Genericamente, as nossas veias e artérias (vasos sanguíneos), mas também os vasos linfáticos, são uma rede de vasos que distribui por todo o organismo o oxigénio e outros nutrientes fundamentais ao funcionamento do nossos órgãos e tecidos, e que drena os resíduos desse funcionamento, para serem eliminados. Se estes vasos adoecerem, as suas funções ficam comprometidas. As doenças dos vasos tanto podem afetar apenas ligeiramente o dia a dia, como criar situações de elevado grau de incapacidade. Atualmente, todos nós – população em geral e profissionais de saúde – estamos cada vez mais sensibilizados para o impacto que as doenças dos vasos, ou vasculares, podem ter na qualidade de vida . Estas doenças são tratadas pela especialidade médico-cirúrgica Angiologia e Cirurgia Vascular, conhecida frequentemente apenas como Cirurgia Vascular. Quando deve suspeitar de uma doença vascular A suspeita de uma doença dos vasos está relacionada normalmente com a presença de sintomas . Os sinais e sintomas de doença vascular dependem dos vasos que são afetados. Na mesma pessoa, podem estar afetados mais do que um tipo de vasos e em mais do que uma localização. Por isso, os sinais e sintomas podem ser mais ou menos típicos de doença. Quando se tem sintomas que possam estar relacionados com doenças dos vasos, é fundamental procurar a cuidados médicos especializados . Quais são as doenças dos vasos mais frequentes e que vasos afetam? As doenças vasculares mais frequentes são: Doença venosa crónica, que é uma doença das veias; Doença arterial periférica, que é uma doença das artérias. Doença venosa crónica As veias têm no interior válvulas que ajudam a que o sangue flua na direção correta. A doença venosa crónica deve-se ao desenvolvimento progressivo de uma insuficiência dessas válvulas e à dilatação das paredes das veias devido ao sangue que por insuficiência das válvulas se acumula. A prevalência da doença venosa crónica é superior nas mulheres e aumenta com a idade . Por exemplo, uma prevalência de 20% aos 30-40 anos pode aumentar para valores superiores a 50% na faixa etária dos 70 anos. Sintomas, sinais e achados mais frequentes na doença venosa crónica Sintomas típicos são, por exemplo, peso, pressão, cansaço, edema (inchaço) e/ou prurido (comichão) nas pernas, que se agravam com a posição de pé (ortostatismo) durante períodos prolongados. Estes sintomas são facilmente relacionados com doença venosa crónica, mas também podem ter várias origens. Sintomas atípicos , como uma dor por vezes desproporcionada em relação a outros achados, reforçam a importância de consultar um especialista. Queixas diretamente relacionadas com varizes , como dor local, inflamação e/ou complicações trombóticas, ou mesmo questões estéticas. Nas fases mais avançadas da doença pode haver pigmentação da pele, alterações tróficas (estruturais) da pele ou lesões ulceradas. As queixas estéticas isoladas, que são comuns e são igualmente válidas por si só, têm múltiplas formas de tratamento. Doença arterial periférica A doença arterial periférica deve-se a obstrução das artérias e está relacionada, na maioria dos casos, com aterosclerose. Em média, atinge cerca de 3%-10% da população, mas aumenta para 15%-20% nas pessoas com mais de 70 anos. A doença arterial periférica é um fator de risco para doenças cardiovasculares. Sintomas, sinais e achados mais frequentes na doença arterial periférica Claudicação (coxear) intermitente, com uma dor típica desencadeada pela marcha , que surge após caminhar sempre a mesma distância, e que alivia com o repouso . A dor envolve habitualmente a região dos músculos gémeos (barriga da perna) e pode atingir também coxa e/ou nádega. Há também casos em que a dor é atípica ou em que o doente não tem dor, porque não caminha habitualmente o suficiente para a desencadear. É fundamental o olhar atento do especialista para estas situações serem devidamente identificadas. Nos casos mais avançados, pode haver dor em repouso, desencadeada pela elevação do membro e que melhora quando este fica pendente. A queixa mais característica é a de uma dor que perturba o sono. Úlceras e lesões tróficas, atingindo preferencial o pé são também mais características das fases avançadas da doença. Nestas fases pode haver compromisso da viabilidade do membro. Quando se deve ir a uma consulta de cirurgia vascular Sempre que alguém tem sintomas que possam estar relacionados com problemas vasculares poderá haver benefício de uma observação por um cirurgião vascular . Raramente é necessária uma consulta urgente por doença venosa crónica, a não ser por complicações trombóticas ou aparecimento de úlceras da perna. No entanto, também não há qualquer benefício associado ao “deixar andar”, pois as doenças vasculares beneficiam bastante com a prevenção e tratamento precoce. A doença arterial periférica tem indicação para tratamento interventivo urgente no contexto da dor em repouso e do aparecimento de úlceras ou lesões dos pés. A claudicação intermitente habitualmente pode ser vigiada em consulta. Muitas vezes são outros médicos, por exemplo médicos de família, que aconselham uma consulta de cirurgia vascular. Quando há suspeita de doenças vasculares é muito importante que esta referenciação seja o mais precoce possível. A abordagem completa do cirurgião vascular poderá identificar alterações estruturais dos vasos não imediatamente aparentes e este definirá o tratamento mais adequada após: Estudo estrutural vascular, recorrendo habitualmente a um exame por eco-Doppler; Correlação entre as queixas do doente e os achados do exame médico; Adequação do tratamento ao estadio da doença e às especificidade e expectativas do doente. Só assim será possível obter um resultado eficaz, duradouro e que corresponda ao melhor que o tratamento da saúde vascular pode oferecer. Fontes: Norgren L, Hiatt WR, Dormandy JA, Nehler MR, Harris KA, Fowkes FG, TASC II Working Group. Inter-society consensus for the management of peripheral arterial disease (TASC II). J Vasc Surg 2007;45:S5-67. Pannier F, Rabe E. The relevance of the natural history of varicose veins and refunded care. Phlebology 2012;27:S23-6. Autor: Ricardo D’Almeida Gouveia Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.