Uma doença reumática crónica numa criança ou adolescente é uma surpresa para o próprio e para todos os que lhe são próximos. As questão e receios que surgem são inúmeros: Como é possível uma doença crónica surja em idade tão jovem? Uma doença reumática não acontece apenas em pessoas mais idosas? Será que há alguma predisposição familiar? Será que foi transmitida pelos pais? Os irmãos também terão a doença? A doença não tem cura? O que significa remissão? Na realidade, há muitas doenças reumáticas diferentes, com sintomatologia, características e prognósticos diversos. Algumas destas surgem tipicamente em idade pediátrica. Vários fatores podem contribuir para o seu aparecimento. Em muitos casos são referidas como idiopáticas, ou seja, sem causa conhecida. Classicamente, as doenças reumáticas eram divididas em dois grupos – autoinflamatórias e autoimunes.No entanto, à luz do conhecimento atual esta divisão já não faz sentido, usa-se sim o conceito de continuum de doença imunológica, que interliga os dois grupos. Cada doença reumática é referida como uma desregulação por excesso ou por defeito das várias componentes que o constituem do sistema imunológico. Tal como acontece noutras áreas da medicina, em vez de uma determinada doença, cada doente com determinada doença reumática deve ser tratado de forma individualizada. Isto levou a reumatologia pediátrica a definir objetivos terapêuticos individualizados para cada doente. É o que se chama treat to target . Por outro lado, embora muitas doenças reumáticas não tenham cura, se forem diagnosticadas e orientadas atempadamente, é possível, nos dias de hoje evoluírem para remissão, ou seja, para um estado em que o doente não tem manifestações clínicas da doença reumática. Sinais / sintomas que devem motivar a procura de um reumatologista pediátrico: Tumefação articular (artrite) com mais de 6 semanas de duração; Edema e dor nas enteses, ou seja, nos locais de inserção dos tendões nos ossos; Claudicação (coxear) com dor e sem haver trauma associado. Pode ser possível apoiar o pé no chão, mas o doente tende a ter o membro inferior em flexão para evitar a dor; Dor com padrão inflamatório, por exemplo de manhã ou de manhã e ao final do dia; Rigidez dos movimentos após um período de imobilização prolongado, por exemplo depois de manhã ao levantar, depois de uma viagem; Fadiga crónica; Dor lombar crónica com mais de 12 semanas; Febre recorrente ou persistente com mais de 7 dias; Exantemas (manchas na pele) recorrentes ou persistentes ou em locais fora do comum, por exemplo em forma de borboleta nas faces, nas mãos, nos nós dos dedos, manchas arroxeadas ou vermelhas com edema à volta das pálpebras, na zona dos cotovelos ou dos joelhos; Olho vermelho e/ou dor ocular com diminuição da acuidade visual ou alteração da visão; Aftose recorrente sobretudo quando afeta a boca e a região genital; Parotidites (tumefação glândula parótida) ou tumefação de outras glândulas salivares de repetição; Hiperpigmentação da pele com subsequente atrofia cutânea ou impossibilidade de fazer pregas de pele numa ou em várias zonas do corpo; Fenómeno de Raynaud: alteração da coloração dos dedos das mãos, pés, orelhas, língua, nariz, com cor pálida, vermelha ou roxa, por vezes em simultâneo, e sobretudo se acontece durante todas as estações do ano. São poucas as doenças reumáticas em que apenas os exames permitem o diagnóstico. Na maioria dos casos, o diagnóstico de uma doença reumática exige: Uma história clínica detalhada; Uma observação criteriosa da criança ou adolescente; Acompanhamento regular. Os exames são mais úteis para definir prognósticos, classificar as doenças, avaliar respostas às terapêuticas instituídas , excluir outros diagnósticos quando existe dúvida e, também, para avaliar sequelas das doenças e dos tratamentos. As doenças reumáticas pediátricas são verdadeiras doenças da família e, muitas vezes, o seu aparecimento exige uma reestruturação familiar pelo envolvimento necessário de todos, desde os pais, os irmãos que também devem ver as suas necessidades e ansiedades respondidas, os avós que se podem rever nas queixas e até outros membros da família. Pelo seu caráter crónico, estas doenças precisam também de respostas da comunidade. As famílias destes doentes precisam de uma ajuda que não se esgota nos cuidados médicos e de enfermagem. A escola e a prática desportiva devem ser ajudas e não obstáculos. O desporto é recomendado ao doente reumático, mas se a doença não está controlada a atividade pode mesmo provocar dor, devendo ser limitada ou ajustada às queixas do doente. O controlo e vigilância regular que estes doentes necessitam deve também permitir aos seus cuidadores alguma flexibilidade laboral e a comunidade tem de realmente lutar para garantir a acessibilidade e mobilidade a todos de forma inclusiva. Autor : João Miguel Nascimento Conheça a equipa clínica de pediatria da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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