José Henrique Duarte Correia Médico Veterinário Professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa Se pensarmos apenas em termos emocionais, no gratificante que é termos um ser que nos venera incondicionalmente e que fica feliz só de nos ver, que tudo faz para nos agradar e que pouco ou nada pede em troca, a resposta imediata é: “Claro que sim, queremos mesmo ter um animal de companhia!”. Infelizmente, o processo de decisão é mais complexo do que pensamos à primeira vista. A partilha da nossa vida com um animal, qualquer que seja, deve ser ponderada de um modo muito racional para que essa convivência seja o mais feliz e compensadora possível e que assim se mantenha ao longo do tempo. A palavra-chave para a decisão de introduzir na nossa vida familiar um animal de estimação é responsabilidade . Por isso, antes de decidir juntar um animal à família, reserve algum tempo para refletir. É importante garantir que não compromete o bem-estar da sua família e que pode assegurar as necessidades de bem-estar do animal. Uma pesquisa cuidadosa pode ajudar a compreender que condições que têm de existir para cada tipo de animal de estimação. Conhecendo as implicações de introduzir um animal de estimação como novo membro da família será mais muito mais provável: Ter um animal de estimação feliz, bem-adaptado e com uma boa relação com a família; Ter mais facilidade em lidar com eventuais desafios que possam surgir. Necessidades de bem-estar dos animais As necessidades de cada tipo de animal de estimação são muito diferentes e devem ser conhecidas previamente, bem como a possibilidade de as assegurar. As 5 necessidades de bem-estar: Saúde : inclui a proteção da dor, lesões, sofrimento e doença e a garantia do tratamento médico-veterinário adequado em caso de doença ou lesão; Comportamento : será possível a exibição de padrões de comportamento natural da espécie, por exemplo, brincar, correr, cavar, saltar, voar, entre outras; Companhia : dependendo da espécie, pode ser haver necessidade de alojamento em conjunto ou separadamente de outros animais. Por exemplo, espécies como os coelhos e cobaios apreciam a companhia dos seus semelhantes, enquanto os hamsters preferem e devem ser alojados sós; Dieta : garantia de uma alimentação adequada em qualidade e quantidade, de acordo com a idade e o estado de saúde, para prevenir má nutrição ou obesidade e acesso livre a água limpa e fresca. Ambiente : garantia de dispor de um ambiente adequado, que permita ao animal um repouso confortável, esconder-se, ter espaço para explorar ou para se exercitar. Questões práticas Há ainda questões práticas, muito diversas, cuja resposta tem de conhecer para decidir qual é o animal adequado para a sua família. Quem deseja ter um animal Se todos os membros da família desejam ter um animal, todos devem conhecer o que implica a escolha, sentir-se confortáveis com a decisão e acolher bem o animal. Decida de antemão quem vai ser o cuidador principal do animal de estimação dentro da família. Se tem crianças, tenha a certeza de que a presença de um animal não as incomoda de qualquer forma. E se for uma criança o cuidador principal do animal, assegure-se que tem idade e é capaz de desempenhar a tarefa. O animal mais adequado para a família e para a casa Vai ser capaz de viver com pêlo, caixas de areia ou estragos ocasionais produzidos pela atividade do animal de estimação? Se apenas gosta de gatos ou de cães, escolha a sua espécie favorita. Contudo, se também tem lugar no seu coração para lagartos, cobras, peixes, pássaros, roedores e pequenos mamíferos, pense bem para determinar a sua espécie favorita. Se não for capaz de escolher entre pêlo, penas, escamas ou barbatanas, considere as outras questões, para estreitar a sua gama de preferências. Vive numa casa arrendada? Tem de ter permissão do senhorio para ter um animal de estimação. O condomínio da sua casa autoriza animais de estimação? Informe-se primeiro. Ninguém do seu agregado familiar tem problemas de saúde que impeçam um convívio próximo com um animal? Se não tem a certeza, fale com o médico assistente ou com o pediatra, no caso das crianças. Temperamento No caso de animais maiores, atente ao seu temperamento, bem como à personalidade da sua família. As várias raças de cães e de gatos foram desenvolvidas para finalidades e usos diferentes. Quer um animal de estimação colado a si, desejoso de fazer parte de todos os aspetos da sua vida ou prefere um animal de estimação mais alheado e independente? Conjugar a espécie e raça correta com o estilo de vida da família é essencial para a felicidade da família e do animal de estimação. Muitos animais mais pequenos e que requerem menos compromisso, podem também ter um feitio pouco adequado à sua família. Por exemplo: Os gerbilos e hamsters não vivem tanto como outros animais de estimação e podem ser muito sensíveis, ao ponto de morderem quando são manipulados incorretamente. Não são apropriados para crianças com menos de 8 anos sem supervisão de adultos. Os hamsters são animais noturnos e começam as suas atividades à hora em que as pessoas habitualmente se vão deitar. Acordá-los durante o dia incomoda-os bastante. Longevidade É importante saber quanto tempo em média vive um animal antes de o levar para casa. Muitas espécies de tartarugas e aves podem viver mais de 50 anos e mesmo mais do que todos os membros da família. Saiba também que muitos répteis e peixes são vendidos muito jovens e crescem muito mais do que parece à primeira vista. Há répteis, como as serpentes, que podem viver 30 anos em cativeiro. Mesmo alguns cães de raças pequenas podem viver até aos 20 anos. Nível de atividade Quer um cão. Mas é uma pessoa sedentária ou fisicamente ativa? Se não gosta de mais nada além de enroscar-se num sofá com um bom livro, os cães e gatos mais velhos são normalmente mais brandos e descontraídos e podem enroscar-se consigo. Os lagartos, serpentes e peixes também não o incomodarão, não requerem exercício diário. Se faz uma caminhada nova todos os fins de semana, um cão aventureiro pode ser a escolha ideal. Cães de trabalho ou desporto precisam de atividade mental e física diárias, ou rapidamente descambam em comportamentos destrutivos Se não puder fornecer o exercício que a raça precisa, opte por cães de raças de menor exigência em termos de atividade. Lembre-se que os cachorros e gatinhos necessitam de sociabilização e treino durante alguns meses, enquanto os cães e gatos adultos estão treinados em termos sociais e de necessidades fisiológicas. Custos De um modo geral, quanto mais corpulento for o animal de estimação, maiores as despesas relacionadas. Animais mais pequenos, como gerbilos, cobaios e peixes têm custos iniciais e anuais mais baixos. Répteis e peixes de água salgada requerem habitats especializados, que podem ser caros. Os roedores contentam-se com uma jaula adequada, boa cama, alimento e brinquedos. E está preparado para uma crise de saúde do seu animal de estimação? Os custos podem ser substanciais. Pode ter um seguro de saúde para o seu animal para ajudar? Adotar um animal Se esta for uma possibilidade, com um pouco de pesquisa pode encontrar organizações que recolhem animais abandonados de quase todas as espécies populares de animais de estimação. A adoção de um animal abandonado é um início meritório da sua relação com animais de estimação. Cuidados na ausência da família Tem alguém que possa cuidar do seu animal de estimação durante uma ausência? Se não tem, como é que garantirá os cuidados necessários ao seu animal quando estiver fora? Estas são as principais questões cuja resposta é determinante para a sua decisão de introduzir um animal de estimação na família e para a escolha do animal mais adequado. Em resumo… É conhecido que os animais de companhia podem melhorar a qualidade de vida das pessoas com quem vivem. A maioria das pessoas refere que ter um animal de companhia ajuda a gerir o stress e a ansiedade, a mitigar a solidão e dá um sentido diferente à vida. As pessoas mais idosas e as que vivem sozinhas encontram muitas vezes no seu animal de companhia um substituto da família humana e uma razão para se levantarem todos os dias, para além de se sentirem úteis e necessárias. Acompanhar o crescimento de uma criança com um animal de companhia pode ajudar a desenvolver o seu sentido de responsabilidade e de respeito pelos animais e ter reflexos positivos nas suas competências sociais e afetivas. Ter um animal que precisa de passear na rua todos os dias, várias vezes por dia, ajuda a praticar alguma atividade física e a ter uma vida mais saudável. No entanto, para o bem-estar de todos, tem de haver uma correspondência de personalidade , estilo de vida e anseios da família com as características do animal de estimação. Assim, quando estiver a escolher um animal de estimação, tenha consciência da razão pela qual pretende ampliar a sua família : quer um protetor, um animal para exibir, um cão de trabalho ou um animal cujo único propósito é ser um companheiro de vida? A análise de todos os aspetos que rodeiam a questão pode ajudar a tomar uma decisão consciente e responsável e, assim, a assegurar que a introdução do novo membro da família será uma mais-valia garantida para a qualidade de vida, felicidade e realização familiar e, ao mesmo tempo, permitirá uma vida bem-adaptada, feliz e saudável para o novo animal de estimação da família. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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