A facilidade de acesso, baixo custo, flexibilidade e cada vez maior consciencialização dos múltiplos benefícios da atividade física são as principais razões que explicam o grande crescimento dos praticantes recreativos de corrida nos últimos anos. Correr (e também caminhar) é uma forma simples de integrar movimento na rotina diária: antes ou depois do trabalho, de dia ou à noite, ao ar livre ou não, em qualquer dia da semana, individualmente ou em grupo. Está demonstrado que a prática regular de caminhada ou de corrida , desde que esteja ajustada à condição física, objetivos e historial de cada pessoa, contribui para uma melhor saúde física e mental e para a qualidade de vida. Grupo de corrida sim, mas sem perder a individualidade A acompanhar o número crescente de praticantes, também se multiplicaram eventos de corrida, turismo desportivo relacionado e comunidades digitais (ou não) que promovem estilos de vida mais ativos. Os grupos de corrida , ou running clubs, são uma resposta particularmente interessante neste contexto. Oferecem, além da componente física, motivação, compromisso, pertença e socialização. Aqui, pessoas com diferentes níveis de condição física encontram um espaço comum para se movimentarem, evoluírem e estabelecerem novos objetivos. Contudo, para que a participação num grupo de corrida tenha verdadeiros benefícios, a prática deve ser orientada por profissionais qualificados , capazes de respeitar diferentes níveis de preparação, adaptar cargas, prevenir excessos e promover uma experiência positiva para todos os participantes. Correr 10 quilómetros, melhorar uma marca pessoal, preparar uma meia-maratona ou simplesmente iniciar um estilo de vida mais ativo são objetivos diferentes, que exigem respostas diferentes . Por isso, mesmo num grupo de corrida, a individualização continua a ser um princípio central do treino. Tecnologia sim, mas com interpretação humana A tecnologia tem o seu papel. Relógios, pulseiras de atividade, aplicações e outros dispositivos de monitorização permitem acompanhar métricas como distância, ritmo, frequência cardíaca, cadência, altimetria, sono e recuperação e são fonte de motivação e grande volume de informação. Para serem verdadeiramente úteis, estes dados têm, no entanto, de ser interpretados no contexto certo. Sozinha, a informação recolhida por um dispositivo não é completa, não substitui a análise profissional nem permite fazer a melhor adaptação individual do treino. A orientação profissional continua a ter importância Toda a simplicidade associada à corrida não pode ser sinónimo de a praticar sem critério. O problema não é a corrida em si, mas sim as consequências de uma possível discrepância entre a carga que o corpo consegue tolerar e a carga que lhe é imposta. A progressão sem controlo do volume, da intensidade ou da frequência pode implicar um maior risco de lesões de sobrecarga, especialmente em corredores recreativos. Este risco é ainda maior quando há recuperação insuficiente, défices de força ou historial prévio de lesão. Por isso, conceitos como carga aguda, carga crónica, recuperação, tolerância individual e monitorização de sintomas devem ser considerados na construção de qualquer plano de corrida . E é justamente este o papel dos profissionais, particularmente dos fisiologistas do exercício. A avaliação inicial, a definição de objetivos realistas, a progressão adequada da carga, o reforço muscular complementar, o controlo da fadiga e a adaptação do treino ao perfil individual são elementos essenciais para que a caminhada e a corrida sejam práticas seguras, eficazes e sustentáveis. Quando bem orientada, a corrida pode ser muito mais do que uma atividade física. Pode ser uma ferramenta simples, social e sustentável para promover saúde, autonomia, bem-estar e qualidade de vida. É precisamente aqui que se centra a intervenção do fisiologista do exercício : transformar a prática de atividade física numa experiência segura, individualizada e alinhada com os objetivos de saúde de cada pessoa. Antes de iniciar um plano de corrida estruturado, considere uma avaliação profissional. Conheça a equipa do Centro de Medicina Desportiva e faça a sua marcação. Autor: Rodrigo da Costa Martins (fisiologia do exercício) Fontes: Hulme A, Nielsen RO, Timpka T, et al. Risk and protective factors for middle- and long-distance running-related injury. Sports Med 2017;47:869-86. Nielsen RO, Bertelsen ML, Ramskov D, et al. Association between changes in weekly running distance and running-related injury: a systematic review. Br J Sports Med 2014;48:871-7. Pedisic Z, Shrestha N, Kovalchik S, et al. Is running associated with a lower risk of all-cause, cardiovascular and cancer mortality, and is the more the better? A systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med 2020;54:898-905. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.