8%-15% dos doentes infetados e percentagens superiores nos casos de morte por COVID-19. Nos doentes COVID-19, tanto se podem agravar doenças cardíacas preexistentes como ocorrer novas cardiopatias. Alguns medicamentos que podem ser usados no tratamento da COVID-19 podem também aumentar o risco cardiovascular global. Os problemas cardiovasculares possíveis nos doentes com COVID-19 não têm uma causa única , devem-se tanto a efeitos diretos da carga viral sobre as células do coração, como a efeitos indiretos consequentes à resposta imunitária e inflamatória à infeção. As complicações cardíacas principais que têm sido descritas são: Miocardite aguda , observada em 7%-17% dos doentes hospitalizados, valor que aumenta para cerca de 22% nos doentes que precisam de cuidados intensivos e para 59% dos doentes falecidos; Insuficiência cardíaca e choque cardiogénico , identificados em mais de 50% dos doentes falecidos e em cerca de 12% dos doentes recuperados; Síndromes coronárias agudas , por exemplo enfartes do miocárdio no contexto do aumento da coagulabilidade sanguínea típica da COVID-19 e ainda por rotura de placas coronárias não obstrutivas (presentes em 33% dos doentes). Arritmias , mais comuns também em doentes em cuidados intensivos. Sabemos também que a COVID-19 pode deixar sequelas a vários níveis, incluindo cardiovascular , e não apenas nas pessoas que necessitaram de cuidados intensivos ou de outro tipo cuidados hospitalares. No entanto, ainda pouco sabemos sobre a evolução destas sequelas e os seus efeitos a longo prazo. Foi identificado envolvimento cardíaco, mesmo que ligeiro, num número importante de doentes recuperados de COVID-19, independente de doenças preexistentes e da gravidade e evolução da infeção prévia pelo SARS-CoV-2. Perante sequelas cardíacas, é prudente que o retorno às atividades habituais, particularmente à prática de atividade física, seja feito com aconselhamento médico. Seguimento após COVID-19 Muitas pessoas que recuperaram de COVID-19 têm feito e beneficiado de seguimento médico e reabilitação depois da doença . Este seguimento é hoje realizado de acordo com protocolos específicos , envolve várias especialidades médicas e outros profissionais de saúde, e tem como objetivo global identificar sequelas da doença que necessitem de reabilitação para conseguir uma recuperação total . Na área da cardiologia há ainda muito a saber sobre os efeitos da COVID-19 a longo prazo. Dependendo das circunstâncias, além do seguimento médico regular, durante o tempo que for necessário, os protocolos específicos da cardiologia pós infecção SARS-CoV2 podem incluir exames de diagnóstico fundamentais, entre os quais se destacam, por exemplo: A ecocardiografia modo M-2D e Doppler; O eletrocardiograma (ECG) dinâmico de 24 horas (Holter); A prova de esforço. A elevada taxa de envolvimento cardíaco nos doentes COVID-19 torna fundamental a sua vigilância depois da doença, seja para seguir complicações ocorridas, seja para detetar sequelas e, assim, conseguir prevenir da melhor forma complicações tardias. Autor: Nuno Cardim Fontes American College of Cardiology. Current key questions on COVID-19 and cardiovascular disease . Março, 2021. Dhakal BP, Sweitzer NK, Indik JH, Acharya D, William P. SARS-CoV-2 infection and cardiovascular disease: COVID-19 heart . Heart Lung Circ 2020;29:973-87. Puntmann VO, Carerj ML, Wieters I, Fahim M, Arendt C, et al. Outcomes of cardiovascular magnetic resonance imaging in patients recently recovered from coronavirus disease 2019 (COVID-19) . JAMA Cardiol 2020;5:1265-73. Conheça a equipa de cardiologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.