A ideia de que o exercício está proibido a quem tem uma doença crónica está há muito ultrapassada. Sabe-se hoje, com toda a evidência científica, que a prática de exercício físico regular faz especialmente bem a quem está doente . É só uma questão de assegurar que se faz o que deve ser feito. Durante muito tempo, ter uma doença crónica, como o cancro, as doenças cardiovasculares, a diabetes ou as doenças autoimunes, entre muitas outras, significava muitas vezes ficar condenado para o resto da vida a não ser mais senão um doente, por estas estarem associadas a condições incapacitantes e até fatais. Os avanços da ciência médica, o conhecimento que hoje se tem do modo como o corpo humano responde perante determinadas circunstâncias e, sobretudo, a abertura da própria medicina a novas áreas de intervenção trouxeram novas perspetivas ao acompanhamento da doença crónica. Uma dessas novas abordagens é o papel do exercício físico na gestão de doenças como a diabetes ou outras doenças crónicas. Este é o tema de mais um episódio do SPORTCAST , o podcast Hospital da Luz sobre medicina desportiva, com Hugo Pereira , fisiologista do exercício no Centro de Medicina Desportiva do Hospital da Luz Lisboa. SPOTIFY | APPLE O papel do exercício na gestão da diabetes O exercício físico tem uma enorme importância na gestão da diabetes, seja tipo 1 ou tipo 2. Além de facilitar a entrada de glicose nas células e assim poupar o pâncreas e as próprias células da ação da insulina, tem um elevado potencial de prevenção de doenças cardiovasculares e diminuição da gordura corporal , ajudando a equilibrar o organismo. O exercício é fundamental à sobrevivência a longo prazo da pessoa que tem diabetes. A qualidade de vida destes doentes, sobretudo nos últimos anos de vida, depende em enorme escala da gestão da glicemia, da gestão que próprio paciente faz do seu quotidiano – do consumo de hidratos de carbono, etc… A prática regular de exercício pode contribuir para manter tudo isso em equilíbrio o mais tempo possível, atrasando assim os efeitos que esta doença provoca no organismo. Plano de exercícios depende do tipo de doença? O plano de exercício para a pessoa diabética deve ser feito de acordo com cada doente e com as suas características específicas. Depende, por exemplo, do tempo que tem o diagnóstico de diabetes e dos valores de hemoglobina glicada que o doente apresenta. Em alguém mais novo, com diagnóstico recente e uma hemoglobina baixa ou controlada, é possível prescrever um plano de exercício sem cuidados especiais. Numa pessoa mais velha, com diagnóstico tardio, mas já com obesidade e com problemas cardiovasculares, a prescrição do exercício tem de considerar todas as comorbilidades associadas à diabetes, como risco de problemas de visão, de equilíbrio ou de sensibilidade, neuropatias, etc., sendo necessário avaliar a cada momento cada um desses problemas e optar pelo tipo de exercício que se adeque melhor ao que necessitar de mais cuidado. É fazer uma prescrição conservadora e sobretudo segura. Por exemplo, se a pessoa tiver uma isquemia do miocárdio, vamos esquecer que a pessoa tem diabetes, para tratar a pessoa (a mesma) com uma isquemia do miocárdio. Quando há comorbilidades reunidas no mesmo sujeito, temos de optar por uma prescrição o mais conservadora possível, tendo em consideração, de todas as patologias, aquela que é mais suscetível de criar uma resposta adversa aguda ao exercício físico. Outro exemplo: numa pessoa que tenha diabetes há muito tempo, pode já estar presente uma outra complicação - a degradação da circulação, a perda de vitalidade dos tecidos à periferia, especialmente os pés, que sofrem uma sobrecarga diária pelo peso e pela marcha. Logo, é essencial, na prescrição do exercício ter isto em consideração e não optar, por exemplo, por atividades que produzam grande desgaste nas extremidades dos membros inferiores. De resto, uma pessoa com diabetes pode fazer qualquer tipo de exercício. Mas privilegiamos o exercício de força, para manutenção da massa muscular e da funcionalidade, e o exercício aeróbio, para aumento do dispêndio energético e para conseguirmos aumentar aporte de glicose. De forma a otimizar a gestão da glicemia, pode iniciar a sessão por exercício de força seguido de exercício aeróbio. Pode incluir alongamentos dinâmicos antes do exercício de força. Fundamental mesmo é fazer exercício! E ir variando no tipo de exercício praticado. Há quem possa fazer exercício sem restrições e há quem precise de cuidados um pouco mais especiais. Mas isto é algo que normalmente as pessoas que têm diabetes sabem. Sabem que têm de comprar ténis ou sapatilhas que não provoquem nenhum tipo atrito e que devem usar meias sem costuras (de preferência brancas, para dar conta de eventuais feridas que tenham surgido). Sabem dos riscos associados à deterioração vascular, como a retinopatia diabética e a falta de visão, para evitar exercícios que potenciem os riscos de pancadas ou que dificultem a cicatrização . Sinais de alerta para a pessoa com diabetes, no momento do exercício Além dos cuidados com os pés e das cautelas para evitar exercícios que possam envolver pancadas na cabeça, pelas razões já apontadas, há que ter em atenção as complicações provocadas pela neuropatia, porque podem afetar silenciosamente a capacidade de gerir a frequência cardíaca. Nessa medida, a pessoa que tem diabetes deve fazer sempre um período de aquecimento mais prolongado, em que vai aumentando gradualmente a intensidade do exercício, assim como deve prever um período de retorno à calma também mais longo. Exercício, sim. Mas com que regularidade? Antes de mais nada, e seja qual for a condição clínica da pessoa com diabetes, não deve começar a praticar exercício sem consultar o seu médico assistente. Depois, e dependendo do que o médico disser, deve consultar um fisiologista do exercício para determinar quais são os tipos de exercício, os modos de exercício e as intensidades com que pode treinar para se sentir bem. Se, durante o exercício, sentir dor ou desconforto anormais ou uma descompensação súbita, deve parar e consultar o médico, antes de retomar. Quanto à regularidade do exercício, a resposta é: Todos os dias! Porque, como diz a Organização Mundial de Saúde, ‘ every move counts’ . A prescrição básica de exercício é igual para quem tem diabetes e para quem não tem: por dia, 150 a 300 minutos de exercício aeróbio moderado ou 75 a 150 minutos de exercício vigoroso; mais, duas ou três vezes por semana treino da força, exercício de flexibilidade associado e treino neuro-motor, se se tratar de pessoa com idade mais avançada. Em que fase da doença é desaconselhada a prática de exercício? Tudo se joga na gestão da glicemia. Uma das complicações agudas mais frequentes na diabetes, tipo 1 ou tipo 2, é a hipoglicemia. Ora, sem uma boa gestão do aporte de hidratos de carbono e da medicação, a prática de exercício físico pode facilitar a ocorrência episódios de hipoglicemia, o que não é aconselhável. E há algum desporto desaconselhado a pessoas com diabetes? Todos os desportos que provoquem muito desgaste sobre as extremidades, todas as atividades que envolvam um contacto muito próximo e intenso, como rugby, desportos de combate, são desaconselhadas para pessoas que tenham diabetes mais avançada. A fisiologia do exercício e a diabetes. Há ainda muitas pessoas que, perante o diagnóstico de uma doença crónica, passam a evitar fazer exercício físico. Deve ser ao contrário: o exercício físico é mesmo uma parte importante da terapia, em todas as doenças, ‘ exercise is medicine’ . Faz todo o sentido que, quando se fala de terapia da diabetes ou de gestão da diabetes, se fale de exercício físico. E, nesse contexto, a intervenção do fisiologista de exercício, como profissional formado e treinado para lidar com o exercício em populações com patologias, faz todo o sentido. Acompanhamento da pessoa com diabetes no Centro de Medicina Desportiva do Hospital da Luz. Além da consulta de exercício e performance, onde, em função dos relatórios médicos que acompanham estas pessoas, fazemos o programa de autonomização para o exercício físico, o Hospital da Luz tem disponível um programa específico de exercício para pessoas com diabetes , em que o exercício é feito em contexto de grupo. Trata-se de um programa multidisciplinar, que, além dos especialistas em medicina desportiva, dos fisiologistas do exercício, e conta com o apoio da endocrinologia, da cardiologia e de outras especialidades clínicas essenciais ao acompanhamento da diabetes. O programa prevê treino em grupo, duas a três vezes por semana, no Centro de Medicina Desportiva do Hospital da Luz. Autor: Hugo Vieira Pereira Conheça a equipa clínica de Medicina Desportiva da rede Hospital da Luz Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. 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