Ilda Rosa Médica Veterinária Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa Se há espécie que tem visto a sua presença aumentar nos lares portugueses, especialmente nas zonas urbanas, são os gatos. Na realidade, os gatos são uma excelente companhia e adaptam-se muito bem a viver num apartamento . Além disso… Não obrigam a saídas frequentes para passeios; Têm uma longevidade apreciável, em média superior à dos cães; Têm, em geral, uma manutenção mais económica do que a dos cães; Ficam facilmente em casa sozinhos sem incomodarem ninguém; Não precisam de tanto tempo como os cães para serem educados e treinados. Educar e treinar gatos é respeitar e tirar partido das características e limitações da espécie e adaptá-las à vida doméstica. Por exemplo, os gatos: São animais de hábitos para o local dos dejetos: devem por isso ter um caixote próprio, sempre no mesmo local da casa, e esse passará a sua casa de banho; Precisam de arranhar para desgastar as unhas: devem ter um poste ou uma superfície própria para o efeito e assim não usarão o sofá ou outros locais inconvenientes; Gostam de observar do alto o que se passa à sua volta: se não houver móveis altos em casa, ou se não se quiser que os gatos os usem, então há que providenciar um local onde o gato possa satisfazer esta necessidade. E a personalidade dos gatos? Os gatos têm traços de personalidade próprios e marcados que têm de ser conhecidos e respeitados : São, habitualmente, muito independentes; Têm uma boa dose de autoconfiança; São dominadores do seu território e de quem nele vive; Em regra, não se importam nada de obedecer a ordens, mas fazem-no porque querem e não para agradar a ninguém. Mesmo assim, os gatos são muito bons companheiros e relativamente às crianças criam frequentemente relações especiais com elas, diferentes até das que têm com os adultos da mesma família. E uma boa relação com um gato promove o respeito, a empatia e responsabilidade , desde que a personalidade e gostos do gato sejam considerados. Como escolher um gato Se há crianças em casa e se quer ter também um gato, há alguns critérios que podem ajudar, por exemplo, preferir gatos que: Sejam calmos e não fiquem inquietos com ruídos ou mudanças no ambiente doméstico; Gostem de ser acarinhados e andar ao colo; Sejam amigáveis e curiosos. A idade do gato é um fator muito importante quando há crianças: É sempre preferível escolher um gato mais velho, calmo e tolerante. E se este tiver tido uma boa experiência anterior com crianças, melhor ainda; Optar por um gatinho implica ter tempo para a sua educação e treino. Além disso, as crianças são ruidosas, podem querer brincar com o gatinho como se fosse um brinquedo e ele pode não gostar e reagir com agressividade por ter medo. Apresentar e habituar um gato a uma criança A apresentação e habituação de gatos e crianças à presença um do outro é o primeiro passo de uma boa relação. Para segurança de todos, é imprescindível a supervisão de todas as interações entre crianças e gatos (ou outras espécies de animais de companhia). Nas interações iniciais, é necessário deixar o gato cheirar a criança, para que ele memorize o cheiro e se habitue à presença: Salvaguardando a segurança da criança, deve deixar-se que o gato tome a iniciativa de se aproximar, e nunca forçar a aproximação. Nas oportunidades de interação, o gato deve ter sempre possibilidade de fugir e de se esconder, caso se sinta nervoso ou desconfortável. Estas interações especialmente cuidadosas devem ser repetidas regularmente para manter a harmonia entre os dois. A saber também que, em geral, os gatos : Têm medo de sons e ruídos altos; Não gostam de ser agarrados e pegados ao colo repentinamente; Não gostam que se corra atrás deles; Quando permitem que lhe façam festas, esta devem ser feitas sempre de forma calma e suave e não abranger as áreas que os gatos não gostam, como são: A zona do abdómen (barriga); A cabeça Eventualmente a cauda. Não se deve interagir com os gatos quando estes estão: A comer ou beber; Dormir; Usar o caixote. Brinquedos e brincar com o gato Os brinquedos para os gatos não precisam de ser caros, podem ser feitos em casa e com diversos materiais usados e reciclados : bolas, caixas de papelão onde se conseguem esconder, superfícies que possam arranhar (arranhadores) servem perfeitamente o objetivo. Brincadeiras que os gatos gostam são aquelas que estão associadas ao seu comportamento de caçadores e à sua curiosidade: Correr atrás de objetos em movimento, podendo ou não agarrá-los; Canas com brinquedos ou fitas penduradas, tudo o que possam perseguir e eventualmente agarrar; Brincadeiras que os façam trepar para locais altos de ondem podem observar o que se passa à sua volta. Uma boa forma de melhorar a interação entre uma criança e um gato, é ensiná-la, quando a idade permite, a tratar do animal, envolvendo-a em tarefas que promovem uma maior ligação entre os dois, como alimentar ou pentear. A linguagem corporal dos gatos Distinguir quando é que um gato está com vontade de brincar, quer estar ao colo, ou tem medo e nem se quer aproximar são aspetos que têm de ser ensinados à medida que as crianças crescem e começam a entender. São alguns sinais de que o gato está farto de estar ao colo e quer afastar-se quando: Começa a contorcer-se e a querer escapar; Se assanha, geme, rosna ou mia alto; Vira as orelhas para trás e o pelo parece aumentar de volume; Põe as garras de fora; Dilata as pupilas; Abana a ponta ou toda a cauda. São sinais de boa reação de um gato a uma criança : O animal come, bebe, dorme e mantém a sua atividade diária normal; Continua relaxado e confortável se a criança está presente. Sempre que um gato pareça relutante em entrar no local onde está a criança, não querer estar na sua presença, se esconda, pareça agressivo, estes sinais devem ser entendidos como de infelicidade e levar a que se mantenham estratégias para promover uma boa relação ou se encontrem alternativas. São sinais de alarme perante os quais o gato não deve ser incomodado com interação: Cauda a abanar; Pelo eriçado; Assanhar; Pupilas dilatadas; Orelhas viradas para trás ou para o lado; Lamber o nariz; Torcer a ponta da cauda; Lamber rápido de alguma parte do corpo; Evitar o olhar. Nestas alturas, deve ser dado espaço ao gato. Assim, não aumentará o stress e promove-se um futuro mais seguro para a relação.