Autoras : Constança Casas e Joana Andrade A guerra na Ucrânia, iniciada a 24 de fevereiro de 2022, tem dominado as notícias diárias que são amplamente difundidas por televisões, jornais, rádios e redes sociais. Além dos milhares de pessoas que vivem naquela zona e que estão a ser afetadas de forma dolorosa pela guerra, muitos outros cidadãos em todo o Mundo estão também a ser afetados. Mesmo quem vive em Portugal, que até pode sentir que tudo isto está suficientemente distante, não escapará ao stress provocado por tamanha quantidade de informação sobre a guerra e pela ideia de ameaça permanente que esta implica. O contínuo ‘bombardeamento’ de informações sobre a guerra produz uma ‘ativação’ de emoções em cada pessoa , que pode ter diferentes tipos de impacto e induzir stress. Aqueles que já passaram por situações traumáticas nas suas vidas, por exemplo, podem ter uma ativação de emoções traumáticas, gerada pela inquietação perante os acontecimentos. Os eventos ou experiências potencialmente indutoras de stress são largamente dependentes da forma como pensamos e avaliamos o que se passa connosco, as circunstâncias e o ambiente em que vivemos, do significado que atribuímos e da importância que damos às exigências que nos são feitas. Quando um acontecimento é interpretado como catastrófico e ameaçador da vida humana, tem um potencial efeito de trauma , que até pode afetar uma comunidade inteira. Estamos a falar de acontecimentos como: Os que envolvem ou evocam acontecimentos de ameaça à vida ou à integridade física do próprio e de outros (por exemplo, uma guerra ou desastres naturais); Uma ameaça extrema e presenciada de morte (de familiares ou outros, em grande escala). Estas situações podem evocar sentimentos de extremo terror e desamparo, que por sua vez podem desencadear consequências traumáticas como: Hiperreatividade fisiológica; Flashbacks , re-experimentação de sintomas e memórias intrusivas; Intenso sofrimento psicológico quando se é exposto a ‘acontecimentos-gatilho’, que relembram outros episódios traumáticos; Hiperativação de sintomas, como por exemplo insónia, pesadelos, irritabilidade / raiva, dificuldades de concentração e hipervigilância. Para muitas pessoas, estes sintomas desaparecem em alguns meses, mas para outras, mais vulneráveis, podem permanecer por décadas ou serem intermitentes, com efeitos nefastos sobre a sua saúde mental . Nem todos as pessoas, porém, reagem com stress ou sofrimento psicológico a eventos potencialmente traumáticos. Estudos científicos da área sugerem a possibilidade da existência de um tipo de personalidade resiliente ao stress , com características protetoras, na qual se identifica uma tendência para o otimismo e a autoconfiança, associados à perceção de um controlo sobre os acontecimentos ou mesmo atribuindo um significado de desafio e de crescimento pessoal às situações de stress. É frequente, perante situações emocionalmente desafiantes como cenários de guerra, desenvolver sintomas psicológicos negativos, com intenso sofrimento psicológico. O que fazer? Se dorme mal, anda angustiado, triste, pouco tolerante e irritável, talvez seja altura de procurar ajuda profissional . Procurar ajuda não faz de nós pessoas mais fracas e o stress disfuncional pode ser controlado com estratégias psicológicas que têm um impacto positivo em termos de melhoria da qualidade de vida. Dosear a informação diária acerca da guerra e partilhar com outras pessoas os sentimentos que temos são, por outro lado, algumas atitudes que também podem por si mesmas suavizar os efeitos do stresse. De resto, as regras gerais de promoção da saúde mental mantêm-se: Seja ativo e faça exercício físico; Mantenha as suas rotinas, incluindo um sono que respeite o horário e duração adequados; Evite álcool e estimulantes, como o café; Procure distrair-se: veja filmes ou séries (que não sejam de guerra), vá ao teatro e cinema ou assista a competições desportivas, por exemplo. Conheça a equipa clínica de psicologia e psiquiatria da rede Hospital da Luz e faça a marcação da sua consulta. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.