A dificuldade em controlar o peso corporal, o excesso de peso e a obesidade devem motivar a procura de cuidados médicos; A obesidade é uma doença crónica associada a diversas complicações e com um impacto significativo na saúde pública; Há hoje várias opções de tratamento e os medicamentos que surgiram nos últimos anos têm um bom perfil de segurança e bons resultados; É fundamental serem usados por indicação médica e com acompanhamento ao longo do tratamento, que é prolongado. O que é a obesidade? A obesidade é uma doença crónica complexa que se caracteriza por uma acumulação excessiva de gordura corporal que compromete a saúde, aumenta o risco de múltiplas complicações e pode reduzir a esperança de vida. Durante muitos anos foi encarada de forma simplista como consequência exclusiva de escolhas individuais, frequentemente resumida à expressão “comer menos e mexer mais” para ser resolvida. Hoje sabemos que esta visão é redutora e não reflete a evidência científica atual . A obesidade tem uma base neurobiológica bem estabelecida: envolve alterações nos mecanismos centrais de regulação do apetite, da saciedade e do balanço energético. Existe também um contributo genético significativo , que influencia a suscetibilidade individual ao aumento de peso. Tem ainda uma forte interação com o ambiente contemporâneo, caracterizado por elevada disponibilidade alimentar, sedentarismo, privação de sono e níveis elevados de stress. Além disso, a obesidade é uma doença recidivante . Após a perda de peso, o organismo ativa mecanismos adaptativos que aumentam a fome e reduzem o gasto energético, favorecendo a recuperação do peso perdido. Estes mecanismos não representam falta de força de vontade , mas fazem parte da própria fisiopatologia da doença. Ajuda também explicar por que razão muitas pessoas vivem ciclos repetidos de perda e recuperação de peso , mesmo quando seguem dietas e programas de exercício estruturados. Quais são os objetivos do tratamento da obesidade? Tal como outras doenças crónicas, como a hipertensão arterial ou a diabetes, o tratamento da obesidade é, frequentemente, prolongado e com acompanhamento médico a longo prazo . O objetivo do tratamento não é apenas reduzir o peso, mas sobretudo melhorar a saúde global , prevenindo ou tratando complicações associadas, como: Diabetes tipo 2; Hipertensão arterial; Doença cardiovascular; Apneia obstrutiva do sono; Doença hepática associada à disfunção metabólica; Alguns tipos de cancro; Infertilidade e alterações hormonais relacionadas com a função reprodutiva. Quais são as opções para o tratamento da obesidade? O tratamento da obesidade baseia-se geralmente em três pilares principais : Mudanças no estilo de vida, que incluem: Acompanhamento nutricional individualizado; Promoção de atividade física adequada à condição clínica; Melhoria do sono; Estratégias para lidar com fatores emocionais associados à alimentação. Tratamento farmacológico Nos últimos anos surgiram medicamentos inovadores que ajudam a atuar nos mecanismos biológicos envolvidos na obesidade. Cirurgia metabólica ou bariátrica Pode estar indicada em casos selecionados, quando as outras abordagens não foram suficientes ou quando existem complicações importantes associadas à obesidade. Embora as mudanças no estilo de vida continuem a ser fundamentais, sabemos hoje que, para muitos doentes, estas medidas isoladas podem não ser suficientes para contrariar os mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso. Os novos medicamentos para a obesidade Nos últimos anos surgiram novos medicamentos injetáveis que representam um avanço importante no tratamento da obesidade. Não substituem as alterações de estilo de vida, mas são uma ferramenta complementar muito importante. Estes medicamentos atuam sobretudo em hormonas produzidas no intestino que comunicam com o cérebro , como o GLP-1 (péptido semelhante ao glucagon-1) e, em alguns casos, também o GIP (péptido insulinotrópico dependente da glucose), desempenhando um papel essencial na regulação do apetite e do metabolismo energético. Ao atuarem nestas vias hormonais, estes fármacos ajudam a: Aumentar a sensação de saciedade; Reduzir a fome e o apetite entre refeições; Atrasar o esvaziamento gástrico; Melhorar o controlo do açúcar no sangue. Nos ensaios clínicos, estes tratamentos demonstraram perdas de peso médias que podem variar entre cerca de 10% e mais de 20% do peso corporal inicial , dependendo do medicamento e das características de cada pessoa. Importa salientar que os benefícios destes tratamentos vão além da perda de peso . Alguns destes medicamentos demonstraram também melhorias em várias doenças associadas à obesidade, incluindo diabetes tipo 2, doença hepática metabólica, síndrome de apneia obstrutiva do sono e risco cardiovascular. Quem pode beneficiar do tratamento farmacológico para a obesidade? De forma geral, os medicamentos para a obesidade podem ser considerados em adultos com índice de massa corporal (IMC) : Igual ou superior a 30 kg/m² , ou Igual ou superior a 27 kg/m² , quando existem doenças associadas como diabetes, hipertensão arterial, dislipidemia ou apneia do sono. Nem todas as pessoas respondem da mesma forma a estes medicamentos, e nem todas necessitam de tratamento farmacológico. A decisão deve ser sempre individualizada e tomada em conjunto, pelo médico e doente , após uma avaliação clínica detalhada. Segurança dos medicamentos e acompanhamento médico Como qualquer tratamento médico, estes medicamentos para tratar a obesidade podem ter efeitos adversos. Os mais frequentes são gastrointestinais , como náuseas, sensação de enfartamento, diarreia ou obstipação. Na maioria dos casos são ligeiros e transitórios, sobretudo quando a dose é aumentada gradualmente. A obesidade é uma doença crónica e recidivante, pelo que o tratamento tende frequentemente a ser prolongado , com necessidade de acompanhamento médico regular. O acompanhamento médico é importante para: Ajustar a dose de forma individualizada; Monitorizar possíveis efeitos adversos; Garantir que a perda de peso ocorre de forma saudável, preservando massa muscular. Dados de grandes estudos internacionais que em conjunto envolveram milhões de doentes sugerem que estes tratamentos apresentam um perfil de segurança favorável a longo prazo , quando utilizados sob supervisão médica. Compreender a obesidade e procurar cuidados médicos Está bem estabelecido que a obesidade não é apenas uma questão de estilo de vida ou força de vontade, é uma doença crónica com base biológica, que requer compreensão, acompanhamento médico, e acesso a tratamentos adequados . Reconhecer esta realidade é essencial para reduzir o estigma associado à doença e melhorar o acesso a cuidados de saúde eficazes. Quem tem dificuldade em controlar o peso, tenha excesso de peso ou suspeite de obesidade, deve procurar aconselhamento médico. Existem hoje várias opções terapêuticas que podem ajudar a melhorar a saúde, reduzir o risco de complicações e aumentar a qualidade de vida. Em Portugal, estima-se que cerca de dois terços da população adulta apresentem excesso de peso ou obesidade , o que reforça a importância de reconhecer esta condição como um problema de saúde pública relevante. Autora : Bárbara Filipa Araújo (Endocrinologia) Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.