O uso de ecrãs e tecnologias digitais pelas crianças e jovens é um tema que não perde a atualidade. Em regra, as preocupações focam-se muito nas potenciais consequências do acesso a conteúdos não adequados às várias idades , mas também há outros impactos importantes para a saúde e neurodesenvolvimento . Sobre tudo isto, a evidência científica tem-se acumulado, particularmente na última década. E, no dia a dia da sua atividade, os pediatras cada vez mais se deparam com os efeitos da tecnologia nas crianças que seguem. Para os pais, telemóveis, tablets, consolas e similares são, sem dúvida, uma forma simples e facilmente acessível de distrair e entreter as crianças. É difícil resistir-lhes, ainda mais quando são portáteis. São raras as crianças que não se sentem atraídas pelos equipamentos em que a facilidade de interação com imagens, movimentos, cores e sons é tão intuitiva. Todos nos admiramos com a facilidade com que algumas crianças pequenas manuseiam sozinhas e tão facilmente determinados destes equipamentos tecnológicos. Ainda não conhecemos os efeitos a longo prazo da revolução tecnológica na evolução da sociedade humana. O que já sabemos, é que o uso repetido destes equipamentos, especialmente em idades muitos jovens, conduz a um alheamento pouco saudável das crianças, que interagem menos com tudo o que está à sua volta , o que tem um impacto profundo na descoberta e curiosidade que são fundamentais para o desenvolvimento humano e que poderão ver-se comprometidas. Existem múltiplos efeitos prejudiciais descritos : No desenvolvimento motor, incluindo a motricidade fina; No desenvolvimento da linguagem e no conhecimento de vocabulário; Na atenção e capacidade de concentração; Na capacidade de gestão de adversidades; Na adaptação ao ensino e materiais escolares tradicionais; No comportamento social; Na visão; No sono; Na saúde mental. À semelhança de diversas sociedades científicas internacionais, a Sociedade Portuguesa de Neuropediatria dá orientações sobre a utilização de ecrãs e tecnologias digitais em idade pediátrica. As últimas recomendações foram publicadas recentemente – em setembro de 2024. A versão completa pode ser consultada online . Resumidamente Em qualquer idade pediátrica, a utilização de ecrãs deve ser limitada em tempo e controlada por adultos no que respeita a conteúdos . Tempo de utilização : Até aos 3 anos de idade : evitar 4 aos 6 anos : limitar a 30 minutos por dia 7 aos 11 anos : limitar a 1 hora por dia 12 aos 15 anos : limitar a 2 horas por dia Redes sociais : utilização depois dos 16 anos, tal como prevê a legislação nacional Não utilizar equipamentos : às refeições, em momentos de convívio familiar, para ultrapassar birras ou outras dificuldades, antes de dormir, em contexto escolar. Naturalmente, nem tudo é mau. O uso correto da tecnologia pode ter um papel insubstituível, por exemplo em crianças e adolescentes com doenças crónicas ou degenerativas , “salvando almas ” que noutros tempos teriam um fim mais precoce do que a própria vida. Um caso deste é documentado em The Remarkable Life of Ibelin (2024) de Benjamin Ree. Como em tudo na vida, exige-se moderação e bom senso a quem tem responsabilidade de cuidar das crianças . Autor : João Miguel Nascimento Conheça a equipa clínica de pediatria da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.