Vivemos numa era em que a vida quase é medida pelo ritmo frenético dos nossos passos e pela quantidade de tarefas que conseguimos ir riscando numa lista interminável. O tempo, outrora um aliado, tornou-se num tirano silencioso, controlando os nossos dias e deixando-nos pouco espaço para simplesmente estar. No Natal, um momento que simboliza a família, o amor e a presença plena, talvez seja o momento certo para parar e refletir: que preço estamos a pagar por uma vida vivida a correr? Os mil e um horários que cumprimos são muitas vezes reflexo de uma necessidade real: os trabalhos que acumulamos para pagar as contas, para dar estabilidade à nossa família ou para não falharmos com as expectativas impostas. Mas, no meio desta maratona, falta-nos tempo para aquilo que mais importa. Falta tempo para estar com os nossos filhos sem pressa, para ouvir o que eles têm a dizer, sem estarmos com um olho no relógio. Falta tempo para estar com os nossos companheiros, para partilhar um olhar de admiração, um toque de afeto. Falta tempo para nós próprios, para cuidarmos do corpo e da mente, para respeitarmos o nosso cansaço e reconhecermos a nossa fragilidade . A exaustão não é apenas física. É também emocional. Quantas vezes adiamos o abraço longo que poderia curar um dia mau? Quantas vezes esquecemos o poder de um olhar contemplador, de um sorriso partilhado sem palavras? Vivemos num mundo que nos empurra para a produtividade constante, mas negligenciamos a fertilidade emocional que nasce do simples estar com o outro. E isto tem consequências profundas, em todas as fases da vida. Partilho convosco o que a minha vida profissional me tem mostrado… Nas crianças Cada vez mais moldadas por agendas preenchidas, as atividades extracurriculares, calendários coloridos e objetivos a cumprir tornam-se parte do seu quotidiano. E estas agendas cheias roubam-lhes a simplicidade da infância, a espontaneidade do brincar, o tempo para sonhar sem pressão. E quantos pais, exaustos no final do dia, não conseguem sequer oferecer-lhes um serão tranquilo. Nos adolescentes Os adolescentes vivem um paradoxo doloroso. Estão mais ligados do que nunca através das redes sociais, onde podem sentir que pertencem a muitos lugares, mas, ao mesmo tempo, carregam um vazio crescente no mundo real. O brilho dos ecrãs contrasta com a falta de um espaço que os acolha genuinamente, onde possam ser vulneráveis sem medo de julgamentos. Muitos procuram conforto nos likes e nas mensagens imediatas, mas o que realmente precisam é do toque humano. De uma conversa aberta com os pais, de um ombro amigo onde possam chorar, de um momento em que se sintam verdadeiramente vistos. Quando este apoio parental não está lá, instala-se uma tristeza que se reflete num olhar vazio e numa angústia silenciosa. É essencial devolver aos adolescentes o sentimento de pertença e segurança, mesmo quando em casa predomina o conflito, criando espaços onde possam descobrir quem são, longe das expectativas irreais e da pressão para corresponder a padrões impossíveis. Nos jovens adultos e no adultos Estes carregam o peso de um mundo que exige desempenho constante. A procura por estabilidade financeira e pessoal empurra-os para uma corrida onde não há linha de chegada visível. O resultado? Relações que se tornam disfuncionais, momentos de cumplicidade trocados por discussões sobre contas ou tarefas pendentes, sonhos adiados pela necessidade de sobreviver. Nos mais velhos E quando finalmente se chega à fase em que o tempo deveria ser mais gentil, os mais velhos estão frequentemente sós. São esquecidos pelas famílias que não têm tempo para os visitar, para ouvir as suas histórias, para lhes dar a dignidade de uma presença calorosa ou sentem que são um peso para os outros. E isto reflete-se de forma cruel: a solidão torna-se uma companheira permanente e indesejada, silenciosa, mas devastadora, com consequências graves para a sua saúde mental. Sem o contacto humano regular e o afeto de quem amam, muitos deparam-se com problemas de depressão, ansiedade e com um profundo sentimento de abandono. O que podemos fazer? Talvez possamos oferecer… Aos nossos filhos menos atividades e mais abraços. Aos nossos companheiros, menos tarefas divididas e mais olhares de admiração. Aos nossos amigos, menos mensagens virtuais e mais encontros reais. Aos nossos idosos, surpreendê-los com visitas ou com um mimo; mais telefonemas, ouvir as suas histórias e envolvê-los em atividades familiares. Parar um pouco na época natalícia pode ser um desafio. Mas é fazer algo diferente, escolher apenas estar! Estar por inteiro! Estar para observar, sentir e partilhar. A verdadeira magia do Natal está no reencontro. Com o outro. Com a família. Que o Natal nos ensine a caminhar mais devagar, a olhar nos olhos de quem amamos e a construir memórias que perdurem, mesmo depois de o calendário virar para um novo ano. Aqui ficam os votos de um Feliz Natal de uma psicóloga que também se frustra pela velocidade com que a vida corre, mas que luta por cuidar de si, da sua família e daqueles de quem cuida todos os dias de uma forma equilibrada e saudável. Autora : Yennyfer Katerine Martins Conheça a equipa clínica de psicologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.