Todos os anos acontece a mesma cena. Uma fila de pais. Crianças pequenas. Mochilas quase maiores do que elas. Algumas entram curiosas. Outras agarram-se às pernas da mãe ou do pai. Outras choram. Outras suplicam: "Não vás." Poucos minutos depois, a porta fecha-se. Os pais ficam do lado de fora. As crianças do lado de dentro. E chamamos a isto… adaptação. Mas será mesmo? Há uma coisa curiosa sobre os seres humanos. Quando entramos num lugar desconhecido, procuramos imediatamente alguém conhecido. Num emprego novo, gostamos que alguém nos apresente à equipa. Num congresso, respiramos de alívio quando encontramos um colega. Procuramos, naturalmente, quem nos faz sentir seguros. Porque haveríamos de esperar o contrário de uma criança de dois ou três anos? Há mais de meio século, John Bowlby mostrou que a autonomia nasce de uma base segura . Mary Ainsworth confirmou depois que é quando a figura de vinculação está disponível que a criança explora mais, brinca mais e arrisca mais. A segurança não atrasa a autonomia. Torna-a possível. Quando uma criança entra pela primeira vez na escola, tudo é desconhecido: pessoas, cheiros, vozes, regras, espaços. Antes de explorar, precisa de sentir que aquele lugar é seguro. É por isso que procura naturalmente quem lhe transmite proteção. Não porque seja demasiado dependente, mas porque é assim que o desenvolvimento humano funciona. No entanto, é precisamente neste momento que muitos sistemas educativos pedem à criança para enfrentar sozinha a maior separação da sua vida até então. Como se aprender a separar-se fosse o primeiro objetivo da escola. Talvez o primeiro objetivo devesse ser outro: ajudá-la a construir uma relação suficientemente segura para que, mais tarde, consiga separar-se sem medo. Na consulta, quando pergunto aos pais como correu a adaptação, ouço frequentemente: "Correu muito bem." Mas basta aprofundar um pouco mais o tema para surgirem outras histórias: choro, recusas, pesadelos, ansiedade, maior irritabilidade em casa ou medo de voltar à escola. Nada disto significa, por si só, que exista um trauma, mas lembra-nos que a adaptação pode ser bem mais difícil do que parece . Há uma frase que ouvimos muitas vezes: "Ao terceiro dia já não chorava." Mas deixar de chorar não significa, necessariamente, sentir-se seguro. Às vezes é. Outras vezes é apenas desistir de pedir ajuda. Em alguns países, a entrada na escola faz-se de forma gradual. Nos primeiros dias, um dos pais permanece com a criança enquanto ela conhece o novo espaço e começa a construir uma relação com o educador. As primeiras separações acontecem apenas quando essa relação começa a transmitir segurança. A pergunta deixa de ser: "Quanto tempo demora uma criança a adaptar-se?" E passa a ser: "Quanto tempo precisa esta criança para confiar?" Também seria injusto colocar esta responsabilidade sobre os educadores. A maioria faz muito mais do que as condições permitem: acolhe lágrimas, regula medos e constrói relações. O problema raramente está nas pessoas. Está, muitas vezes, num sistema que exige uma adaptação mais rápida do que aquilo que sabemos sobre desenvolvimento infantil. Se sabemos que a autonomia nasce da segurança e que a segurança nasce da relação , talvez tenha chegado o momento de repensar a forma como organizamos a entrada das crianças na escola. Porque uma boa adaptação não é aquela em que a criança aprende rapidamente a separar-se. É aquela em que descobre, pouco a pouco, que também ali existe uma relação a partir da qual pode começar a explorar o mundo. Autora : Yennyfer Katerine Martins Conheça a equipa clínica de psicologia da rede Hospital da Luz. Fontes Ainsworth MDS, Blehar MC, Waters E, et al. Patterns of attachment: A psychological study of the strange situation. Lawrence Erlbaum Associates, 1978. Bowlby J. Attachment and loss : Vol. 1. Attachment. Basic Books, 1969. Bowlby J. A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books, 1988. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.