O amor tem associados sentimentos de afeição, de paixão e de grande desejo. É, por isso, sinónimo de emoções fortes . Mas será que uma emoção forte decorrente de uma relação amorosa pode levar a um evento cardíaco? A resposta é sim, ainda que seja um acontecimento muito pouco comum nas relações amorosas entre pessoas saudáveis. Efetivamente, uma relação amorosa tem como efeitos, em geral, um aumento da sensação de bem-estar e uma redução da ansiedade – o que é bom para o coração. Ou seja, o amor faz bem à saúde . Mas, emoções fortes e stress têm sido relacionados com o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Este facto é inquestionável, embora por vezes mal explicado. Quando persistentes e prolongados no tempo, o stress e as emoções fortes: Levam à ativação do sistema nervoso simpático e à libertação de várias substâncias que são nocivas para o nosso sistema cardiovascular – tais como o cortisol, a serotonina e a adrenalina, entre outros; Estas substâncias provocam disfunção endotelial (isto é, mau funcionamento do revestimento interno das artérias), inflamação e contribuem para o desenvolvimento precoce de aterosclerose; Podem também ser o ‘gatilho’ que desencadeia eventos súbitos, particularmente em pessoas mais suscetíveis, podendo nestes casos levar a enfarte agudo do miocárdio e arritmias, entre outros. Há também outra forma de lesão cardíaca súbita provocada por uma emoção forte, que tem sido descrita na literatura científica como síndrome do coração partido ( broken heart syndrome ), mas que não é o mesmo que estar de ‘coração partido’. Esta expressão é uma metáfora usada para referir o sofrimento decorrente de um desgosto. A síndrome do coração partido Esta síndrome caracteriza-se por uma dor forte no peito que surge após um evento emocionalmente forte , por exemplo, a morte de alguém querido, um desgosto de amor, uma vitória na lotaria, entre outros, ou um esforço físico intenso. O coração perde força contrátil e podem surgir arritmias e insuficiência cardíaca. Na maioria das pessoas é um acontecimento temporário e reversível. Não se sabe exatamente qual é a causa desta síndrome, mas pensa-se que esteja relacionada com a hiperativação súbita do sistema nervoso simpático e com a libertação massiva de catecolaminas, provocadas por um evento súbito, forte e inesperado. É mais frequente em mulheres, especialmente depois da menopausa. A síndrome do coração partido também é conhecida por miocardiopatia induzida pelo stress ou miocardiopatia de takotsubo (tako tsubo significa, em japonês, uma armadilha para polvos que é um pote com a forma semelhante à que o coração tem na fase aguda desta síndrome). Passada a fase aguda, na síndrome do coração partido e contrariamente ao que se verifica no enfarte agudo do miocárdio, se não houver complicações graves, o coração recupera completamente, sem qualquer tratamento específico . Na síndrome do coração partido não há lesões das artérias. Apesar de tudo, a síndrome do coração partido é muitas vezes confundida com um enfarte agudo do miocárdio e frequentemente o eletrocardiograma e as análises apontam para este diagnóstico. O ecocardiograma revela habitualmente um padrão de contração cardíaco típico que sugere o diagnóstico da miocardiopatia induzida pelo stresse. A maioria dos doentes com miocardiopatia induzida pelo stress acabam mesmo por realizar um cateterismo cardíaco (coronariografia), para despistar um enfarte agudo do miocárdio, e, verifica-se que as suas artérias não apresentam bloqueios ou coágulos. Coração saudável para amar sem limites A gestão das emoções é sem dúvida um fator importante para prevenir doenças do coração. E complementa os ‘mandamentos’ básicos: Não fumar; Manter uma alimentação equilibrada; Fazer exercício físico regularmente; Moderar o consumo de álcool; Manter o peso ideal. Autor : José Ferreira Santos Conheça a equipa clínica de cardiologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.