Falar com os adolescentes é, para muitos pais, uma tarefa árdua. No consultório, encontro cada vez mais jovens isolados, tristes, e imersos num silêncio que, por vezes, se torna ensurdecedor. Ao mesmo tempo, sento-me frente a pais exaustos, frustrados, muitas vezes zangados, sem compreenderem como aquele filho antes tão expansivo e disponível se tornou um desconhecido dentro de casa. Entre estes pais e filhos há um desejo genuíno de comunicar, mas também um desencontro constante. Cada tentativa de aproximação parece gerar ruído, mal-entendidos, e, inevitavelmente, conflito. As palavras tornam-se armas, os gestos defesas, e o amor, ainda que sempre presente, parece estar coberto por camadas de ressentimento e distância. Costumo dizer aos pais: “ em vez de caminhar de frente ao seu filho, tente caminhar ao seu lado. ” Não como uma instrução, mas como um convite. Caminhar ao lado significa aproximar-se sem pressionar, escutar antes de interpretar, acompanhar sem invadir. Uma parte importante da dificuldade em comunicação surge porque a adolescência implica também um luto silencioso para os pais: o luto da criança que já não volta. Aquela criança previsível, afetuosa, dependente, que se deixava orientar, dá lugar a alguém que reivindica espaço, que testa limites, que procura identidade. E esse movimento, natural e saudável, pode ser vivido pelos pais com estranheza, perda ou saudade. Quando surge alguma resistência em aceitar que os filhos deixaram de ser crianças, a comunicação pode ficar presa entre o que se deseja manter e o que inevitavelmente está a mudar. Quando um adolescente reage com irritação, se afasta ou tem comportamentos que os pais percebem como feios ou graves, é comum surgir o impulso imediato de repreender. Mas, por vezes, ajuda fazer uma pequena pausa interna e perguntar: o que estará este gesto a tentar expressar? Não como desculpa, mas como caminho de compreensão. Muitos comportamentos adolescentes são tentativas - imperfeitas, mas sinceras - de comunicar aquilo que ainda não conseguem traduzir em palavras. Caminhar ao lado implica também ajustar a forma de comunicar. Às vezes, significa falar menos e escutar mais. Outras, aceitar o silêncio sem o viver como rejeição. Fazer perguntas que abram espaço — “como foi para ti?” — em vez de perguntas que o fechem — “porquê fizeste isso?”. Validar emoções não é concordar com decisões. É mostrar que a experiência do adolescente faz sentido dentro da sua vivência. E, por vezes, o mais transformador é simplesmente estar disponível. Não para resolver, mas para acompanhar. Quando um adolescente se apercebe de que pode existir na presença dos pais sem ter de se defender, o diálogo tende a reencontrar o seu caminho. Caminhar ao lado não é uma técnica, é uma postura. É um movimento de relação, imperfeito e humano, em que pais e filhos se vão ajustando enquanto avançam. É no encontro possível, e não no encontro idealizado, que a relação encontra o seu lugar. Autora : Yennyfer Katerine Martins Conheça a equipa clínica de psicologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.