A insuficiência cardíaca é, hoje, um dos grandes desafios da medicina moderna. É uma doença crónica, progressiva, associada a internamentos frequentes e a um impacto profundo na vida dos doentes . “ Cada internamento piora o prognóstico ”, explica a cardiologista Cândida Fonseca. “ Por isso, é fundamental intervir cedo, de forma estruturada e diferenciada .” Foi precisamente para responder a esta necessidade que nasceu o Hospital de Dia de Insuficiência Cardíaca do Hospital da Luz . O que é o Hospital de Dia de Insuficiência Cardíaca? As recomendações internacionais atuais salientam a necessidade de desenvolver e implementar unidades especializadas de avaliação e tratamento da insuficiência cardíaca em regime de ambulatório. O Hospital de Dia de Insuficiência Cardíaca é precisamente isso: um serviço especializado onde os doentes com insuficiência cardíaca são avaliados, tratados e acompanhados sem necessidade de internamento . Aqui uma a equipa multidisciplinar aposta numa abordagem precoce, integrada e centrada no doente para evitar reinternamentos e melhorar a qualidade de vida . Funciona como uma verdadeira porta aberta para os doentes com insuficiência cardíaca, permitindo tratar descompensações de forma rápida , evitar idas desnecessárias à urgência e reduzir reinternamentos. “ A insuficiência cardíaca é a primeira causa de internamento médico após os 65 anos ”, sublinha o internista Pedro Morais Sarmento. “ Sabemos que os reinternamentos são muito frequentes, sobretudo nos primeiros três meses após a alta. É exatamente aí que queremos intervir .” Como funciona o Hospital de Dia de Insuficiência Cardíaca O modelo é simples na sua lógica, mas exigente na execução. Quando há um internamento O acompanhamento focado na insuficiência cardíaca começa ainda durante o internamento, com ensino ao doente e ao cuidador sobre a doença, a medicação e os sinais de alerta. Após a alta, a reavaliação acontece rapidamente - idealmente nos primeiros 15 dias - algo que a consulta convencional dificilmente consegue garantir. É aqui que entra o Hospital de Dia.O doente regressa para uma avaliação clínica e analítica, ajustam-se as doses da medicação e reforça-se a educação para o autocuidado. “ Hoje sabemos que o s fármacos modificadores da doença devem ser iniciados cedo , todos em simultâneo, ainda que em doses pequenas ”, explica Cândida Fonseca. “ A titulação faz-se depois, mas tem de ser próxima .” Sempre que há sinais de alerta O Hospital de Dia funciona também como uma verdadeira porta aberta. Doentes previamente diagnosticados sabem que podem contactar a equipa se surgirem sintomas como aumento rápido de peso, falta de ar ou edema. “ Muitas vezes, basta um telefonema para ajustarmos a medicação ”, explica o internista. Cerca de 30% da atividade passa, precisamente, por este contacto direto com doentes e cuidadores. Uma das grandes mais-valias deste modelo é a possibilidade de realizar tratamentos endovenosos em ambulatório, sem necessidade de internamento. Se o doente surge com retenção de líquidos ou agravamento dos sintomas, pode receber tratamento no próprio dia e regressar a casa . “ Se for tratado cedo, não precisa de ser internado ”, reforça Pedro Morais Sarmento. Tudo acontece em articulação com o Serviço de Cardiologia. Análises, eletrocardiogramas, ecocardiogramas e referenciação para arritmologia ou cardiologia de intervenção são feitos de forma imediata. “A insuficiência cardíaca é o fim de uma longa jornada”, explica Pedro Morais Sarmento. “ Enfarte, hipertensão, diabetes, arritmias - tudo pode conduzir a este ponto .” Seguimento personalizado A abordagem é sempre personalizada. Há sessões dedicadas ao ajuste de medicação, sessões para tratamento urgente e sessões programadas, como a correção endovenosa de défices de ferro. Um doente pode ficar apenas três horas ou passar o dia inteiro em tratamento, consoante a gravidade da situação. A experiência da primeira unidade privada deste tipo em Portugal O Hospital de Dia de Insuficiência Cardíaca do Hospital da Luz Lisboa foi a p rimeira unidade privada deste tipo em Portugal . Coordenada pela cardiologista Cândida Fonseca, este serviço tem um espaço físico e uma equipa própria, constituída por médicos cardiologias, médicos internistas, enfermeiros e auxiliares de ação médica, e presta cuidados específicos e diferenciados a doentes com insuficiência cardíaca. A maioria dos doentes que aqui são acompanhados tem mais de 65 anos, muitos perto dos 80, com múltiplas doenças associadas . Mas há também doentes jovens, alguns com 30 ou 40 anos , que chegam após uma infeção viral, um enfarte precoce ou uma arritmia. “ Quando conseguimos ver um doente jovem recuperar e voltar à sua vida normal, é extremamente gratificante ”, confidencia Cândida Fonseca. O feedback dos doentes é marcado pela tranquilidade. Saber que existe uma equipa acessível, que responde rapidamente e acompanha de perto, faz toda a diferença . O mesmo acontece com os colegas que referenciam doentes para este circuito, encontrando aqui uma resposta rápida e especializada. “O Hospital de Dia é apenas uma peça da clínica de insuficiência cardíaca, mas é talvez a mais importante”, conclui Pedro Morais Sarmento. “Permite intervir no momento certo, evitar agravamentos e, acima de tudo, melhorar a vida dos doentes.” Os números impressionam: Estima-se que 16% da população portuguesa com mais de 50 anos tenha insuficiência cardíaca , percentagem que aumenta significativamente com a idade. E mais de 90% não sabe que tem a doença. Reconhecer os sintomas - cansaço, falta de ar, dificuldade em dormir deitado - é essencial, mas o diagnóstico só se confirma com exames que comprovem uma disfunção cardíaca.