O mergulho recreativo é uma atividade fascinante que permite explorar o mundo subaquático, descobrir a vida marinha e desfrutar de paisagens submersas incríveis. É um desporto que oferece uma combinação única de aventura, tranquilidade e exercício físico. É também um desporto seguro, desde que as suas regras sejam respeitadas. E estas incluem o mergulhador estar apto fisicamente para os desafios que lhe são colocados, nomeadamente: O aumento de pressão resultante da imersão na água; O frio; As correntes, fortes e nem sempre favoráveis. Durante um mergulho, é principalmente o sistema cardiovascular que é posto à prova. Por isso, não é surpreendente que cerca de 30% das mortes relacionadas com este desporto recreativo se devam a eventos cardiovasculares. Avaliar a saúde cardiovascular antes de iniciar a prática de mergulho e posteriormente de forma regular é fundamental. Mesmo que o mergulho seja esporádico. Sou saudável, devo ser avaliado em consulta médica antes de fazer mergulho? Mesmo quando não há doenças conhecidas é muito importante avaliar se a capacidade física é adequada para realizar mergulho e excluir algum possível problema cardíaco que ainda não se tenha manifestado com sintomas. Assim, uma avaliação médica é sempre recomendável. Regra geral, quem tem mais de 45 anos e fatores de risco para doença cardiovascular, tais como hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, obesidade e for fumador, deve ser avaliado por um médico antes de começar a mergulhar. Em alguns casos poderá ser necessário fazer exames , de forma a despistar doença das artérias coronárias, entre outras. A avaliação poderá assim incluir, além da consulta, exames como eletrocardiograma, ecocardiograma, prova de esforço e eventualmente uma angiografia por tomografia computorizada (angio-TAC) das artérias coronárias. Em qualquer idade, se tiver sido diagnosticada alguma doença cardíaca é imprescindível fazer uma avaliação prévia ao mergulho. Há doenças cardíacas que podem contraindicar o mergulho? Sim! O mergulho é uma atividade exigente para o sistema cardiovascular. A pressão arterial e a frequência cardíaca aumentam durante o mergulho , os níveis de oxigénio no sangue oscilam e, por estes motivos, algumas doenças cardíacas desqualificam um potencial mergulhador para a prática da atividade. São alguns exemplos: Doença das artérias coronárias não tratada, incluindo a angina de peito e a história prévia de enfarte agudo do miocárdio, Miocardiopatias; Insuficiência cardíaca; Doenças que aumentem o risco de arritmias e que possam causar perda de consciência no ambiente subaquático; Cardiopatias congénitas; Doenças valvulares graves. Por outro lado, mergulhadores que tenham alguns sintomas, em particular os que limitam a capacidade física, devem ser avaliados em detalhe, nomeadamente: Incapacidade de fazer esforços moderados, por exemplo subir 2-3 lanços de escadas; Dor no peito associada ao esforço, falta de ar, palpitações ou síncope (perda de conhecimento); História de sopro cardíaco; Hipertensão arterial não controlada; Antecedentes familiares de morte prematura (súbita / inexplicada ou cardíaca). Tenho problemas cardíacos e já fiz mergulho sem ter acontecido nada, posso continuar? Depende! A resposta a esta pergunta requer seguramente uma avaliação em consulta de cardiologia e/ou por um médico especialista em medicina subaquática. O facto de ter problemas cardíacos e não ter acontecido nada a fazer mergulho não é sinónimo de não ter risco ou de que continue a não acontecer nada. Algumas doenças cardíacas contraindicam em absoluto a prática de mergulho , devido ao risco de ocorrer um evento agudo, como é o caso de uma paragem cardíaca em ambiente subaquático, que seguramente leva à morte. Adicionalmente, algumas doenças cardíacas aumentam o risco de embolia gasosa e doença descompressiva , que são complicações do mergulho. Por esse motivo é preciso excluir uma lista exaustiva de doenças antes de concluir se pode ou não continuar. Quando se trata de fatores de risco cardiovascular, como hipertensão arterial e diabetes, não há uma contraindicação absoluta para o mergulho, mas é fundamental que o médico verifique se estão controlados e exclua doença cardíaca, habitualmente com recurso a alguns exames de diagnóstico. Devo excluir que tenho um foramen ovale patente (FOP) antes de mergulhar? O foramen ovale patente é uma pequena comunicação entre as aurículas que está presente em cerca de 25% das pessoas, a maioria das quais não tem qualquer sintoma. No entanto, a presença do foramen ovale patente aumenta o risco de embolia gasosa. Assim: A identificação de um FOP num mergulhador que tenha tido uma complicação de mergulho, obriga necessariamente ao seu tratamento e encerramento. O conhecimento da presença de um FOP num mergulhador que nunca tenha tido uma complicação obrigada a uma avaliação sobre o risco / benefício de prosseguir com o desporto, em conjunto com o um cardiologista e/ou médico especialista em medicina subaquática. Nos restantes mergulhadores, a pesquisa ativa do FOP não está recomendada, em particular se não existirem fatores de risco; no entanto, a realização de um ecocardiograma poderá esclarecer esta dúvida. Lembre-se sempre Apesar de fascinante, o mergulho é uma atividade exigente que requer uma avaliação cuidadosa do sistema cardiovascular. A avaliação por médicos especializados em medicina subaquática e por um cardiologista quando existe doença cardiovascular, é essencial para garantir a segurança na prática do mergulho. Autor: José Ferreira Santos Fonte Diving medical guidance to the physician . Undersea and Hyperbaric Medical Society. Conheça a equipa clínica de Cardiologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.