José Preza Fernandes, médico especialista em urologia do Hospital da Luz, responde a questões frequentes sobre os problemas que afetam a próstata , a sua prevenção, diagnóstico e sinais de alerta. O que é a próstata, qual é a sua função e porque é tão importante para a saúde masculina? A próstata é uma glândula exócrina do sistema reprodutor masculino, com o tamanho aproximado de uma noz. Está localizada abaixo da bexiga e à frente do reto, envolvendo a porção inicial da uretra. Na minha prática clínica, costumo explicar que a principal função da próstata é produzir e secretar o líquido prostático, um componente essencial do sémen que nutre, protege e transporta os espermatozoides, garantindo a sua viabilidade. A próstata é fundamental para a saúde masculina não só pela vertente reprodutora, mas também porque, estando anatomicamente ligada ao trato urinário, qualquer alteração no seu tamanho ou estrutura pode impactar diretamente a micção e a qualidade de vida. Quando falamos de doenças da próstata, tendemos a pensar imediatamente em cancro. Que outras doenças podem afetar este órgão e como podemos distingui-las? Embora o cancro seja a doença que mais preocupa os doentes, a grande maioria dos problemas prostáticos que encontro no consultório não é maligna. As duas doenças benignas mais comuns são: A hiperplasia benigna da próstata (HBP) que é o aumento benigno do volume da próstata, muito comum com o avançar da idade, e causa sintomas urinários obstrutivos e irritativos; A prostatite, que é a inflamação ou infeção da próstata. Ao contrário da HBP e do cancro (que se desenvolvem de forma progressiva e silenciosa nas fases iniciais), a prostatite manifesta-se frequentemente com dor pélvica aguda, ardor ao urinar e febre, afetando frequentemente homens mais jovens. A distinção é feita através de uma avaliação urológica rigorosa, que inclui a história clínica, o toque retal, análises laboratoriais como o PSA e exames de imagem. O cancro da próstata é um dos cancros mais frequentes nos homens. Quais são os principais fatores de risco e quem deve estar particularmente atento? Os principais fatores de risco bem estabelecidos são: A idade: o risco aumenta exponencialmente após os 50 anos; A história familiar: homens com antecedentes diretos, como pai ou irmãos, diagnosticados com a doença; A etnia: homens de ascendência africana apresentam maior incidência. Devem estar particularmente atentos todos os homens a partir dos 50 anos, ou a partir dos 45 anos se houver antecedentes familiares de cancro da próstata ou da mama. A idade e os antecedentes familiares são fatores determinantes? Se um pai ou um irmão tiver tido cancro da próstata, a partir de que idade deverá um homem procurar aconselhamento médico? Sim, são absolutamente determinantes. Se um homem tem antecedentes familiares em primeiro grau (pai ou irmão), o risco de desenvolver a doença multiplica-se consideravelmente. Nesses casos de risco acrescido, recomendo sempre que o rastreio e o aconselhamento médico urologista comecem mais cedo, habitualmente por volta dos 45 anos, permitindo uma deteção precoce, numa fase em que a probabilidade de cura é máxima. Um dos aspetos mais preocupantes desta doença é a possibilidade de evoluir sem sintomas. Que sinais podem surgir e por que razão não devemos esperar por eles para procurar aconselhamento médico? É fundamental desmistificar uma ideia muito comum: ter queixas urinárias não é sinónimo de cancro da próstata. Na esmagadora maioria das vezes, sintomas como o jato fraco, a sensação de esvaziamento incompleto, o aumento da frequência urinária ou a necessidade de acordar várias vezes à noite para urinar estão associados a condições perfeitamente benignas, com particular destaque para a hiperplasia benigna da próstata (HBP), um aumento natural do volume glandular decorrente do envelhecimento, ou quadros inflamatórios e infeciosos. O cancro da próstata, por sua vez, desenvolve-se predominantemente na periferia do órgão, longe da uretra. Por esse motivo, nas suas fases iniciais, quando é plenamente tratável e passível de cura, é uma doença quase sempre assintomática e silenciosa. Se esperarmos pelo aparecimento de sintomas para investigar a próstata, podemos estar a perder a janela de oportunidade para um diagnóstico precoce. Em suma, aos homens deixo duas mensagens essenciais: Se tem queixas urinárias: Não entre em alarme a pensar em cancro. Procure avaliação médica porque existem tratamentos simples e muito eficazes para melhorar a sua qualidade de vida; Se não sente rigorosamente nada: Não presuma que está tudo bem. A ausência de sintomas não dispensa a vigilância regular e o diagnóstico precoce a partir da idade recomendada. Continua a existir algum receio em relação ao exame da próstata, nomeadamente ao toque retal. Como se processa atualmente a avaliação urológica e que exames podem ser necessários? Infelizmente, o receio e o estigma associados ao toque retal continuam a ser barreiras culturais que custam vidas. Na minha consulta, faço questão de explicar que a avaliação urológica moderna é rápida, indolor e realizada com total respeito pela privacidade e dignidade do doente. Consiste numa conversa clínica detalhada, complementada pelo doseamento do antigénio específico da próstata (PSA) no sangue e pelo exame físico (toque retal), que me permite avaliar o tamanho, a consistência e a presença de nódulos. Quando há suspeitas, recorro a exames complementares como a Ressonância magnética multiparamétrica e a biópsia prostática guiada. A partir de que idade deve um homem começar a preocupar-se com a saúde da próstata? Existe uma idade recomendada para fazer o PSA ou essa decisão deve depender do risco individual? De uma forma geral, os homens sem fatores de risco devem começar a discutir a saúde da próstata e a ponderar a realização do PSA por volta dos 50 anos. Contudo, para homens com fatores de risco (como história familiar ou ascendência africana), essa avaliação deve iniciar-se aos 45 anos. A decisão de realizar o teste é sempre individualizada, avaliada em consulta em função do risco global de cada homem. Um valor elevado de PSA significa necessariamente cancro? E o que acontece quando os resultados levantam suspeitas, mas ainda não permitem estabelecer um diagnóstico? Não, de todo. Um valor elevado de PSA não é sinónimo automático de cancro. O PSA é um marcador sensível, mas pouco específico, o que significa que pode elevar-se devido a infeções (prostatites), inflamações, hiperplasia benigna ou até após o exercício físico intenso. Quando o resultado levanta suspeitas, mas não é conclusivo, o passo seguinte na minha prática passa por solicitar uma ressonância magnética e, caso se mantenha a suspeita de lesão maligna, realizar uma biópsia para esclarecimento definitivo. Quando é diagnosticado um cancro da próstata, quais são atualmente as principais opções de tratamento? É sempre necessário operar ou existem situações em que a doença pode ser apenas vigiada? As opções terapêuticas evoluíram imenso e são totalmente adaptadas ao estadio do tumor, à sua agressividade (score de Gleason) e à saúde geral do doente. Atualmente, dispomos de várias vias, desde a vigilância ativa, indicada para tumores de baixo risco e muito localizados, em que monitorizamos o doente de perto sem intervenção imediata, evitando efeitos secundários desnecessários, até à cirurgia (prostatectomia Radical) e à Radioterapia. Portanto, nem sempre é necessário operar, a medicina personalizada dita a melhor estratégia. Um dos receios associados aos tratamentos é o impacto na vida sexual e na continência urinária. Até que ponto estes efeitos podem ser evitados, tratados ou recuperados? Este é, sem dúvida, um dos maiores receios que os doentes trazem à consulta. Contudo, a evolução tecnológica, como a cirurgia robótica e as técnicas de preservação nervosa, permitiram reduzir drasticamente estas complicações. Relativamente à continência urinária, a esmagadora maioria dos homens recupera o controlo total, muitas vezes com apoio da reabilitação do pavimento pélvico. Quanto à função sexual, embora o risco exista, dispomos hoje de terapias médicas e de reabilitação peniana altamente eficazes para recuperar a qualidade de vida. Existe alguma forma de reduzir o risco de desenvolver cancro da próstata? Que papel podem ter a alimentação, a atividade física e os hábitos de vida, sabendo que alguns fatores de risco não são modificáveis? Embora a genética, a idade e a etnia não possam ser alteradas, a adoção de um estilo de vida saudável tem um papel protetor importante. Aconselho sempre aos meus pacientes uma dieta equilibrada rica em vegetais, fruta e ácidos gordos ómega-3 (como na dieta mediterrânica), limitando o consumo excessivo de gorduras animais e carnes vermelhas processadas. A prática regular de exercício físico, a manutenção de um peso saudável e a abstenção tabágica ajudam a modular positivamente os processos inflamatórios e hormonais no organismo. Para terminar que mensagem gostaria de deixar aos homens que continuam a adiar uma consulta por vergonha, receio do diagnóstico ou pela ideia de que só devem procurar ajuda quando sentem algum problema? A mensagem que procuro passar diariamente no meu consultório é a de que o medo e o tabu nunca devem estar à frente da prevenção: O cancro da próstata, quando diagnosticado precocemente, tem taxas de cura acima dos 90%. Adiar uma consulta por vergonha ou pelo receio do desconhecido é perder a oportunidade de tratar a tempo uma doença silenciosa; Cuidar da saúde da próstata é um ato de responsabilidade para consigo próprio e para com quem mais ama; Procure o seu urologista, tire todas as dúvidas e faça os rastreios recomendados; A prevenção continua a ser a nossa melhor arma e salva vidas. Conheça a equipa clínica de urologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.