Há pessoas que chegam sempre a horas, respondem a todas as mensagens, cumprem o que prometem e são as primeiras a oferecer ajuda. Por fora, parecem estar bem. Até ao dia em que tarefas corriqueiras como sair da cama, tomar banho, trabalhar ou simplesmente comer se tornam difíceis . Como psicóloga, ouço histórias destas com frequência. Quando olhamos para trás, muitas vezes percebemos que os sinais já estavam lá. Foram sendo normalizados, adiados ou escondidos atrás de um «É só cansaço» ou «Isto há de passar», agigantando uma bola de neve que um dia pode virar avalanche. A saúde mental não é um interruptor que nos coloca entre o «bem» e o «doente». É um continuum , no qual todos nos movemos ao longo da vida, de acordo com as circunstâncias e com os recursos que temos para lhes fazer face. Estar bem não significa estar sempre feliz . Significa poder sentir tristeza, medo ou raiva sem que essas emoções ocupem o espaço todo ; conseguir manter relações, tomar decisões e continuar a encontrar sentido naquilo que fazemos. Temos hoje mais liberdade para falar de saúde mental do que há algumas décadas. É uma mudança importante, mas ainda existe uma contradição: conseguimos falar sobre o tema quando se trata «dos outros», mas continuamos, muitas vezes, a ter dificuldade em reconhecer o nosso próprio sofrimento. Vivemos sob uma pressão constante: o trabalho que não termina, preocupações financeiras, excesso de informação, notificações permanentes e a comparação diária com vidas cuidadosamente editadas nas redes sociais. Neste contexto, cuidar da saúde mental não pode ser uma preocupação reservada aos momentos de crise nem um estigma . Prevenir começa por prestar atenção Um período difícil faz parte da vida, e nem todo o sofrimento significa doença. Contudo, quando as alterações do sono ou do apetite persistem, quando o interesse pelo que antes dava prazer desaparece e o isolamento aumenta, quando a irritabilidade se torna habitual ou surge uma sensação constante de desesperança, devemos parar e procurar compreender o que está a acontecer. Pedir ajuda é reconhecer limites e agir antes que o sofrimento se torne maior, não é falhar . O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender emoções, padrões e dificuldades, a desenvolver recursos e a encontrar novas formas de lidar com aquilo que estamos a viver. Como? Em muitas situações, o médico de família pode constituir uma importante porta de entrada para os cuidados de saúde neste sentido ainda visto como mais lato. A comunidade é também uma dimensão da prevenção que devemos valorizar. Uma conversa em que alguém se sente verdadeiramente ouvido, uma escola que ensina competências emocionais, um local de trabalho que respeita limites, uma família em que é possível dizer «Não estou bem», tudo isto é promoção da saúde mental. Neste Dia Mundial da Saúde Mental, relembro o que parece simples, mas que é o passo mais importante da caminhada: não espere pelo colapso para começar a cuidar . Perguntar «Como estás?» e estar preparado para ouvir a resposta. Reparar nos sinais. Pedir ajuda quando é preciso. Criar espaços onde ninguém tenha de esconder o sofrimento para continuar a funcionar. Estar. Olhar com olhos de ver. Ouvir. Respeitar. Acolher. Pequenas coisas que devemos procurar praticar com mais consciência, porque todos estamos dos dois lados da barricada. A saúde mental sustenta-nos até aos pés . A prevenção neste campo não é evitar todas as dificuldades da vida. É garantir que, quando chegam, não temos de as enfrentar sozinhos . Cuidar antes da crise também é cuidar. Cuidar da saúde mental não é um luxo nem uma fraqueza. É uma responsabilidade que partilhamos. Autora : Sara Castellano (psicologia) Conheça a equipa clínica de psicologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.