A perda auditiva induzida pelo ruído acontece quando sons intensos lesam as estruturas delicadas do ouvido interno. Embora a maioria das pessoas associe os traumatismos sonoros a sons explosivos, no nosso dia-a-dia também somos expostos a esse risco quando usamos os dispositivos que correntemente designamos por “fones” (os auriculares) e os auscultadores ( headphones ) , por exemplo para ouvir música, audiobooks ou podcasts. Evitar traumatismos sonoros é uma das formas mais eficazes de reduzir o risco de surdez. Por isso, também para usar estes dispositivos com segurança é preciso saber fazer boas escolhas e adotar cuidados no dia a dia. Como ocorre a perda auditiva induzida pelo ruído Nenhum dispositivo é completamente inofensivo, nem os auscultadores, nem os auriculares, e o que mais influencia o risco de traumatismo sonoro é a combinação entre intensidade sonora (medida em decibéis) e duração da exposição ao ruído. Escolher uma intensidade sonora segura Ouvir música acima de 85 decibéis (dB) por períodos prolongados pode causar lesões auditivas irreversíveis . De acordo com o National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a intensidade sonora de 85 dB é considerada segura até 8 horas. A cada aumento de 3 dB, o tempo seguro reduz para metade, por exemplo: 88 dB: 4 horas; 91 dB: 2 horas; 94 dB: 1 hora; 97 dB: 30 minutos; 100 dB: 15 minutos. Muitos leitores de música atingem facilmente os 100 dB, o que reduz drasticamente o tempo de audição segura. No entanto, a maior parte dos dispositivos modernos alerta os utilizadores quando o volume atinge níveis potencialmente prejudiciais. O problema é que muitas vezes esses avisos são ignorados. Assim, uma recomendação prudente é manter sempre o volume abaixo de 70% da capacidade total do dispositivo . Não exceder o tempo de exposição Uma vez que o tempo exposição também é muito importante, para estar em segurança é recomendada a regra 60/60 , ou seja: Ouvir a 60% do volume máximo, no máximo durante 60 minutos. Depois, cumprir uma pausa de pelo menos 30 minutos. Auscultadores ou “fones”: qual é a melhor opção? Risco de traumatismo sonoro Embora o volume e o tempo de exposição sejam os principais fatores, o tipo de dispositivo também influencia o risco de traumatismo sonoro . Os auscultadores ou headphones cobrem a orelha ( over-ear ) e, portanto, ficam fora do canal auditivo externo, fazendo com que a fonte sonora não esteja tão próxima da membrana timpânica como os auriculares ( in-ear). Além de permitirem ouvir a intensidades mais baixas, os auscultadores também têm normalmente cancelamento ativo de ruído, o que evita ter de aumentar o volume em ambientes mais ruidosos, como em aviões. No entanto, os auscultadores não são inofensivos e se forem usados com volume elevado durante muito tempo, também podem provocar um traumatismo sonoro. Os auscultadores geralmente são mais confortáveis durante o uso prolongado, mas podem causar desconforto se estiverem demasiado apertados. Ao pressionar o pavilhão auricular, podem provocar dor, irritação cutânea e condrite (infeção da cartilagem), que é mais difícil de tratar e que pode levar a deformação irreversível da orelha. Por isso, a dor é sempre um sinal de alerta e se tal acontecer, os auscultadores devem ser ajustados ou substituídos. Os “fones” ou auriculares ( in-ear ) acabam por ser os mais usados por serem compactos e fáceis de transportar. No entanto, o som é emitido mais perto do tímpano, podendo ser até 9 dB mais alto do que o emitido pelos auscultadores no mesmo nível de volume. Desta forma, o tempo de audição segura diminui de duas horas para 15 minutos, estando a ouvir a 91 dB. Como os “fones” também não estão tão associados ao cancelamento ativo de ruído, acabam por incentivar o aumento do volume em ambientes ruidosos. Outros aspetos a considerar Além da questão do risco de traumatismo sonoro, há outros fatores relevantes a ter em conta quando estamos a decidir que dispositivo adquirir. No canal auditivo externo existem naturalmente cerúmen e bactérias. Os “fones”, sendo inseridos neste canal acabam por empurrar o cerúmen para uma localização mais profunda , aumentando o risco da sua acumulação. Adicionalmente, o utilizador acaba por sentir necessidade de aumentar o volume do som. Os “fones” também estão associados a um maior risco de irritação e consequente otite externa, pela fricção, principalmente se não forem bem higienizados. Ao ocluir o canal auditivo externo, os “fones” promovem a retenção de mais humidade , especialmente após o exercício físico, o que cria um ambiente propício à proliferação de microrganismos, como bactérias e fungos. Sabe-se que podem levar a um aumento de até 11 vezes mais bactérias no canal auditivo externo. O uso de qualquer um destes dispositivos – “fones” e auscultadores – enquanto se caminha, anda de bicicleta ou conduz, pode reduzir a perceção dos sons ambientais, como buzinas ou sirenes, o que pode comprometer seriamente a segurança , principalmente em locais urbanos. Se, ainda assim, não quiser prescindir de ouvir música, use apenas um auricular ou opte por auscultadores de condução óssea, que permitem ouvir simultaneamente o ambiente à volta. Cuidados essenciais para proteger a audição Perder audição é muitas vezes um processo gradual e irreversível. A boa notícia é que, na maioria dos casos, é evitável. No que toca ao uso de “fones” e auscultadores, há um conjunto de cuidados a ter para os usar corretamente e evitar que contribuam para perda de audição: 1. Diminua o volume Defina um limite máximo no seu dispositivo, idealmente abaixo de 70%. 2. Faça pausas regulares para limitar o tempo de exposição Siga a regra 60/60 para permitir que os ouvidos recuperem: até 60% do volume máximo no máximo 60 minutos seguidos. 3. Prefira auscultadores ( over-ear ) Reduzem a intensidade sonora direta no canal auditivo externo. 4. Escolha modelos com cancelamento de ruído Especialmente importante em ambientes ruidosos, como aviões. 5. Ajuste os graves no equalizador Se aprecia a vibração (efeito bass ), pode aumentar ligeiramente os graves nas definições em vez de aumentar o volume. 6. Não durma a ouvir música com os “fones” ou auscultadores 7. Se sofrer de acufeno (zumbido) ou sensação de plenitude auricular (ouvido “tapado”), deve reduzir o uso de dispositivos auditivos . 8. Não partilhe os “fones” ou os auscultadores com outras pessoas, limpe-os semanalmente (e sempre que estiverem visivelmente sujos) com algodão ligeiramente humedecido em álcool (principalmente se forem usados durante o exercício físico), guarde-os numa caixa limpa e seca e evite a sua utilização se tiver alguma ferida nos ouvido, pelo risco de infeção. Em suma… Apesar de nenhum dispositivo ser inofensivo, os auscultadores acabam por ser aqueles que têm menos risco de infeção, de acumulação de cerúmen e de traumatismo sonoro. Seja qual for o dispositivo, é importante seguir sempre os cuidados necessários para proteger a audição. Ouvir música deve enriquecer a sua vida e não comprometer um dos seus sentidos mais valiosos. Fontes American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery. Your ear gear and hearing health . Dinnauer P. Earbuds vs. over-the-ear headphones: which should you Use? Hearing Health Foundation . de Waard D, Edlinger K, Brookhuis K. Effects of listening to music, and of using a handheld and handsfree telephone on cycling behavior. Transportation Research Part F: Traffic Psychology and Behaviour 2011;14:626-37. Mukhopadhyay C, Basak S, Gupta S, Chawla K, Bairy I. A comparative analysis of bacterial growth with earphone use. Online J Health Allied Scs 2008;7(2):4. Autora : Patrícia Fernandes Lopes (otorrinolaringologista) Conheça a equipa clínica de otorrinolaringologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.