Luís Tavares Médico Veterinário Professor da Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa Os enormes benefícios para o Homem da interação com os animais de companhia , nomeadamente na sua saúde, são largamente conhecidos, por exemplo: A nível psicológico , por contribuírem para ultrapassar a solidão, combater o stress, a depressão, carências afetivas e emocionais; A nível físico , por contrariarem o sedentarismo, contribuindo assim para prevenir a obesidade, doenças cardiovasculares, entre outras. Cada vez mais se recorre à interação com os animais como agentes terapêuticos , de prevenção e de reabilitação de várias doenças psico-motoras. Os benefícios do contacto com animais de companhia estão também amplamente demonstrados: No crescimento e no processo educativo de crianças e jovens; Na qualidade de vida dos idosos, estando demonstrada a sua utilidade em retardar os processos degenerativos das capacidades intelectuais e cognitivas nas idades geriátricas. Potenciais problemas da proximidade de convivência com animais Como reverso da medalha, o convívio próximo com diferentes espécies de animais de companhia pode trazer ao Homem um risco acrescido de exposição a agentes infeciosos , nomeadamente os que são responsáveis por causar zoonoses , ou seja, doenças que se transmitem dos animais ao Homem e vice-versa. Esta questão ainda é mais relevante quando as pessoas envolvidas estão em situação de saúde de maior vulnerabilidade, como é o caso de pessoas imunocomprometidas (que têm as suas defesas imunitárias diminuídas); São várias as situações clínicas que podem ser responsáveis por diminuir as defesas imunitárias, como é o caso das infeções pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH), dos doentes sujeitos a tratamentos oncológicos, com fármacos citostáticos, ou transplantados a fazerem tratamentos com imunossupressores. A perceção deste risco acrescido pode levar a decisões ou a aconselhamento de que se termine ou não se inicie o relacionamento com os animais de estimação. Quando isto acontece: Perdem-se os benefícios recíprocos da convivência com os animais; Pode ser aumentada a vulnerabilidade psicológica em pessoas que, pela sua doença, têm já fragilidades e que tanto beneficiariam do ponto de vista emocional do convívio com os seus animais. Assim, é muito importante conhecer os riscos reais que estes doentes efetivamente correm e a forma de os minimizar ou mesmo anular , para, sempre que possível, não impedir o convívio com os seus animais. Quais são as doenças transmissíveis ao Homem pelos animais Há centenas de doenças com potencial zoonótico conhecido, algumas de origem viral, muitas de origem bacteriana, fúngica ou parasitária. Apesar desta multiplicidade de eventuais situações de iminente risco de contágio a partir dos animais, são proporcionalmente escassos os casos descritos em que este contágio efetivamente resultou em doença grave ou mesmo morte dos intervenientes. Doenças causadas por vírus Com exceção da raiva, a maior parte dos vírus capazes de causar doença no cão ou no gato, por regra, não se transmitem ao Homem. Os vírus que são normalmente comuns nos cães e que, como tal, são incluídos nos programas de vacinação desta espécie – gastroenterite infeciosa, esgana, hepatite, para-influenza, entre outros –, são específicos dos cães, não se transmitem ao Homem e, portanto, não representam qualquer risco, mesmo para doentes imunocomprometidos. No entanto, há algumas doenças virais transmissíveis por roedores ao Homem , como é o caso do vírus que causa a coriomeningite linfocítica, ou do vírus Hanta que podem ser de extrema gravidade para o Homem. Doenças causadas por bactérias, fungos ou parasitas Já a maior parte das zoonoses causadas por bactérias, fungos ou parasitas, constituem um risco efetivo de potencial transmissão a partir dos animais de companhia. Esta transmissão pode ocorrer : Por contacto direto com o animal infetado ou com os seus dejetos e outras excreções; Contaminação da água ou dos alimentos consumidos pelo Homem com materiais biológicos provenientes de animais infetados. Acontece que este segundo tipo de contaminação pode ocorrer mesmo em pessoas que não tenham nenhum animal de estimação , por exemplo: Pisando na rua, inadvertidamente, fezes de um animal infetado é possível contaminar o ambiente e as pessoas que vivem na mesma casa; Através de insetos vetores, por exemplo moscas que pousem em alimentos, depois de terem pousado em dejetos e outras excreções de animais infetados. Para a maior parte destas zoonoses existem tratamentos eficazes , desde que o diagnóstico seja feito precocemente nos animais ou nas pessoas. São uma exceção as bactérias multirresistentes aos antibióticos, que constituem hoje um problema de saúde pública gravíssimo. No entanto, há muitas outras situações em que há maior risco de contaminação com uma bactéria multirresistente, do que o contacto com um animal de estimação. Ainda, qualquer pessoa que contacte com um doente imunocomprometido poderá constituir para este um risco tão grande ou maior do que um animal de companhia. Como evitar a transmissão de doenças Grande parte das transmissões dos animais de companhia às pessoas podem ser evitadas na totalidade ou minimizadas cumprindo algumas regras elementares de higiene e segurança . Estas regras são habitualmente aconselhadas pelos médicos veterinários assistentes dos animais e incluem: Não comprar um animal de estimação em locais de grande concentração de animais e espécies e não os introduzir no ambiente familiar sem antes os levar ao veterinário; Manter o animal devidamente limpo, desparasitado e vacinado regularmente de acordo com um plano de prevenção definido pelo veterinário; Nunca alimentar os animais com carne crua (fonte potencial de contaminação com vários agentes patogénicos), cozinhar os alimentos e, sempre que possível, optar por rações corretamente formuladas e processadas; Implementar um plano de treino ou educação do animal centrado em evitar que o animal se torne agressivo, já que a transmissão de muitas das potenciais zoonoses poderá estar associada a arranhadelas ou mordeduras do animal. O treino deverá ainda visar contrariar a tendência que os animais, sobretudo os cães, têm de comer coisas que apanham na rua, restos alimentares, fezes de outros animais, restos mortais de animais ou beber em charcos de águas estagnadas; Evitar o contacto direto com os dejetos dos animais e usar luvas e máscara de proteção sempre que seja necessário manipulá-los ou proceder à sua limpeza; Nunca permitir que os animais de companhia partilhem a cama ou mesmo o quarto de dormir com as pessoas e evitar qualquer contacto direto da nossa face ou boca com o animal; Lavar cuidadosamente as mãos sempre que contactar com o animal e sobretudo antes de comer qualquer alimento; Particularmente no caso dos gatos, manter as suas unhas devidamente cortadas para evitar feridas resultantes de brincadeiras com o animal; Caso algum membro da família esteja imunocomprometido, evitar a aquisição de animais exóticos, nomeadamente répteis, roedores de proveniência desconhecida ou qualquer animal de espécies cujo comportamento com os seus donos possa ser imprevisível. As regras acima referidas visam manter os animais de estimação saudáveis e deverão ser sistematicamente implementadas sempre que os animais coabitem com pessoas independentemente de existir alguém imunocomprometido na família. Se cumpridas escrupulosamente, tornarão dispensáveis medidas radicais de afastamento entre pessoas imunocomprometidas e animais , que podem ser muito mais prejudiciais para ambos do que preventivas de eventuais contágios. A prevenção de transmissão de doenças dos animais para o homem alicerça-se atualmente em medidas e políticas de uma só saúde ( One Health ), que idealmente devem envolver cada vez mais um trabalho conjunto de médicos e médicos-veterinários. Saiba ainda que A relação entre o Homem e os animais é milenar e tem acompanhado toda a história da civilização humana desde os tempos mais primitivos. O Homem tem utilizado animais para o ajudarem em inúmeras tarefas, para o transportarem, para o alimentarem, para o vestirem e para lhe fazerem companhia. Nos tempos modernos, apesar de haver uma tendência para decrescerem algumas destas valências, tem havido um aumento exponencial do número de pessoas que procuram a companhia dos animais e que os mantém como animais de estimação. Embora classicamente o cão e o gato tenham sido de longe as espécies animais mais escolhidas como animais de estimação, atualmente assiste-se a um crescendo de outras espécies utilizadas como “ novos animais de companhia ” que incluem o coelho, o hamster, o porquinho da Índia e outros roedores e ainda espécies de animais exóticos como os furões, diferentes pássaros, répteis, como as tartarugas e as iguanas, entre outros. Cumpra os cuidados necessários e continue a desfrutar da companhia dos animais. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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