A medicina evolui de muitas formas. Estão sempre a surgir novas tecnologias, novos procedimentos, novas terapêuticas, mas há também muita inovação na Saúde que resulta simplesmente da aplicação do que já é conhecido em áreas diferentes. As câmaras hiperbáricas têm uma história longa, de mais de cem anos, e surgiram associadas às complicações resultantes do mergulho aquático. No entanto, foi só nos anos 70 do séc. XX que os médicos começaram a perceber as vantagens terapêuticas da chamada oxigenoterapia em meio hiperbárico em múltiplas patologias. Hoje, a medicina hiperbárica é um recurso terapêutico relativamente comum em áreas da medicina tão diferentes como a traumatologia, a neurologia, a oncologia, começando também a ser mais usual na medicina desportiva. Este é o tema de mais um episódio do SPORTCAST, o podcast Hospital da Luz sobre medicina desportiva, com Cláudia Febra, médica especialista em Medicina Interna, Medicina Intensiva, Emergência Médica e Medicina Hiperbárica e Submarina do Hospital da Luz Lisboa. SPOTIFY | APPLE A história da medicina hiperbárica tem mais de cem anos Há mais de cem anos, já os mergulhadores e os submarinos eram um recurso estratégico de guerra muito utilizado. Mas aconteciam muitos acidentes, muitos deles fatais para estes homens. Ora, estes acidentes de mergulho acontecem quando o mergulhador vem à superfície muito depressa, não respeitando os patamares adequados de subida. É a chamada doença da descompressão ou do mergulho. Descobriu-se, então, que se fosse possível colocar o mergulhador artificialmente dentro do contexto de onde ele emergira, colocando-o à mesma pressão em que estava em segurança, os efeitos fatais da doença da descompressão desapareciam. Ou seja, o mergulhador era deixado naquela pressão mais baixa da profundidade do mar, como se estivesse no mergulho novamente, e fazia-se isso durante o tempo equivalente ao que teria sido necessário para uma subida à superfície em segurança. Depois, tranquilamente reduzia-se a pressão, até se atingir a pressão atmosférica da superfície. À medida que se foi utilizando cada vez mais este ambiente artificial de fundo do mar para tratar a doença do mergulho - que foi uma descoberta militar -, perceberam-se as muitas vantagens cínicas desta tecnologia. E aquilo que começou por ser um recurso exclusivamente militar, ganhou uma dimensão importante na medicina. Nos últimos 40 anos, a medicina hiperbárica tem vindo a ganhar terreno, com novas indicações clínicas e terapêuticas em cada vez mais áreas da medicina. Mas ainda há muito por descobrir. Hoje, a oxigenoterapia hiperbárica utiliza-se no tratamento de complicações ou de doenças que resultem de má oxigenação : Feridas que não saram facilmente, Feridas diabéticas prolongadas; Intervenções cirúrgicas com retalhos/implantes de tecido que não resultam; Feridas de doentes que têm má circulação, que sofrem de doença arterial ou venosa complicada; Na oncologia, em complicações da radioterapia (queimaduras nos tecidos, complicações ao nível da bexiga, intestinos, etc; aliás, no tratamento de complicações da radioterapia nas estruturas intra-abdominais, a medicina hiperbárica já é, de facto, de primeira linha). E também na traumatologia hospitalar, na neurologia, na endocrinologia, entre outras. As câmaras hiperbáricas em contexto hospitalar são usadas para o tratamento de várias patologias e vários doentes ao mesmo tempo. São câmaras grandes e complexas, que chegam a ter entre 8 a 16 lugares, e onde é possível atingir pressões bastante elevadas - que são as desejáveis e as que têm sucesso associado à cicatrização dos tecidos. Câmaras mais pequenas, que têm sido utilizadas em contextos de medicina estética, por exemplo, não atingem estas pressões mais elevadas e, portanto, não conseguem os mesmos resultados terapêuticos. Medicina hiperbárica para atletas Os atletas utilizam oxigenoterapia hiperbárica sobretudo em contexto de lesão e para tratamento na recuperação. Modalidades como o ténis, o ski ou até o futebol recorrem a esta tecnologia especialmente em fases competitivas mais intensas. O que está na base da técnica da oxigenoterapia hiperbárica é muito simples, do ponto de vista físico. O que se faz é colocar o atleta dentro de uma câmara de alta pressão com oxigénio em altas concentrações. A pressão dentro da câmara hiperbárica imita o mergulho do submarino, sendo uma pressão tolerada pelo ser humano. Nestas condições especiais e com a modificação da solubilidade dos gases – nomeadamente, aumentando o oxigénio no sangue e nos tecidos – conseguimos fazer chegar muito mais oxigénio a sítios onde ele não chegaria nestas elevadas quantidades, através das artérias. E isso melhora todos os processos biológicos do nosso organismo que estão dependentes de oxigénio - desde a respiração celular normal, até, por exemplo, a recuperação de uma lesão no músculo de um atleta, conseguindo-se, com isso, uma redução substancial do tempo de recuperação. Por exemplo, num atleta operado a uma lesão de menisco ou de ligamentos - que são estruturas pouco vascularizadas, que têm muito poucas artérias, e onde chega, por isso, pouco oxigénio normalmente - conseguimos fazer chegar muito mais oxigénio a estes tecidos e a recuperação no pós-operatório, no pós-lesão, em processos inflamatórios e após atividade muscular intensa é muito melhor e mais rápida. Por estas razões, a utilização de oxigenoterapia hiperbárica começou a generalizar-se entre os atletas de alta competição. Porque permite acelerar a recuperação de todo o processo inflamatório dos tecidos musculares e conseguir o regresso ao treino e às competições em tempo record. Porque também funciona como uma espécie de anti-inflamatório para prevenir lesões que possam resultar da intensidade do treino, do facto de o organismo não estar preparado para cargas elevadas de exercício ou de paragens prolongadas desse treino. Porque, tal como o atleta de alta competição tem um cuidado especial com a sua alimentação, recorre a exercícios de reforço muscular e postural, ou crioterapia, entre tantas outras, também pode recorrer a esta técnica da medicina hiperbárica para melhorar o seu rendimento. No fundo, este é um recurso que acabará por fazer parte intrinsecamente de planos de treino e de planos de recuperação dos atletas e dos praticantes de exercício regulares. Medicina hiperbárica no Hospital da Luz No Hospital da Luz Lisboa, o Centro de Medicina Hiperbárica tem uma câmara hiperbárica multilugar de nova geração - a primeira do género na Península Ibérica. Autora: Cláudia Febra Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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