As redes sociais são uma fonte inesgotável de conteúdos de saúde e fitness , com vídeos, desafios, “antes e depois”, promessas de suplementos milagrosos, frequentemente partilhados por pessoas com milhares de seguidores. Estes conselhos parecem úteis: usam uma linguagem simples, chegam rapidamente ao nosso telemóvel e revelam resultados visíveis. No entanto, importa lembrar que o que funciona para uma pessoa pode ser inadequado ou até perigoso para outra. Há conteúdos partilhados por profissionais qualificados, que esclarecem dúvidas e incentivam a prática regular de atividade física, mas também circulam propostas de dietas demasiado restritivas, treinos exagerados sem supervisão e a ideia enganadora de um “corpo perfeito” pode ser alcançado facilmente por qualquer pessoa. Um treino de alta intensidade, por exemplo, pode ser benéfico para alguém preparado, mas torna-se um risco se for seguido por qualquer pessoa sem fazer uma avaliação prévia, o que demonstra como recomendações aparentemente certas podem ter efeitos negativos na vida real. Saber avaliar a qualidade da informação é cada vez mais uma competência essencial para proteger a saúde. Quais são os conteúdos mais comuns? No universo digital circula uma grande variedade de conteúdos sobre fitness e saúde: dicas rápidas de exercício, dietas da moda (como detox ou low-carb radicais), desafios virais e promessas de “transformação” com fotos de antes e depois. Muitas destas publicações misturam opinião pessoal, histórias de sucesso isoladas e imagens chamativas, mas quase nunca incluem explicações baseadas em ciência ou apoio de profissionais qualificados. Soma-se a isso a promoção de suplementos e produtos supostamente “naturais” para ganhar músculo ou emagrecer, muitas vezes ligados a parcerias comerciais pouco transparentes. Assim, embora a informação pareça abundante e convincente, a origem e a qualidade dessas mensagens variam muito, exigindo do leitor um olhar cada vez mais crítico e cuidadoso. Riscos associados a modas e desafios Seguir conselhos de fitness sem contexto pode trazer vários problemas. Do ponto de vista físico, exercícios muito intensos ou avançados, feitos sem preparação ou supervisão, aumentam o risco de lesões musculares e articulares, bem como de fadiga excessiva. Por exemplo, está demonstrado que modalidades populares de alto esforço, como o HIIT (de high-intensity interval training), embora possam ser benéficas, tornam-se perigosas quando mal aplicadas, especialmente em pessoas com problemas de saúde preexistentes. Dietas extremas também podem gerar défices nutricionais, compulsão alimentar e impacto emocional. No plano psicológico e comportamental, promessas de “resultados garantidos” e imagens de corpos “perfeitos” alimentam expectativas irreais, provocam frustração e baixa autoestima, podendo levar ao abandono do exercício, de tratamentos médicos ou orientações de profissionais. Em alguns casos, a adesão a dietas muito restritivas ou a suplementos divulgados online atrasa a procura por acompanhamento qualificado e pode interferir com medicamentos prescritos, o que torna também essencial adotar uma postura crítica perante esse tipo de conteúdo. Quem pode estar mais vulnerável? Tudo isto não significa que quem procura conteúdos de fitness e saúde nas redes seja ingénuo. Muitas pessoas, incluindo doentes, recorrem a esses espaços porque querem respostas rápidas e numa linguagem simples de entender. No entanto, algumas situações exigem mais cuidado: iniciantes na prática de exercício, pessoas com doenças crónicas, sintomas persistentes ou outros problemas de saúde, grávidas ou também quem procura mudanças rápidas no corpo após um diagnóstico de obesidade ou uma fase de grande insatisfação corporal, estão mais vulneráveis a seguir conselhos pouco seguros. Quem tem baixa literacia em saúde ou sente falta de apoio profissional também tende a confiar mais no que vê online. Vários estudos indicam ainda que, em muitos contextos, as mulheres sofrem maior pressão social para aderir a rotinas rígidas de treino e dieta. Em suma, quanto mais preocupados estamos com a nossa saúde e quanto mais desejamos resultados rápidos, maior a probabilidade de aceitarmos recomendações sem as pôr em causa . Não basta ser verdadeiro ou falso Muitas pessoas avaliam uma publicação de fitness e saúde apenas como “verdadeira” ou “falsa”. No entanto, a realidade é mais complexa. Uma informação pode ser tecnicamente correta e, ainda assim, não se aplicar à situação de quem a lê. Por exemplo, pode estar demonstrado que 30 minutos diários de caminhada melhoram a saúde cardiovascular em idosos saudáveis, mas isso não significa que alguém com doença cardíaca grave deva simplesmente copiar essa rotina ou tentar algo ainda mais intenso. Do mesmo modo, um exercício bem executado por um coach numa rede social não é automaticamente seguro para todas as pessoas. Por isso, não basta perguntar se um conselho é correto: é preciso refletir para quem, em que contexto e de que forma ele se aplica. Isso envolve considerar o estado de saúde individual, limitações pessoais, estilo de vida e motivações. Conteúdos mais rigorosos costumam trazer alertas e exceções, enquanto mensagens mais arriscadas vendem soluções universais e sem riscos, o que exige um olhar mais crítico por parte de quem consome essa informação. Avaliar a fiabilidade com 5 perguntas Perante tanta informação sobre fitness e saúde nas redes sociais, ter um pequeno roteiro que ajude a avaliar o que vamos vendo pode ajudar. A proposta é avaliar a informação através de cinco perguntas simples , que funcionam como filtros práticos. Sinais de alerta adicionais Há ainda sinais de alerta adicionais nas publicações de saúde e fitness. Frases conspiratórias do tipo “os médicos não querem que você saiba isto”, incentivos para interromper medicação prescrita, uso quase exclusivo de fotos de “antes e depois” sem qualquer dado, depoimentos individuais apresentados como única “prova”, ataques genéricos a profissionais (“todos os nutricionistas estão errados”) e afirmações absolutas que ignoram riscos, são alguns dos indícios de baixa qualidade. Naturalmente, esses sinais, por si só, não garantem que um conteúdo seja totalmente falso, mas indicam que é prudente aplicar as perguntas críticas sugeridas anteriormente ainda com mais cuidado, antes de seguir qualquer recomendação. Quando procurar aconselhamento profissional Sempre que surgirem dúvidas sobre sintomas e sinais relacionados com saúde, treino físico, dietas e uso de suplementos o mais seguro é, sempre, conversar com um médico, um nutricionista, um fisiologista do exercício ou outro profissional qualificado nas várias áreas. Adotar esta atitude é especialmente importante quando se tem uma doença crónica, sintomas persistentes ou se pretende iniciar um programa de treino físico intenso sem supervisão. Recorrer a aconselhamento profissional significa que cada caso será avaliado individualmente e que as recomendações serão ajustadas à realidade de cada um. Resumindo As redes sociais podem ser uma fonte muito útil de informação e motivação, mas exigem um olhar crítico : nem tudo o que se diz é verdade e nem tudo o que é verdade serve para todos. Vale sempre a pena perguntar quem está a comunicar, em que provas se baseia, se reconhece limites, se há interesses comerciais envolvidos e se considera as diferenças individuais. Usando estas cinco perguntas como filtro antes de seguir qualquer tendência, e procurando aconselhamento profissional quando necessário , fortalecemos os cuidados com a nossa saúde e aumentamos probabilidade de que o que acaba mesmo por vir das redes sociais será realmente benéfico na nossa vida. Fontes Peelo Dennehy D, Murphy S, Foley S, McCarthy J, Morrissey K. Keeping fit & staying safe: a systematic review of women’s use of social media for fitness . Intern J Human-Computer Stud 2024;192:103361. Thomas DD, Xu L, Yu B, Alanis O, Adamek J, Canton I, Lin X, Luo Y, Mullen SP. Physical activity misinformation on social media: systematic review . JMIR Infodemiology 2025;5:e62760. Autor: Hugo Vieira Pereira (Fisiologia do Exercício) Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.