A infertilidade afeta milhões de casais em todo o mundo e os motivos que a podem justificar são diversos. É conhecido que a idade materna mais avançada é uma questão importante, mas há outras, por exemplo hábitos alimentares inadequados, excesso ou défice peso, défices nutricionais, desregulação do sono, stress e exposição a toxinas ambientais, entre outros. Em muitos casos a nutrição pode ter um papel importante para aumentar a probabilidade de gravidez. É o caso, por exemplo, de mulheres com síndrome de ovário poliquístico (SOP) ou endometriose, desadequação do índice de massa corporal, algumas doenças da tiroide, alergias, intolerâncias alimentares, homens com qualidade espermática comprometida, entre outros. Ácido fólico Quando se trata de gestação e programação metabólica, a ingestão de ácido fólico e a sua suplementação (idealmente na forma de metilfolato) tem sido consistentemente relacionada a menor subfertilidade, menor risco de perda gestacional e maior sucesso nos tratamentos de infertilidade, como a fertilização in vitro (FIV). Coenzima Q10 (CoQ10) A coenzima Q10 é também um dos nutrientes mais importantes no potencial fértil do casal, envelhecimento ovárico e saúde mitocondrial, quer pelo impacto na preservação da reserva ovárica quer na saúde do espermatozoide, sendo um dos suplementos mais importantes num processo de FIV. Vitamina D A vitamina D é essencial na adequação da foliculogénese e espermatogénese, na reserva ovárica (traduzida pela hormona anti-mülleriana) e a sua adequação (> 30 ng/mL) está associada a maiores taxas de fertilização. Além disso, é essencial na placentação e na redução do risco posterior de diabetes gestacional e pré-eclâmpsia na gestação. Ácidos gordos polinsaturados Os ácidos gordos polinsaturados, em particular o ómega-3, parecem favorecer a fertilidade feminina. Estão presentes em alimentos como os frutos gordos e oleaginosos, sementes e peixe gordo. No caso do peixe, há espécies com maior potencial de acumulação de metilmercúrio (por exemplo, o atum fresco e o peixe-espada, entre outros), cujo consumo deve ser evitado, uma vez que o mercúrio é um metal pesado com potencial neurotóxico. A preferência de azeite como gordura de eleição assegura também um bom aporte de gordura monoinsaturada e contribui para o potencial anti-inflamatório da dieta. Álcool e cafeína Os efeitos prejudiciais do álcool e da cafeína na capacidade de engravidar são consistentes, sobretudo para quantidades superiores a 2 doses padrão por dia no caso do álcool e 1-2 doses por dia no caso da cafeína. Assim, é muito importante moderar ou mesmo evitar o seu consumo. Síndrome do ovário poliquístico (SOP) e endometriose No caso da síndrome do ovário poliquístico, em que a resistência à insulina pode ser uma das características predominantes, uma dieta com baixa carga glicémica e um aporte de hidratos de carbono mais limitado (com preferência pelos hidratos complexos em detrimento dos açúcares simples), são essenciais para promover o controlo metabólico e uma ovulação adequada. Já na endometriose, por ser uma doença dependente de estrogénio, é crucial assegurar uma boa saúde intestinal, bem como limitar o consumo de carne vermelha e diminuir a exposição a xenobióticos (encontrados no plástico, nos produtos de limpeza e nos alimentos contaminados com agrotóxicos, por exemplo) que atuam como disruptores endócrinos, sendo capazes de prejudicar o equilíbrio hormonal da mulher e a fertilidade dos dois elementos do casal. Fertilidade masculina No caso particular do sexo masculino, há evidências da importância da suplementação com antioxidantes e também a sua ingestão através de frutas e hortícolas variados, entre os quais se destacam a vitamina C, coenzima Q10 e vitamina E. Existem ainda evidências claras de que o consumo de ácidos gordos saturados e trans, presentes por exemplo na carne vermelha e nos produtos de pastelaria e alimentos processados, prejudicam a fertilidade masculina . À semelhança daquilo que acontece no sexo feminino, os ácidos gordos ómega-3 parecem ter um efeito positivo também no homem. Índice de massa corporal O estado nutricional e o índice de massa corporal têm impacto também na fertilidade, com o excesso de peso (materno e paterno) e a magreza (materna) associados a menor probabilidade de conceção. Um regime alimentar saudável De um ponto de vista mais global, a adesão a padrões alimentares saudáveis, como é o caso da dieta Mediterrânica, tem sido associada a uma melhoria da fertilidade feminina e também da qualidade do sémen . Um aumento do consumo de peixe e frutos gordos, leguminosas, azeite, hortofrutícolas (de cores variadas), especiarias, ervas aromáticas e cereais integrais, em detrimento das carnes vermelhas e produtos processados, constitui uma mais-valia neste processo, para além do benefício que apresenta em muitos outros parâmetros da saúde do casal, como o perfil lipídico e inflamação. Os cuidados nutricionais do ponto de vista de otimização da fertilidade devem ser iniciados pelos menos 3 meses antes do início das tentativas de engravidar , já que este é o período necessário para que ocorra o desenvolvimento e maturação do oócito e espermatozoide que irão dar origem ao futuro embrião, que se pretende ser o mais saudável possível. Autora: Maria Inês Cardoso Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.